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terça-feira, 29 de agosto de 2017

terça-feira, 21 de março de 2017

Torniquete

A tômbola anda depressa,
Nem sei quando irá parar -
Aonde, pouco me importa;
O importante é que pare...
- A minha vida não cessa
De ser sempre a mesma porta
Eternamente a abanar...

Abriu-se agora o salão
Onde há gente a conversar.
Entrei sem hesitação -
Somente o que se vai dar?
A meio da reunião,
Pela certa disparato,
Volvo a mim a todo o pano:

Às cambalhotas desato,
E salto sobre o piano...
- Vai ser bonita a função!
Esfrangalho as partituras,
Quebro toda a caqueirada,
Arrebento à gargalhada,
E fujo pelo saguão...

Meses depois, as gazetas
Darão críticas completas,
Indecentes e patetas,
Da minha última obra...
E eu - prà cama outra vez,
Curtindo febre e revés,
Tocado de Estrela e Cobra...

Mário de Sá-Carneiro


(Publicado há 100 anos no Portugal Futurista.)

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Marcadores de livros - 390


A nossa vinheta

Mário de Sá Carneiro por André Carrilho

Mário de Sá Carneiro, cujo centenário da morte foi aqui evocado no mês passado, nasceu em 16 de maio de 1890, numa casa da Rua da Conceição, em Lisboa.
Escolhi este desenho de André Carrilho como vinheta porque me parece que caracteriza bem o grande frequentador de cafés que foi Sá Carneiro.

Cinco horas

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)

Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.

Mário de Sá Carneiro

terça-feira, 26 de abril de 2016

Boa noite!

Quasi



Fim

Escultura (pormenor) de Francisco Simões

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro



E o seu fim foi há 100 anos, num quarto do Hotel Nice, em Paris.

segunda-feira, 21 de março de 2016

O Pagem


Sozinho de brancura, eu vago - Asa
De rendas que entre cardos só flutua... -
Triste de Mim, que vim de Alma prà rua,
E nunca a poderei deixar em casa...

sexta-feira, 10 de abril de 2015

LisbonWeek 2015: Alvalade - 1

O arquiteto Nuno Teotónio Pereira vive no Bairro de S. Miguel, em Alvalade. Alvalade engloba agora, para além da antiga freguesia de Alvalade, as do Campo Grande e  de São João de Brito e parte da de São João de Deus.
Alvalade foi este ano escolhida para as visitas do LisbonWeek que hoje começa e se estende até 18 de abril.

