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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Alma



 
Não sou, por princípio, amante das adaptações de obras clássicas e, em teatro, de enecenações que pretendem-  raramente o conseguindo - transpor para os nossos tempos o que foi escrito para outros e que ficam, geralmente, desenquadros de valores, falas, roupas da época.Há, como em tudo, excepções.
É o caso de Alma, a partir do Auto da Alma de Gil Vicente, em cena no Teatro Naciona D. Maria II até 3 de Março. Nuno Carinhas, director artístico do Teatro Nacional de S. João, fez, com Pedro Sobrado, a adaptação dramatúrgica, encenou e fez os figurinos.E o resultado é excelente, com a introdução, no auto vicentino, de poetas recentes:Teixeira de Pascoais, Vitorino Nemésio e Guerra Junqueiro.
O elenco é constituído por actores de grupos do norte de Portugal e do Sul, com uma boa participação.A cenografia, nua, de Pedro Tudela.
De referir que o Programa distribuído tem textos excelentes, de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, João Veloso, Anne Marie Quint, professora emérita da Université Sorbonne Nouvelle, José Augusto Cardoso Bernardes, professor da Universidade de Coimbra, de Alberto Pimenta, poeta e ensaísta, de Clara Pinto   Correia, bióloga e escritora, de Clara Saasrsfield Cabral, psicanalista, de Fei Bento Domingues, O.P  e de Nuno Carinhas e Pedro Sobrado.
Em tempos quaresmais, para crentes e não crentes, vale a pena assistir a esta "Alma"

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Um livro, uma pequena [grande] alegria!

Com o sol veio também a compra do meu primeiro livro miniatura. Pode não ser um tesouro mas para mim é e muito precioso. Deu-me uma grande alegria. Para a MR que colocou um post sobre livros miniatura.

Obras de Gil Vicente, (6 x 4,5 cm)

Uma dedicatória deliciosa:


"Ao grande apreciador das "Barcas" ofereço como recordação da ida a Lisboa



Manuel"... podia ser para mim.




S.d. Edições Liliput. Talvez tenha sido editado entre 1959 e 1965?

Foi aqui que comprei: Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho.

Um portátil um pouco pesado





segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A barca do inferno

Comprei este fim de semana a reprodução da primeira (?) edição do auto de Gil Vicente, "A barca do Inferno", impressa com o título Auto de Moralidade.

Começa a declaração e argumento da obra:
Primeiramente, no presente auto, se figura que, no ponto que acabamos d espirar, chegamos subitamente a um rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, a saber, um deles passa pera o Paraíso, e o outro pera o Inferno; os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do Paraíso um Anjo; e o do Inferno, um arrais infernal e um Companheiro. 
O primeiro interlocutor é um fidalgo que chega com um pajem que lhe leva um rabo mui comprido  e uma cadeira d espaldas.
E olhando para a gravura que acompanha o texto ficamos a ver a cena, conforme Gil Vicente a queria representar.
Lá está o fidalgo com a capa de cauda [rabo] comprido, transportada pelo pajem; e a cadeira, dobrada, ao ombro; a barca com o diabo (que mais parece um "dragão" alado) acompanhado; assim como a barca com o anjo.



É raro haver uma figuração tão próxima entre o texto e a gravura.
Não tem inscrito impressor. Aparece, normalmente, referenciada como tendo sido impressa cerca de 1520. Mas existe na obra um ponto que tem passado em branco e que pode ajudar a recuar a data da sua impressão.
Diz no fim:
"Autos das barcas que fez Gil Vicente per seu [sic] mão. Corrigida e imprimido per seu mandado. Pera o qual e [sic] todas suas obras tem privilégio del Rei nosso senhor. Com as penas e do teor que pera o Cancioneiro Geral Português se houve." (Português actualizado)

A edição do Cancioneiro Geral [Português] referida, aparentemente, só pode ser a edição feita entre Almeirim e Lisboa, por Hermão de Campos, no ano de 1516.

Fará sentido, em 1520, ainda referir os privilégios de uma obra que tinha sido impressa em 1516? Não me parece. Contudo a edição de 1516, conforme é hoje conhecida, também não apresenta impresso o alvará com privilégio.
Estará a edição de 1516 incompleta? Ou houve uma outra edição do Cancioneiro, que hoje não se conhece completa, e por isso haver as variantes que Helga Maria Jüsten (Incunábulos e Post-Incunábulos, Lisboa, CEH, 2009) aponta para a impressão de 1516? As respostas a estas dúvidas ajudariam a datar este exemplar.
Aparentemente esta obra de Gil Vicente terá de ser recuada para o ano de 1516-1517, sendo obra do impressor Hermão de Campos. E será que os tipos tipográficos podem ser de Hermão de Campos? Talvez. Mas só Helga Jüsten poderá responder, com toda a propriedade e rigor.
Mas eu (pelo faro, que não é ciência) encontro semelhança no traço do artista que abriu esta gravura da obra de Gil Vicente e no traço da gravura do Boosco Deleytoso, este impresso em 1515, por Hermão de Campos.

 Post para Helga, com admiração.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Chitas de Alcobaça - 3


«E logo daí a um ano
pera ajuda de casar
uma órfã, mandaste dar
meio covado de pano
d'Alcobaça por tosar.»
(Gil Vicente - Almocreves. Lisboa: Quimera, 1993, p. 8)

Mais umas das chitas em exposição no Mosteiro de Alcobaça, até 19 de Setembro.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Dia Mundial do Livro, Gil Vicente!

No dia Mundial do Livro lembrei-me de Gil Vicente e do Auto da Alma por causa da sua representação no Teatro D Maria II com o título:
MISERERE, (O Auto da Alma e outros textos de Gil Vicente), com encenação e Colagem de textos de Luis Miguel Cintra.

Imagem retirada daqui
x
(...)
Vem o Anjo Custódio, com a Alma, e diz:

Anjo xxxxxAlma humana, formada
xxxxxxxxx de nenhuma cousa feita,
xxxxxxxxx mui preciosa
xxxxxxxxxde corrupção separada,
xxxxxxxxxe esmaltada
xxxxxxxxxnaquela frágoa perfeita
,

xxxxxxxxxgloriosa!
xxxxxxxxxPlanta neste vale posta
xxxxxxxxxpera dar celestes flores
xxxxxxxxxolorosas,
xxxxxxxxxem a alta costa,
xxxxxxxxxonde se criam primores
xxxxxxxxxmais que rosas!
x
xxxxxxxPlanta sóis e caminheira!
xxxxxxxque ainda que estais, vos is
xxxxxxxdonde viestes.
xxxxxxxVossa pátria verdadeira
xxxxxxxé ser herdeira
xxxxxxxda glória que conseguis:
xxxxxxxandai prestes,
xxxxxxxAlma bem-aventurada,
xxxxxxxdos anjos tanto querida,
xxxxxxxnão durmais!
xxxxxxxUm ponto não esteis parada,
xxxxxxxque a jornada
xxxxxxxmuito em beve é fenecida,
xxxxxxxse a tentais.
(...)

Excerto da peça transcrita daqui

terça-feira, 30 de março de 2010

A Paixão na Poesia Portuguesa II

Albrecht DürerChrist as the Man of Sorrows,c. 1493
x

AlbrecOil on panel, 30 x 19 cm,Staatliche Kunsthalle, Karslruhe


Gil Vicente

(Fala de Cristo)

Eis aqui subimos a Jerusalém
para tirar o vestido em que ando;
porque os açoutes me estão esperando.
Cumpra-se todo o meu mal e meu bem.
Quero ir levar
minha breve vida a quem m'há-de matar;
e assim entregar a minha cabeça
à cruel c'roa, por que ela padeça
com tanto de sangue, que quem me olhar
que não me conheça.

Quero ir levar estes meus cabelos
onde sejam feitos duzentos pedaços;
quero ir pregar estes pés e meus braços
onde os sinta, e não possa vê-los:
e o delicado
triste meu peito, que seja pisado
com couces irosos, e minhas queixadas
e dentes, quebrados com mil bofetadas.
E eu virei logo ser sepultado
em breves passadas.

