De Barcelona a la Bretaña francesa foi publicado pela primeira vez em 2014. Nesta obra, a escritora, então militante no campo republicano, relata os seus últimos momentos em Barcelona, a fuga para França e as vivências nos campos de refugiados neste país até chegar a Le Pouliguen, na Bretanha. Aqui termina a 'viagem' de Luisa Carnés e daqui sairia num barco, com outros exilados espanhóis, para o México onde viveu até 1964, ano da sua morte.
É o terceiro livro desta autora que leio e acho que me vou abalançar noutros.
«[...] tu [Michel Vitold] sempre ficaste igual desde o nosso primeiro encontro [...]. Ainda te estou a ver com o teu barrete empoleirado no alto do teu crânio de Russkoff... Não confundas, para mim, "russkoff" não tem nada de pejorativo. Eu próprio sinto-me mais rital [nome pejorativo que se dá em França aos emigrantes italianos] que italiano, e não deixo de me divertir. Para nós, os exilados, a terra natal tem um sabor particular: quanto mais nos afastamos, mais ela fica sólida, amsi nos sentimos impregnados da nossa pátria, quanto mais não seja pelo olhar dos outros, que te fazem sentir bem que não és daqui. Eu deixei Reggio Emilia italiano, cheguei rital a Paris. Na época, possuías como único papel de identidade um estranho passaporte que tinha além do teu verdadeiro nome, Sayanoff, a referência "apátrida". Corrige-me depressa se me engano, mas estou a ver como se fosse ontem esse pedaço de papel que tu nos mostravas rindo.»
Serge Reggiani - Último correio antes da noite. Porto: Campo das Letras, 1996, p. 51
Hoje que se joga a Supertaça Cândido de Oliveira era aconselhável que nos numerosos programas de futebol que inundam a nossa televisão, dedicassem uns minutos a Cândido de Oliveira para que as pessoas soubessem que há mais vida para além do futebol, mesmo para quem o pratica.
Durante a II Guerra Mundial, Cândido de Oliveira trabalhou para os Aliados e em 1942 foi preso pela PIDE e enviado para o campo de concentração do Tarrafal onde esteve entre 1942 e 1944. Deixou relato desta experiência em Tarrafal, o pântano da morte:
Lisboa: República, 1974
Em 1945, funda o jornal A Bola com Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo.
Quem quiser conhecer a vida deste cidadão português pode ler a biografia que Homero Serpa lhe dedicou:
«Godard me téléphone pour m'annoncer que je serai, si je suis d'accord, son acteur dans À bout de souffle, Je n'en apprendrai pas tellement davantage avant le début du tournage Sans me donner le scénario de Truffaut, il me résumera l'histoire de son film en ces termes: "C'est l'histoire d'un type. Il est à Marseille. Il vole une voiture pour retrouver sa fiancée. Il va tuer un flic. À la fin, il meurt ou il tue la fille, on verra." Avant de me fixer rendez-vous au Fouquet's pour conclure notre accord. [...]
«Un soir, il m'emmène dîner. Je suis content d'aller dans cette pizzeria de la rue Saint-Benoit avec lui, mais je déchante rapidement: il ne prend pas la peine de décrocher un mot. Être avec moi à table semble lui suffire. Peut-être converse-t-il avec moi en télepathie? Ma soirée sera mortelle, mais originale. Au moment de nous quitter, il semble ravi puisqu'l me dit: "On a fait un très bon repas, tu ne trouves pas?"»
Jean-Paul Belmondo - Mille vies valent mieux qu'une. Paris: Fayard, 2018. (Le livre de poche; 34931), p. 158,160
«Nous détenons, en effet, un capital inestimable: le temps. Dans lequel nous puissons allégrement pour écumer les terraces de café, les caves où l'on écoute du jazz - Art Blackey est notre idole -, le pavet parisien dans un périmètre choisi, de Saint-Germain-des-Prés à Saint-Germain-des-Prés.»
Jean-Paul Belmondo - Mille vies valent mieux qu'une. Paris: Fayard, 2018. (Le livre de poche; 34931), p. 111
«On nous reproche d'avoir abandonné la lecture. N'avons-nous pas toute notre vieilesse devant nous pour cela? Se retirer du monde, une fois que le corps se soustrait à ume vie physique intense, pourquoi pas? Mais pas avant, pas avant.» (p. 111)
Há muita gente a pensar assim, mas de certeza que Belmondo alterou este seu planeamento de leituras apenas para a velhice. :)
Gerald Durrell, irmão de Lawrence Durrell, narra neste livro a estada da família (mãe e quatro filhos) em Corfu. É nesta ilha grega que Gerald descobre a sua paixão pela vida animal. Muitos destes bichos acabam em frascos e garrafas. Gerald observa e descreve o seu comportamento.
