Um padeiro no Brasil foi multado, em 1946, por fazer pão com farinha pura, sem misturas, o que valeu uma «Louvação» de Rubem Braga:
«Glória a ti, padeiro de Brás de Pina, padeiro de pão puro.
«Entre o falso leite, a falsa arte, a falsa crítica de arte, o falso dinheiro do governo, a falsa palavra do político; entre a falsa mulher, a falsa meia de nylon, a falsa companhia e a falsa democracia - glória a ti. Mergulhamos no frenesi das falsificações; nossos panos são de falsos tecidos, os sapatos de falso couro, as garrafas de falsa bebida, as palavras de falsa moral. Há orquestras tocando falsas músicas e oradores com a voz embargada, pela falsa emoção; e o chefe de Polícia resolve punir falsos crimes. [...]
«Tu, só tu, fazes o pão puro. às escondidas, nesta cidade pecaminosa; contra as posturas municipais e contra os costumes; é aí, na penumbra de Brás de Pina, que formas a tua massa pura e a levas ao forno de verdadeira fogo do ideal, ao fogo do teu coração.»
Rubem Braga - Desculpem tocar no assunto. Lisboa: Tinta da China, 2023, p. 36-37.

Um belo naco de prosa☺️
ResponderEliminarBom dia, com um pãozinho puro 🥪
Maria
Gosto imenso das crónicas deste homem.
ResponderEliminarDaqui a pouco tb comerei um naco de pão puro.
Bom dia!
Belo texto - a história parece uma coisa saída dos Miseráveis. Bom dia!
ResponderEliminarCuriosa historia
ResponderEliminarBoa tarde
Bonito texto en defensa do bon pan.
ResponderEliminarApertas.
A propósito da reconhecida mestria de Rubem BRAGA, patente na sua irresistível abordagem do "assunto" universal da panificação (como bem sabemos, ontem largos sectores da população planetária assinalaram o Dia Mundial do Pão), uma temática vital para todos os Povos mas, contudo, nem sempre isenta de terríveis dramas e angústias sociais, regresso, por breves instantes, à leitura emocionada de FIALHO de Almeida (1857-1911), um contista e cronista de notável talento, cujo "espírito barroco do seu estilo" é, tantas vezes, subestimado!
ResponderEliminarAqui segue, pois, um breve e "imperdível" excerto (no fundo, só aparentemente "fora do contexto"!...) de um dos seus escritos ["CEIFEIROS", in "À Esquina" (1895), uma passagem que integra o criterioso volume antológico "ARTES E OFÍCIOS na Literatura Portuguesa", com Seleccão, Apresentação e Notas de Júlio FRECHES e Serafim FERREIRA e Prefácio de Arnaldo SARAIVA, editado pelo Instituto do Emprego e da Formação Profissional em 1992]:
"(...) Meio-dia, a hora da sesta enfim! (...) Mas o que eles [os CEIFEIROS] querem é abandonar-se, cair para ali, seja onde for. Alguns tiram a roupa, encharcada e fétida de suor e entre as estevas, imundos, nus, tombam os braços, deslumbrados, incapazes dum esforço, flácidos, com a inquietação sinistra da hora, um peso de cérebro que parece a cabeça rebentando do crânio, inchados de calor e revolvendo sem apetite os alforges, com o paladar encortiçado, O PÃO SABENDO A TERRA [os caracteres maiúsculos são, obviamente, de F.F.], a água a caldo, a boca a lodo, e uma ânsia de dormir atroz, complicada do terror de ficar na primeira letargia."
Votos de Bom Fim-de-Semana (de preferência, Cultural) para todo(a)s!
Na verdade, a história é incrível.
ResponderEliminarLeio sempre com grande prazer Fialho de Almeida. Lembro de ter lido o livro À esquina, mas não do texto que refere. Fialho de Almeida tinha uma língua muito, demasiado, afiada, pelo que não foi muito apreciado pelos seus contemporâneos. Mas também por essa sua característica é um escritor fantástico.
Bom fim de semana para todos.