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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Leituras no Metro - 144

Alfragide: Leya, 2014
€3,90

Ontem comprei esta pequena agenda para 2014 com citações de António Lobo Antunes, extraídas dos seus Livros de crónicas. Escolhi a do dia 20 de novembro: «E havia Bach, parecido com a estátua do Marquês de Pombal nos caracóis postiços e nos duplos queixos, a fitar-me um pouco de lado numa severidade de estadista.»


quarta-feira, 13 de março de 2013

Citações


(... ) Há um provérbio judeu muito antigo que me persegue há séculos : o homem pensa, Deus ri. Não imagino um Paraíso com falta de humor, não imagino dissolver-me um dia numa mentira horrível. Prefiro a descrição do escritor Júlio Dantas, que não é tão mau como os ignorantes pensam, a contar a chegada do poeta Bulhão Pato ao céu, " poisando a mão no ombro formidável de Deus e a perguntar-lhe
- Rapaz! Como estás tu? "
Que adjectivo estupendo, que frase bem balançada. E é uma coisa mais ou menos desse género que penso. É pouco provável que poise a mão no ombro formidável de Deus ( não toco muito nas pessoas e há alturas em que gostava tanto ) e lhe pergunte
- Rapaz! Como estás tu?
porque sou tímido. Mas, se fosse capaz de perguntar, gostaria que me respondesse
- Menos mal, filho, menos mal
e me deixasse andar onde me apetecesse porque a Sua casa, não é verdade, porque a Sua casa, e desta certeza não saio, é minha também.

- António Lobo Antunes, na VISÃO da semana passada.

P.S. - E concordo com ele sobre Júlio Dantas, de quem de vez em quando releio com prazer algumas páginas.

domingo, 16 de outubro de 2011

Vitorino canta um pasodoble, a propósito de um post de Jad

Achei graça a esta entrevista...



Todos os homens são maricas quando estão com gripe


Pachos na testa
terço na mão

uma botija
chá de limão

zaragatoas
vinho com mel

três aspirinas
creme na pele

grito de medo
chamo a mulher

ai Lurdes Lurdes
que vou morrer

mede-me a febre
olha-me a goela

cala os miúdos
fecha a janela

não quero canja
nem a salada

ai Lurdes Lurdes
não vales nada

se tu sonhasses
como me sinto

já vejo a morte
nunca te minto

já vejo o inferno
chamas diabos

anjos estranhos
cornos e rabos

vejo os demónios
nas suas danças

tigres sem listras
bodes de tranças

choros de coruja
risos de grilo

ai Lurdes Lurdes
que foi aquilo!

não é a chuva
no meu postigo

ai Lurdes Lurdes
fica comigo

não é o vento
a cirandar

nem são as vozes
que vêm do mar

não é o pingo
de uma torneira

põe-me a santinha
à cabeceira

compõe-me a colcha
fala ao prior

pousa o Jesus
no cobertor

chama o doutor
passa a chamada

ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada

faz-me tisanas
e pão-de-ló

não te levantes
que fico só

aqui sozinho
a apodrecer

ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.

                                                     António Lobo Antunes

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Novidades - 199


Queria gostar de si, madame, mas Deus que é branco, não permite, não é que gaste tempo com os pretos, quem são os pretos, o que são os pretos, como se lida com eles, apenas não fazem parte do que considera a vida, não nos criou, viu-nos nascer em África com a qual não gasta tempo também, uma coisa inexplicável que Lhe não diz respeito, surgida por acaso ou desinteresse d' Ele e povoada de criaturas não feitas à sua imagem e semelhança, vindas de um lugar incerto para O aborrecerem, com gritos desarticulados e ruídos monótonos, à beira de rios que não inventou ou no interior de matas que ignora, criaturas e bichos, que evidentemente não decidiu existirem, devorando-se entre si numa gula perpétua, não por cálculo ou instinto de poder como os brancos, em consequência da sua própria natureza, não pedimos, não nos revoltamos, não pensamos, comemo-nos somente e ficam os ossos, solitários, na terra, até o capim e a pressa das raízes os comerem por seu turno e a gente, que nunca fomos lembrados, esquecidos de vez (...)

Assim começa o nono capítulo de A Comissão das Lágrimas, o novo romance de Lobo Antunes que está à venda desde a passada sexta-feira.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Cinenovidades - 197 : A Morte de Carlos Gardel



Teve ontem estreia comercial esta primeira adaptação de um romance de António Lobo Antunes, realizada por Solveig Nordlund e que conta com Ruy de Carvalho, Celia Williams, Rui Morisson e Teresa Gafeira.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Citações - 160

( O escritório de Tolstoi, Casa Tolstoi, Yasnaya Polyana, Rússia )


(...) Conheci homens políticos importantes, desportistas excepcionais, criaturas de extrema bondade, santos anónimos de alminhas puras mas jamais me emocionei tanto como perante os criadores, não pela sua capacidade de nos oferecerem a beleza na palma da mão estendida, juntamente com a dignificação do Homem, mas pelo enorme padecimento inerente a esta capacidade, e a certeza pavorosa do seu trabalho estar destinado a ficar incompleto. Vem-me à cabeça Tolstoi moribundo, numa estação de caminho de ferro, percorrendo o cobertor com os dedos no gesto de escrever. É dessa maneira que gostaria de me ir embora: a escrever, com os dedos incertos, numa dobra de lençol, na tentativa falhada de completar o meu De Profundis necessariamente fragmentário. Oxalá, numa igreja da Roménia, cercada de corvos e nogueiras, um único seminarista, porque um único seminarista me chega, reze cantando pela alma eterna de mais um pobre escritor falecido.

- António Lobo Antunes, na Visão hoje posta à venda.

domingo, 20 de março de 2011

Honoris causa

É amanhã, às 18h, a cerimónia de doutoramento honoris causa de António Lobo Antunes na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ONDE ME APETECIA ESTAR- 44



Gostava de estar hoje em Bobigny, a 3km de Paris, mais propriamente na grande maison de culture MC93, para assistir ao início daquilo a que chamo o triunfo de António Lobo Antunes.
É que o primeiro semestre da programação de 2011 do dito espaço cultural é dedicado a este escritor português, pelo que até Junho vão ser cerca de meia centena de espectáculos e outros eventos: leituras, conferências, teatro, instalações e ateliês, com nomes conhecidos da cultura portuguesa e da francesa.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Citações - 130



(...) A imortalidade, em Arte, é difícil de prever. Régio e Nemésio nasceram em 1901, há cinquenta anos Régio era imensamente popular, Nemésio conhecido pelas suas conversas na televisão. Quem imaginava, na altura, que a poesia de Régio ia sumir-se num rufo e a de Nemésio se mantém sem uma prega, e cresce?
Eu penso: João Cabral de Melo Neto vai permanecer. E a seguir penso: quem sabe se não estou enganado? Os critérios de avaliação serão completamente diversos, os motivos que levam as pessoas a aderir a uma obra também, o movimento do gosto incessante. Bach levou cento e cinquenta anos esquecido até ser adoptado pelos românticos. Mas será isto importante, será isto realmente importante? Até que ponto todos os livros, de todos os autores, não formam um único , imenso livro, que principiou a ser escrito muito antes de nós e prosseguirá sem fim, interminável?
Perguntas, perguntas. No fundo não me interessam muito: o que eu desejaria era deixar, mais ou menos acabada, a minha casa de palavras, por definição para sempre incompleta. E que o leitor se sentisse justificado e feliz lá dentro, rodeado de vozes que afinal são as suas.


-
António Lobo Antunes
, na Visão.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Citações - 111 : Lenine, livros e editores...


(...) a maior parte dos editores ou são ignorantes ou são vigaristas, oferecendo ao público pacotilha impressa: um bom editor, tal como um bom leitor, é mais raro que um bom livro. Uma editora comercialmente bem sucedida é má, ou então tem que fazer compromissos. A casa alemã onde estou, por exemplo, possui um catálogo honesto, dividido em duas partes, literatura e best-sellers.
O argumento temos de pôr as pessoas a ler é idiota: o que temos é de ensinar as pessoas a ler. Até Lenine compreendia isto, ao afirmar que a arte não tem de descer ao povo, é o povo que tem de subir à arte.(...)
António Lobo Antunes, De livros e editores, na Visão da semana passada.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Citações - 106


(...) Pode parecer ridículo mas adorava voltar a fazer cocó em Benfica. A banheira com patas de leão, o esquentador pré-histórico, os perfumes da minha mãe numa mesa, o cheiro da laca dela, a brilhantina do meu pai, o pente sempre gorduroso, a escova com que alisava o cabelo apertando-o nas têmporas. Era o único de nós que fazia a barba. Acho que também não visitou as Bermudas nem Marrocos nem Porto Rico. Saía para o hospital de manhã, voltava ao fim do dia e tudo cheirava a cachimbo. Achava esquisito que tratasse o meu avô por pai, pai era ele, o meu avô era avô. Esse fazia a barba também. O mundo inteiro fazia a barba menos eu. Sinto a falta da rapariga lá em baixo, à chuva, preocupo-me com o que lhe terá acontecido. Nem quero pensar que a água das valetas a levou, de mistura com as folhas caídas.


É o último parágrafo de mais uma bela crónica do António Lobo Antunes- Rapariga à chuva, na Visão desta semana.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Futebol nas Letras - 1



xxxO GRANDE BARRIGANA

xxxDe há quarenta anos para cá, com entusiasmo, fervor e admiração, vi jogar quase todos os grandes guarda-redes portugueses, do inesquecível Azevedo, o Hércules do Barreiro, a José Pereira, o Pássaro Azul
xxx(de quem conservei durante meses e meses uma preciosa biografia ilustrada com imensos retratos, um dos quais mostrava um senhor mirrado e pequenino ao lado de uma locomotiva com a impressionante legenda Seu pai, Amadeu Pereira, nas suas funções de guarda do túnel do Rossio)
xxxvi o gigantesco Ernesto, do Atlético, o terror dos extremos, vi Abraão, do Olhanense, cujo nome mágico possuía para mim apocalípticas ressonâncias de catecismo, vi Cesário, do Sporting de Braga, na tarde de glória no pelado do Benfica em que defendeu todos os remates de Palmeiro, Arsénio, Águas, Rogério e Rosário, vi Capela, da Académica, e Sebastião, o loiro Nero do Estoril Praia, célebre pelos seus voos acrobáticos, vi o Campo Francisco Lázaro render-se em peso ao fantástico Aníbal, de poupa trabalhada e brilhantina. a propósito de quem o meu tio João Maria exclamava Maior do que ele só o das Guerras Púnicas, vi o caprichoso Carlos Gomes pontapear fotógrafos antes de se transferir para Espanha e de ameaçar o presidente do clube, quando lhe não pagavam, com a sábia frase No hay dinero no hay portero, acompanhei carinhosamente Vital, do Lusitano de Évora, que sulcava a relva com o calcanhar pensativo da bota para marcar o centro da baliza, e todavia, para meu desgosto e frustração, nunca assisti a nenhum jogo do meu ídolo Frederico Barrigana, o Mãos de Ferro, keeper do Futebol Clube do Porto. No intuito de compensar tal desdita recortava embevecido do jornal os instantâneos que o mostrava a saltar com um avançado apertando-lhe contra as partes um joelho dissuasor
xxx(porquê partes se são inteiras?)
[...]
António Lobo Antunes
In: Livro de crónicas. 2.ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 1999, p. 17-18

Leiam o resto da crónica que vale a pena.
Secção aberta a todos, colaboradores e comentadores.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

À terceira será de vez?

Não é muito habitual entre nós falar-se da vida privada dos escritores ( casamentos, divórcios, traições etc ) pelo menos para o grande público, embora as "histórias" circulem normalmente pelos mentideros. No caso de António Lobo Antunes, o terceiro casamento do escritor teve destaque em vários jornais e revistas, desde logo pelo high profile da noiva: Cristina Ferreira de Almeida, directora da revista VIP. O casamento ocorreu na passada quarta-feira. E provavelmente a idade de ambos justifica o curto namoro: foram apenas 3 meses.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Hoje na FNAC Chiado


António Lobo Antunes vai hoje à Fnac do Chiado falar do seu novo livro, a história de uma família ribatejana em decadência acelerada: drogas, pedofilia, jogo- melhor é impossível...
É às 19h30.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Banho de lua

" (...) Um cabeleireiro aqui perto tem escrito na montra um resumo dos seus serviços, que inclui unhas de gel, drenagem linfática e banho de lua. Banho de lua é quase tão notável como cri cri cri foguete. Fui perguntar: consiste em pôr a pessoa toda loira, do cocoruto até aos pés, só não compreendo lá muito bem o que tem isso a ver com banho e com lua.
Se um dia destes cruzarem um sujeito amarelo-maçaneta sou eu. (...) "

É um excerto de mais uma notável crónica de António Lobo Antunes. Está na Visão de hoje.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Se razões fossem precisas... - 1

Nota prévia: Até para não eternizar esta série, fiz uma selecção das citações antologiadas e o principal critério foi o de escolher autores portugueses. De entre estes, prevaleceu o meu gosto pessoal. Ficam, assim, explicados os saltos na numeração. 481. Por exemplo, eu gosto do Ulisses, do Joyce, claro que gosto. Mas muitas vezes irrita-me porque sinto que é acrobacia pela acrobacia. Aí, aproximo-me mais do Tolstoi quando ele fala na eficácia do livro. O livro tem que ser eficaz. Tem de se sacrificar a tentação a favor da eficácia. Por exemplo, o Nabokov. É um excelente escritor e irrita-me. Irrita-me porque estou sempre a vê-lo dizer-me : repara como eu sou inteligente, olha como eu faço isto. E faz bem, de facto. Mas estou a sempre a vê-lo a ele atrás dos livros. Já estou farto de dizer isto : o livro é que tem de ser inteligente.

- António Lobo Antunes, Mil razões para ler um livro/3, Alma Azul, Abril de 2009.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Biblioteca António Lobo Antunes


«Conrad, no seu melhor, é um dos grandes autores de todos os tempos e O Coração das Trevas um altíssimo e terrível livro, cheio de portas por onde entrar e nenhuma para sair, onde se caminha, página a página, no interior de um nevoeiro deslumbrante, construído em torno de Kurtz, criatura que quase não aparece e pouco fala e, no entanto, é o eixo em torno do qual toda a narrativa gira.
«Denúncia do colonialismo, texto político, parábola da angústia do homem no tempo, relato da humanidade truncada, etc., pode bordar-se indefinidamente por cima do que Conrad fez.» (do prefácio de A.L.A.)
«A Letra Encarnada é um livro admirável daquele que foi, a par de Melville, o grande escritor americano do século dezanove.
«Este romance dramático e intenso é uma obra-prima, como praticamente tudo o que o autor deixou. Curioso o facto de uma novela tão americana na sua trama essencial tocar o leitor de cultura muito diferente pelo jogo de emoções e temas.» (do prefácio de A.L.A.)



«Ora aqui está ele, um dos monstros sagrados da Literatura de todos os tempos. Morreu com 49 anos, media um metro e meio, escrevia da meia-noite às oito da manhã, rodeado de candelabros e alimentado a café, e deixou uma obra única.
«Fica-se cheio de admiração pela capacidade que este homenzinho tem de construir um mundo, ele que considerava o romance a “História Privada das Nações” e achava indispensável ter remexido em toda a vida social para ser um verdadeiro escritor. Depois de Balzac a Literatura evoluiu imenso mas o seu lugar é eterno, seja o que for que a palavra signifique.» (do prefácio de A.L.A.)

segunda-feira, 16 de março de 2009

O Homem quando está com gripe...


Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha, fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes
recebido por e-mail