Gerald Durrell dedicou-se à causa da conservação das espécies em perigo e tornou-se um reconhecido naturalista: «Os animais constituem uma maioria sem meios e sem voz para exprimirem os seus direitos, a qual só pode sobreviver com a nossa ajuda.» Fundou o Durrell Wildlife Conservation Trust e o Jersey Zoo.
Acabei de ler o livro de entrevistas que Dominique Petitfaux fez a Hugo Pratt sobre a sua vida. Gostei imenso. Nele se fica a saber sobre a vida aventurosa e de viajante incansável que foi Hugo Pratt, bem como o que leu e estudou para elaborar as suas bandas desenhadas.
DE Hugo Pratt só conheço os livros de Corto Maltese. Não sabia que Hugo Pratt tinha feito BDs sobre a história dos Estados Unidos, chegando mesmo a
Descendente de franco-ingleses, judeu-espanhóis e turcos, Hugo Pratt nasceu nos arredores de Rimini (Itália), e passou a maior parte da infância em Veneza. Despertou para a sua o desenho na Etiópia, para onde foi aos dez anos e onde viveu seis anos. Na Etiópia desenhou em vários cadernos o que via, cadernos que a mãe mais tarde queimou. Anos depois voltou a Veneza, onde viveu a queda do fascismo, habitou treze anos em Buenos Aires, regressou a Itália, viveu em Paris e instalou-se na Suíça, perto do Lago Léman, nos últimos dez anos da sua vida. Isto tudo com muitas viagens («peregrinações») pelo mundo inteiro.
Perito na cabala, iniciado no vodu e na maçonaria, falante de várias línguas, Hugo Pratt surge-nos neste livro, muito ilustrado com desenhos seus, como um personagem ainda mais fascinante do que Corto Maltese. A amizade foi o laço que Hugo Pratt mais cultivou.
Foi uma belíssima ideia a que Eduarda Dionísio teve em conversar com o arquiteto Francisco Castro Rodrigues e dar a essas conversas a forma de memórias. Senão teria sido mais um caso dos muitos que têm muito para contar e não deixam rasto. Só o formato e o peso do livro é que não são os mais adequados. Cada vez odeio mais livros grandes e pesados. Mas este é interessantíssimo.
Francisco Castro Rodrigues nasceu numa família de anarquistas, frequentou a Escola Oficina n.º 1 na Graça, onde vivia. Foi comunista toda a vida embora tivesse estado poucos anos no PCP. Fez parte do MUD Juvenil, esteve preso no Aljube e em Caxias com Mário Soares, Manuel Mendes, Júlio Pomar, etc. Depois da prisão resolveu ir para Angola onde viveu no Lobito, de onde voltou em 1988 para ir viver nas Azenhas do Mar, onde a família tinha raízes.
Ele conta histórias delirantes sobre um diretor (alcunhado de Cunha Bruto) e professores da Escola de Belas Artes que eu já conhecia de outros frequentadores da mesma escola. E outras histórias da sua vida e da sua obra de arquiteto, bem como dos sítios onde viveu.
Às vezes temos surpresas na Fnac. Ia eu para a fila de pagamentos quando dei de caras com este livro. Finalmente, a Fnac dá-nos agora acesso a umas novidades francesas.
Deste livro li apenas o prefácio que começa assim: «Ces mille vies sont passées trop vite, beaucoup trop vite, à l'allure à laquelle je condusait les voitures.» (p. 7)
«Le cinéma m'a mis sous les projejecteurs en 1960 et je n'en suis jamais sorti. Jean-Luc Godard, avec À bout de souffle, a scellé mon destin, celui que je voulais: être un acteur qu'on désire, que les réalisateurs recherchent, que les spectateurs aiment, être plusieurs, pouvoir prendre tous les costmes, interpréter une myriade de rôles et explorer l'humanité. Et surtout, m'amuser, jouer.» (p. 8)
Jean-Paul Belmondo tem 85 anos. Gostei imenso de O Acossado e de Pedro, o Louco. Este então vi-o várias vezes...
Tenho este postal numa prateleira atrás de mim. Do filme À bout de souffle (O Acossado) com Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo a passearem nos nos Campos Elísios. Foto de Raymond Cauchetier. O postal foi-me enviado por uma amiga em 1995, uma amiga com quem vi e vejo muito cinema.
Vou guardar a leitura deste livro para as minhas férias. É natural que o livro aqui volte.