O LisbonWeek vai explorar esta freguesia através de 11 visitas culturais e 12 exposições, numa viagem que irá ao encontro de edifícios emblemáticos que fazem parte do nosso dia-a-dia mas cuja relevância ainda é, por muitos, desconhecida. Esta edição vai desvendar segredos de espaços marcantes como a Biblioteca Nacional de Portugal, o Jardim do Campo Grande, a Reitoria da Universidade de Lisboa, a Biblioteca Nacional de Portugal, a Torre do Tombo, o Museu da Cidade (Palácio Pimenta), o Museu Bordalo Pinheiro, o Hospital Júlio de Matos, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil ou o Complexo dos Coruchéus.
Através de visitas culturais diárias, os visitantes vão poder conhecer as perspetivas históricas, arquitetónicas e artísticas de cada um destes locais. Os passeios no autocarro LisbonWeek irão mostrar um outro olhar sobre o plano urbanístico do bairro de Alvalade. A visita “Lisboa Moderna”, com curadoria de Ana Tostões, irá ao encontro dos principais pontos de Alvalade, contando a história do bairro, dos seus edifícios mais representativos e da sua evolução.
Já a visita de autocarro “Porfírio Pardal Monteiro”, com curadoria de João Pardal Monteiro, vai explorar a obra de Porfírio Pardal Monteiro por toda a cidade. Haverá ainda uma visita, a pé, ao Jardim do Campo Grande, delineada por José Sarmento de Matos. Como grandes momentos de programação, o LisbonWeek destaca quatro exposições e a estreia de uma peça de teatro, no mínimo, original:
Porfírio Pardal Monteiro – Arquiteto de Lisboa, com curadoria de Ana Tostões e João Pardal Monteiro, pode ser vista na Biblioteca Nacional de Portugal, uma oportunidade única para saber mais sobre a vida e obra de um dos mais importantes arquitetos portugueses;
Encontrar Maria Keil expõe, na Estação de Metro de Alvalade, alguns dos mais notáveis trabalhos de azulejaria da pintora Maria Keil.
Urban Sketchers dá-nos um olhar diferente sobre o quotidiano de Alvalade, pelas mãos do Grupo Urban Sketchers, que durante janeiro e fevereiro captaram o ambiente, as cores e a vida deste bairro. Os desenhos estarão expostos na Reitoria da Universidade de Lisboa;
Vanguarda é uma exposição de fotografia que nos mostra o dia-a-dia de Alvalade nos anos 50 do século passado. As imagens para este regresso ao passado foram disponibilizadas pelo Arquivo Municipal de Lisboa, e podem ser vistas no Centro Comercial Alvalade.
E Morreram Felizes Para Sempre, uma peça de teatro imersivo que decorre num edifício de dois andares no Hospital Júlio de Matos. Este espectáculo, da autoria de Nuno Moreira e direção de atores de Ana Padrão, permitirá ao visitante interagir com o espaço e descobrir as estórias dentro da história – um cross over entre a tragédia amorosa de Pedro e Inês de Castro e a invenção da lobotomia, por Egas Moniz, proposto para Prémio Nobel (acabaria por ganhar) no primeiro Congresso Internacional de Psicocirurgia, que decorreu neste hospital, em 1948.
O Mercado de Alvalade, por seu lado, receberá a “Feira da Buzina”, organizada em Portugal pela Taiga, uma forma diferente de comprar e vender antiguidades, roupas e acessórios... na bagageira de um carro. 
A exposição “Porfírio Pardal Monteiro – Arquiteto de Lisboa” ficará patente até 1 de junho na Biblioteca Nacional de Portugal.
Para ver a mostra “Encontrar Maria Keil” é necessário possuir bilhete de acesso ao metro.

«aos domingos dava um giro pelo Campo Grande…»
Mário de Sá Carneiro

segunda-feira, 23 de março de 2015

Boa noite!

«Poetas paranóicos» em expo na BNP


«Alguns rapazes, com muita mocidade e muito bom humor, publicaram, há dias, uma revista literária em Lisboa. Essa revista tinha apenas de notável a extravagância e a incoerência de algumas, senão de todas as suas composições. Como a recebeu a imprensa diária? Com o silêncio que merecia? Com as duas linhas indulgentes e discretas que é de uso consagrar às singularidades literárias de todos os moços? Não. A imprensa recebeu essa revista com artigos de duas colunas, - na primeira página. A imprensa fez a essa revista um tão extraordinário reclame, que a primeira edição esgotou-se e já se está a imprimir a segunda. Ora semelhante atitude está longe de ser inofensiva ou indiferente. Em primeiro lugar, consagra uma injustiça fundamental; em segundo lugar, favorece e prepara uma seleção invertida. Eu bem sei que o reclame a certas obras é às vezes feito à custa da veemente suspeita de alienação mental que pesa sobre os seus autores. Mas neste caso, como em outros muitos, é justo confessar que os loucos não são precisamente os poetas, mais ou menos extravagantes, que querem ser lidos, discutidos e comprados; quem não tem juízo, é quem os lê, quem os discute e e quem os compra.»
Assim se referia Júlio Dantas, num artigo intitulado «Poetas paranóicos», publicado na Ilustração Portuguesa (19 abr. 1915) ao aparecimento da revista Orpheu.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

sábado, 19 de maio de 2012

Amália canta «Quasi»



Mário de Sá-Carneiro


Mário de Sá-Carneiro nasceu em 19 de maio de 1890, na Rua Conceição, 92-3.º, prédio que esquina com a Rua Augusta. Uma vergonha que passados tantos anos a placa continue a indicar o dia 10 de maio.