(Breve Sumário da História de Deus)

António Salvado, A Paixão de Cristo na Poesia Portuguesa, Lisboa: Polis, p. 13 e 14

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Custódia de Belém, Impressões I.

O artigo de Lucinda Canelas agradou-me e levou-me a observar com mais pormenor a Custódia de Belém. Registo aqui algumas impressões e não a sua história porque não tenho possibilidade de consultar fontes primárias.
A data da criação da Custódia remonta ao ano de 1506. A autoria é do dramaturgo Gil Vicente, facto que levantou algumas polémicas, contudo, é consensual a sua aceitação.

O ouro utilizado veio da costa oriental africana, resultante de um tributo de vassalagem (30 marcos de ouro) pago pelo régulo de Quíloa ao rei D. Manuel. O ouro foi trazido por Vasco da Gama no regresso da segunda viagem à Índia, em 1503.
Gil Vicente levou três anos a esculpir a peça. Nela conseguiu exaltar os Descobrimentos Portugueses e o poder de D. Manuel I.
Corpo central da peça
A Custódia divide-se em três partes distintas:

- A base, onde se encaixa a haste, decorada com esferas armilares, divisa de D. Manuel; - O corpo central, onde está o viril destinado à hóstia, rodeado pelos 12 apóstolos;
- Finalmente, o duplo baldaquino do gótico final, marcado pela figura de Deus Pai sentado numa cadeira, segurando também ele uma esfera armilar, e pela pomba que simboliza o Espírito Santo.

Fotografia do Público, 09/05/12

A figura de Deus tem oito centímetros e os apóstolos quatro (como convém, são mais pequenos do que o Pai).

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A Custódia de Belém regressa ao Museu de Arte Antiga, após seis meses de restauro!

Li ontem, no Público, um artigo muito interessante sobre o restauro da Custódia de Belém lavrada por Gil Vicente.
Após seis meses de restauro ela regressa ao Museu Nacional de Arte Antiga irá estar exposta a partir de dia 18 de Maio, Dia Internacional dos Museus. Nos próximos dias irei colocar uma pequena história desta magnífica custódia encomendada por D. Manuel I.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Gil Vicente: Compilacam de todalas obras


Infelizmente o exemplar da Copilacam de todalas obras de Gil Vicente que se conserva na Biblioteca Nacional Portuguesa e que se encontra disponivel em edição digitalizada [http://purl.pt/11494/3/P15.html] não está completo. O que apresentam como folha de rosto (e que a nossa colega de Blogue ANA seguiu) não passa da "cortina / portada" do "LIVRO PRIMEYRO"...
Aliás, como a nossa colega informa, na folha de rosto encontram-se as referências ao lugar de edição, impressor e taxa, que nessa "portada / cortina" não aparecem...
Recorri à Biblioteca que o Ministério das Finanças depositou em Vila Viçosa, à guarda da Fundação da Casa de Bragança, para reproduzir, a partir de um livro que pertenceu à colecção de D. Manuel II, último rei de Portugal e distinto bibliófilo, o verdadeiro rosto dessa raríssima edição de 1562.
Já agora, a edição original tem [IV]+ CCLXII folhas [= 4 + 262 f.], o que faz um total de 532 pp. (É que ao exemplar da BnP também falta o "quinto liuro"...) Seria bom que a BnP colocasse um exemplar completo, mesmo tendo de recorrer a outra instituição...

Homenagem ao dia do teatro: a obra de Gil Vicente.

Gil Vicente
(1465? — 1536)
Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, a qual se reparte em cinco liuros. O primeyro he de todas suas cousas de deuaçam. O segundo as comedias. O terceyro as tragicomedias. No quarto as farsas. No quinto as obras meudas. - Lixboa : em casa de Ioam Aluarez, 1562]. BN- CCXLIX f. : il. ; 2º (28 cm) http://purl.pt/11494 . No rosto "Vendem se a cruzado em papel, em casa de Francisco Fernandez, na rua noua".