Enquanto Salazar esteve internado no Hospital da Cruz Vermelha, todos os dias com o boletim clínico era transmitido o menu da sua refeição. Um dia…
«Maurício [de Oliveira, chefe de redação de A Capital] almoçava geralmente na redação, para não perder tempo. Recebia o menu de uma casa de pasto existente na Calçada do Combro (esquina da Rua do Século)* e fazia a encomenda por escrito. Assim, procedeu num belo dia, chamando o contínuo para fazer chegar o papel ao seu destino.
«O pobre funcionário, porém, atrapalhou-se e entendeu que aquele papelinho seria para a tipografia. Aqui, o respetivo chefe, Almiro Soares, rabujou: “Qualquer dia, vou para redator. Estes tipos agora nem a prosa fazem”. E lá pôs, no meio das notícias sobre Salazar, que “o senhor Presidente tinha almoçado sopa, pescada cozida, uma pera, meia garrafa de vinho do Dão”.
«Maurício, estranhando a demora do restaurante, telefonou para lá. O papel devia ter desaparecido no caminho e fez a encomenda pelo telefone. Estava a almoçar quando chegaram as provas da tipografia. “Tem graça! O Salazar teve um almoço exatamente igual ao meu!” , começou a dizer. Mas o facto de o doente se ter batido com os 3 dl do Dão fê.lo despertar.
«Barafustou, pronunciou delicados impropérios. Mas já era tarde: segundo a primeira edição desse dia, Salazar, quisesse ou não, tinha comido pescada, regada com vinho da sua zona.» (p. 67-68)
Appio Sottomayor
As memórias do ex-presidente são a grande novidade francesa do género , e já estão a dar que falar, especialmente o que escreve o autor sobre o seu antigo conselheiro e ministro, o actual presidente Macron ...
As memórias de Costa-Gavras são hoje postas à venda em Paris.
Nascido na Arcádia, em 1933, numa Grécia destruída pela ocupação e guerra civil, Costa-Gavras nunca poderia ter imaginado levar-nos «onde é impossível de ir».
Imigrou sem dinheiro para Paris em 1955. O seu sonho era estudar. Vai descobrir a Sorbonne, a Cinemateca de Henri Langlois, e vai tornar-se, depois de ter feito o Idhec, assistente dos melhores realizadores: René Clair, René Clément, Jacques Demy, Henri Verneuil, Jean Becker e Jean Giono.
O primeiro filme que ele realizou foi Compartiments tueurs (1965), a que se seguiram uma série de sucessos internacionais como Z, A Confissão ou Missing.
Para além de referências sobre o papel fundamental que Costa-Gavras desempenhou na Cinemateca Francesa, estas memórias estão cheias de detalhes sobre a vida de Hollywood, sobre as filmagens. Para além de muitas alusões a realizadores e atores, como Luis Buñuel, John Ford, Romy Schneider, Jessica Lange, Jean Seberg, Jack Lemmon, Marlon Brando, John Travolta ou Dustin Hoffman. Mas, mais importante, este livro dá vida a uma família do pensamento: Yves Montand, Simone Signoret, Jorge Semprun, Salvador Allende, Arthur e Lise London, Chris Marker, Romain Gary – para se perceber que Costa-Gavras foi estimulado pelos maiores sonhos do nosso tempo, assim como pelas suas batalhas mais difíceis.
Estou candidata a ler este livro.
Não me lembro de ter visto este filme de Costa-Gavras.
«Conhecíamos [Luciano] Emmer dos seus excelentes filmes sobre arte, realizados com Enrico Gras, filmando os frescos de Giotto, a obra de Pier della Francesca, Ucello ou Picasso. Destes documentários disse Luigi Rondi: "... são exemplos do movimento que se pode criar ela montagem a partir de cenas estáticas [...]. A câmara lê um quadro como um livro e guia o espectador na descoberta de uma revelação...". Filmes como Racconto di un Affresco (Giotto) ou Guerrieri (Piero della Francesca, Simone Martini e Paolo Ucello) criaram uma nova forma de realizar filmes sobre arte, e são ainda hoje muito admirados.»
Manuel Pina - Espreitar a memória. Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 2017, p. 82.
Falecido em 2017, Manuel Pina, crítico e dirigente cineclubista, acompanhou todo o movimento de cineclubes desde o início dos anos 50. Quando faleceu, a família entregou à Cinemateca este livro que estava pronto, no qual Manuel Pina reflete sobre a história, a natureza e o impacto dos cineclubes num período especialmente relevante da sua história.
Manuel Pina nasceu em Lourenço Marques e veio para Lisboa estudar Físico-Químicas na Faculdade de Ciências. Em 1951 integrou o núcleo fundador do Cineclube Universitário - já existia o cineclube ABC. Pouco depois, iniciou a sua colaboração com a revista Imagem, de Baptista Rosa e José Ernesto de Sousa, e, em sequência, com o Cineclube Imagem – o terceiro dos cineclubes que arrancaram em Lisboa nos primeiros anos da década de 1950. Em 1986 foi eleito Presidente da Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Cineclubes, cargo que ocupou até 1994.
Um livro interessante, principalmente por ser uma primeira história dos cineclubes, com especial incidência nos da capital, mas não só.
«A primeira sessão oficial do Cineclube Universitário realizou-se no dia 28 de março de 1952, no Cinema Capitólio […] com a curta metragem de Roger Leenhardt, Naissance du Cinéma, e o filme Hotel du Nord (Hotel do Norte), 1938, de Marcel Carné» […].
«O texto do Programa, coordenado por Furtado Borges, fazia uma análise detalhada dos aspetos cinematográficos do file, procurando mostrar a sua relevância nas leituras do filme e contribuindo para o aprofundamento do prazer estético do espectador.
«Aliás, este tipo de programas (os da fase inicial do Cineclube Universitário de Lisboa, e os do Cineclube de Coimbra, coordenados por Júlio Sacadura, são ainda hoje exemplares) refletem a essência do cineclubismo: criados por gente que tinha a paixão do cinema, os cineclubes empenhavam-se em levar aos outros a possibilidade de também eles usufruírem de um prazer que, de outro modo, poderia permanecer-lhes inacessível.» (p. 24-25)
O escritor israelita Aharon Appelfeld, sobrevivente da shoah, morreu no passado dia 4, com 85 anos.
A sua obra é na sua maior parte consagrada à vida dos judeus na Europa, antes e durante a shoah. Nascido perto de Czernowitz, então na Roménia e hoje na Ucrânia, numa família judia. A sua mãe foi assassinada pelos nazis e ele e o seu pai foram deportados para um campo, de onde se conseguiu evadir em 1942. Tendo sobrevivido nas florestas, foi «adoptado por um gangue de criminosos ucranianos». É esta 'aventura' que ele nos conta em Fragmentos de uma vida, o seu único livro traduzido em Portugal. Um escritor que bem merecia ter mais obras traduzidas no nosso país.
Li este livro mais ou menos quando foi publicado. Resolvi ir repescá-lo por razões que todos entenderão.
«Nunca mais entrarei em cena. Nunca mais cantarei» escreveu no início das suas memórias aquela que cantava para o seu público Ma plus belle histoire d'amour, c'est vous. Falecida em novembro de 1997, não conseguiu acabar de escrevê-las. Nelas encontramos a rapariguinha de Batignolles, que uma infância passada na Ocupação levou até Marselha, Tarbes e Saint-Marcellin, antes de regressar a Paris. Aqui, entre miséria e deceções, prosseguiu o seu sonho: cantar diante de um piano preto até começar a atuar em L'Écluse, aos primeiros sucessos e digressões. Confissões dolorosas de uma cantora ímpar.
«Estas são histórias verdadeiras contadas de memoria - ao que os leitores têm o direito de perguntar o que é a verdade e o que é a memória para um escritor de obras criativas naquilo a que poderíamos delicadamente chamar o entardecer da sua vida. [...] Para o escritor de obras criativas, os factos são a matéria-prima bruta, não o seu capataz, mas o seu instrumento, e a sua tarefa é fazê-los cantar. A verdade real reside, se reside algures, não nos factos mas nos matizes.» (p. 17)
«A espionagem e a escrita de romances foram feitas uma para a outra. Ambas pedem um olhar atento à transgressão humana e às muitas vias para a traição. Aqueles de entre nós que alguma vez estiveram no mundo dos serviços secretos nunca realmente o deixam. Se não partilhávamos os seus hábitos antes de entrarmos nele, partilhá-los-emos para todo o sempre.» (p. 37)
Gostei bastante de ler este livro de John Le Carré, entrar um pouco no mundo que serviu para ele criar os seus personagens e as suas histórias. Com algumas situações divertidas, como os seus encontros com Margaret Tatcher ou Cossiga.
Deste autor li os dois primeiros livros dele publicados em Portugal: Sputnik, meu amor e Kafka à beira-mar. Leem-se bem, mas não acho que seja autor para ganhar o Nobel.
Acrescentado às 12h15:
Ontem no Metro li no livro M Train(Lisboa: Quetzal, 2016) de Patti Smith a descoberta que ela fez de Murakami:
Trad. Hélder Moura Pereira
Talvez eu venha a ler Crónica do pássaro de corda. Veremos...