Adriana Calcanhoto canta «O outro» de Mário de Sá-Carneiro.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ainda a propósito de violas e violetas

As minhas violetas africanas.
Deram-mas há dois anos e estão radiosas.


A inigualável

Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de cetim...
Teus dedos, longos de marfim,
Que os sombreassem jóias pretas...

E tão febril e delicada
Que não pudesses dar um passo -
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de cor no regaço...

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas -
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas...

Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata -
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata...

.... ... ... ...
... ... ... ...

Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim -
Os teus espasmos, de seda...

- Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim...

 Mário de Sá Carneiro

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Poemas - 45



No dia em que passam 121 anos sobre o nascimento de Mário de Sá-Carneiro ( 1890-1916 ), Como eu não possuo, dito por António Olaio.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Boa noite!


Gustave Moreau (1826-1898) - Salomé (pormenor), 1874-1876

SALOMÉ

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro! A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...

Lisboa 1913 - novembro 3.

Mário de Sá-Carneiro
In: Poemas completos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001


Gustave Moreau (1826-1898) - Salomé (pormenor), 1876

BALADA DE SALOMÉ

Meus bailados endoidecem,
Adormecem,
São riscos, que os meus sentidos
Com tules de ânsia vestidos,
Traçam no ar...
Endoidecem...
Plumas que caem no mar...

Anda ao redor do meu Corpo,
Triste, exangue...
Sou uma bruma de mim...
Sou uma gota de sangue
Numa espada de marfim...
Dedos de silêncios velhos...
Breves sombras do meu Corpo
A dançarem nos espelhos...

Meus olhos, portas abertas
E desertas,
Portas para jardins pagãos...
Leves repuxos de cores...
São conventos profanados
Onde morreu uma freira...
E são palcos, minhas mãos,
Onde meus dedos-actores
Andam cantando bailados
Duma outra bailadeira...

Minha sombra, voz que escuto
Numa sala dum castelo.
Sonho de Mim. Meu cabelo,
Caudas de faisões de luto
Em parques de outros Orientes...
O meu Corpo, um girassol
Virando a todo o momento
Para o Sol
Dos meus sentidos doentes.

Sou o talismã dum mago.
E são meus olhos inquietos,
Muito pretos,
Cabeças dentro de pratos...
Sou silêncios debruçados,
Gritos de mim, ecos, tudo...
Os meus bailados são patos
Ao longe, junto dum lago,
Laços de sangue, pintados
Num pescoço de veludo...

Alfredo Guisado
In: Tempo de Orfeu. Coimbra: Angelus Novus, 2003


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Último Soneto - Mário de Sá-Carneiro.

No seguimento do post do Luís aqui fica o meu contributo para a leitura de Mário de Sá-Carneiro.

Paris, 2009

ULTIMO SONETO
Que rosas fugitivas fôste alli!
Requeriam-te os tapetes, e vieste...
Se me doe hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que sêda de alfagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste!
Como fui de percal quando me déste
Tua bocca a beijar, que remordi!...

Pensei que fôsse o meu o teu cansaço,
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curava...

E fugiste... Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Côr se trava?...

Paris - Dezembro 1915.

Mário de Sá- Carneiro, " Últimos Poemas de Mario de Sá- Carneiro", in Athena Revista de Arte (edição facsimilada), Lisboa: Contexto Editora, s.d., p.44

Nos 120 anos de Mário de Sá-Carneiro


Júlio Pomar - Lusitânia no Bairro Latino
(retratos de Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Amadeu de Sousa Cardoso)
Acrílico sobre tela, 1985
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian