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terça-feira, 26 de setembro de 2017
Poemas - 101
Procuras um país no teu país
que não existe nem existiu nunca.
O rosto com que fita o teu país
é uma face feita rocha adunca
a tirar-nos da terra, não esqueças:
" o meu país é o que o mar não quis ";
e vê a aridez, que pede meças
à meseta deserta de Madrid !
Pois da Europa assim fomos dizendo:
" o rosto com que fita é Portugal".
Mas o mar, por temível e tremendo,
era mesmo assim o nosso igual.
Agora fita a Boca do Inferno,
vem meditar no Portugal moderno!
- Luís Filipe de Castro Mendes, Boca do Inferno ( com versos de Ruy Belo e Fernando Pessoa ), in Outro Ulisses Regressa a Casa, Assírio&Alvim, fevereiro de 2016.
quinta-feira, 20 de abril de 2017
Poemas - 99
Ser português é como ser aborígene ou americano
Posso comer bacalhau com batatas a murro em qualquer lugar
Camões e Pessoa em todas as línguas tal como Rilke e Confúcio
O Português só me une aos mortos da literatura
Vou neste canto por uma questão de inércia climática
Nunca estou cá - Isto já não é a cidade das igrejas e quartéis
É um cenário intermitente onde vivo separadamente - vou ao super
comprar chocolate belga e vinho chileno
Já não tenho inimigos nem sarracenos nem chinos como o Pinto
Nem os Portugueses me incomodam mas classes de comportamentos
grosseiros em que não são os piores - Por isso vivo aqui
com os livros e discos iguais em toda a parte
- Nuno Féliz da Costa, a cultura é um marcador turístico, in O desfazer das coisas e as coisas já desfeitas, Companhia das Ilhas, 2015.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Poemas - 98
Apocalypse Now
Minutos antes do fim do mundo,
os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os
títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos
dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.
Porém os amantes que, à mesma
hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.
- Filipa Leal
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
Poemas - 97
Entre etéreo e terreno
Deus sive Natura
Espinosa
Na
manhã do temporal saímos a medir
estragos
( repor pedras nos muros
colher gravetos do chão ). A
fúria
da natureza volveu a ordem anterior
como marca de um excesso quando
no dia seguinte olhas melhor e
percebes o
equívoco da
noite anterior. Da força da
tempestade só sóbrou
dor e silêncio ( aos pés
de um pinheiro manso céu e terra
derrotados :
um rato e um
pardal são a memória visível da cega
devastação ) como se
um recomeço apenas fosse possível
caso
entre etéreo e terreno ambos
ousassem perder. Um
deus ajusta o equilíbrio destruindo o
que criou-
alguém tem de morrer cedo para que
outrem possa sobreviver.
- João Luís Barreto Guimarães, Mediterrâneo, Quetzal .
Deus sive Natura
Espinosa
Na
manhã do temporal saímos a medir
estragos
( repor pedras nos muros
colher gravetos do chão ). A
fúria
da natureza volveu a ordem anterior
como marca de um excesso quando
no dia seguinte olhas melhor e
percebes o
equívoco da
noite anterior. Da força da
tempestade só sóbrou
dor e silêncio ( aos pés
de um pinheiro manso céu e terra
derrotados :
um rato e um
pardal são a memória visível da cega
devastação ) como se
um recomeço apenas fosse possível
caso
entre etéreo e terreno ambos
ousassem perder. Um
deus ajusta o equilíbrio destruindo o
que criou-
alguém tem de morrer cedo para que
outrem possa sobreviver.
- João Luís Barreto Guimarães, Mediterrâneo, Quetzal .
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Poemas
Os homens aos quarenta
aprendem a fechar muito devagar
as portas dos quartos a que
não regressam.
Descansam no patamar das escadas
e sentem que elas se movem
como o convés de um navio,
embora quase não sopre um vento.
Vislumbram
ao fundo de um espelho
o rosto do rapaz que em segredo tenta
fazer a gravata do pai.
E o rosto desse pai
ainda quente com o mistério da espuma.
Agora eles mesmos já são mais pais do que
filhos.
Alguma coisa os preenche, algo
que se parece com o som dos grilos
ao crepúsculo, imenso,
enchendo os bosques que ficam aos pés da
ladeira
e detrás das casas hipotecadas.
- Pedro Mexia , Os homens aos quarenta , in Uma vez que tudo se perdeu, Tinta da China, 2015 .
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Poemas
La main tenant la rampe
et le soleil d'hiver dorant les murs
le soleil froid dorant les chambres fermées
la gratitude envers l'herbe des tombes
envers les rares gestes de bonté
et toutes les roses éparses des nuages
les braises laineuses des nuages
éparpillées avant que la nuit ne tombe
- Philippe Jaccottet ( 1925 - ), in Ce peu de bruits, 2008 .
O terceiro poeta a entrar ainda vivo na Bibliothèque de La Pléiade, depois de Saint-John Perse e René Char.
et le soleil d'hiver dorant les murs
le soleil froid dorant les chambres fermées
la gratitude envers l'herbe des tombes
envers les rares gestes de bonté
et toutes les roses éparses des nuages
les braises laineuses des nuages
éparpillées avant que la nuit ne tombe
- Philippe Jaccottet ( 1925 - ), in Ce peu de bruits, 2008 .
O terceiro poeta a entrar ainda vivo na Bibliothèque de La Pléiade, depois de Saint-John Perse e René Char.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Poemas - 89
Não recebo correspondência meu amor
o meu amor não é correspondido
ao contrário do âmbar e do benjoim
- Adília Lopes, in Dobra/ Poesia Reunida - 1985-2007.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Poemas - 88
Denis van Alsloot, Paisagem de Inverno, óleo sobre madeira.
Elegia
Regressa neste inverno o tempo exausto
de outros invernos. Rostos submersos
sorriem e emergem devagar
do frio rio dos versos
Olha bem para eles Reconheces
o que resta de ti
nos seus olhos intactos flutuando
no espelho desse rio A tua vida
reflui nessas imagens
nos seus reflexos líquidos que movem
as tuas ilusões Respira fundo
absorve a luz do sol
nesta manhã " de inúteis agonias "
e vê que meio século é muito pouco
desde o primeiro dia
Rompe de novo a sombra desses anos
a membrana translúcida do tempo
Talvez ainda saibas mergulhar
no mesmo rio de sempre
e no entanto é cada vez mais fria
a água do passado
- Fernando Pinto do Amaral, in Relâmpago # 27, Outubro de 2010.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Poemas - 86
MEMENTO MORI
Death is not in life
( Wittgenstein )
Eu vi morrer três pessoas:
a uma acompanhei até ao fim,
no que seria talvez o que lhe restava da vida
ou porventura o que lhe sobrava de morte;
outra morreu quando eu dormia,
longe do hospital:
e tive que atravessar pela madrugada
uma cidade estrangeira
para chegar à sua morte;
e meu Pai, enquanto eu ia
comprar-lhe uma garrafa de oxigénio;
que nunca soube a quem serviu depois.
Nós nunca vemos ninguém morrer,
porque morrer é por dentro de cada um,
como talvez tudo o que tenha algum sentido,
como talvez o amor.
O que verdadeiramente importa
é opaco ao nosso olhar
e cada prova que vivemos
é só e única:
morrer ou ver morrer
e o amor também.
- Luís Filipe de Castro Mendes, na Relâmpago # 27, Outubro de 2010
( Na morte de Doris Lessing )
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Poemas - 85
" Como se explica, Hípias, que os antigos sábios
Todos se tenham afastado dos negócios públicos? "
Perguntei, porque também eu calei
A minha voz pública de outrora. Cidade,
Perdoa-me a ausência e o rancor,
Perdoa que a minha voz agora
Não nomeie os teus cais de embarque,
A dor, a miséria, a cúpida opressão.
Ainda amo, neste exílio de paz, a mesma Paz .
Sábia, não sou. Calei-me porque
as memórias minhas e a voz sozinha
também pertencem ao Todo, em harmonia.
Ainda amo a pátria, feita de lugares, parentes,
dos próximos, e do vento, meu semelhante.
- Fiama Hasse Pais Brandão
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Poemas - 84
( Bernardo Strozzi, O tocador de alaúde, 1635, Kunsthistorisches Museum, Viena )
Trahison fidèle
Tu as écrit : " Me voici, fidèle à l' écho de ta voix,
taciturne, inexprimé. " Je sais ton âme tendue
juste au gré des soies chantantes de mon luth:
C'est pour toi seul que je joue.
Écoute en abandon et le son et l'ombre du son dans
la conque de la mer où tout plonge. Ne dis pas qu' il se
pourrait qu'un jour tu entendisses moins délicatement!
Ne le dis pas. Car j'affirme alors, détourné de toi,
chercher ailleurs qu' en toi-même le repons révélé
par toi. Et j'irai, criant aux quatre espaces:
Tu m'as entendu, tu m'as connu, je ne puis pas
vivre dans le silence. Même auprès de cet autre
que voici, c'est encore,
C est pour toi seul que je joue.
- Victor Segalen, in Stéles, 1912.
Trahison fidèle
Tu as écrit : " Me voici, fidèle à l' écho de ta voix,
taciturne, inexprimé. " Je sais ton âme tendue
juste au gré des soies chantantes de mon luth:
C'est pour toi seul que je joue.
Écoute en abandon et le son et l'ombre du son dans
la conque de la mer où tout plonge. Ne dis pas qu' il se
pourrait qu'un jour tu entendisses moins délicatement!
Ne le dis pas. Car j'affirme alors, détourné de toi,
chercher ailleurs qu' en toi-même le repons révélé
par toi. Et j'irai, criant aux quatre espaces:
Tu m'as entendu, tu m'as connu, je ne puis pas
vivre dans le silence. Même auprès de cet autre
que voici, c'est encore,
C est pour toi seul que je joue.
- Victor Segalen, in Stéles, 1912.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Poemas - 83
O mar já não é o mar.
O azul já não é tão azul.
Os olhos têm mais sede de ternura.
O corpo já não é o meu corpo.
O rosto já só é o teu rosto.
A ilha, essa escrevo-a só para ti.
- Maria Carlos Loureiro, in Acasos e Mistérios, Quetzal Editores, Lisboa, 1998.
terça-feira, 16 de julho de 2013
Poemas - 82
Nas docas
Estacionámos o carro junto às docas
e percorremos a pé os poucos metros
que nos separavam do conjunto de mesas
e guarda-sóis dos cafés.
Era a terceira vez que ali estávamos os dois.
Por acaso, foi a última.
O nosso caso acabou meses depois.
O mistério desaparecera, porque tudo
o que é rotineiro tem a particularidade da evidência.
« Agora vais dizer isto; depois, certamente dirás aquilo ».
Rotina por rotina, cada um prefere a sua.
- Maria Carlos Loureiro, in Acasos e Mistérios, Quetzal Editores, Lisboa, 1998, p.35.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Poemas - 80
Somos o mesmo sangue, querias tu dizer,
e bebias o sumo sem uma palavra.
Um sangue que devia revoltar-se contra o tempo
e escorria das ampolas bebíveis,
ampulhetas sinistras,
quebradas pelos meus dedos.
- Armando Silva Carvalho ( 1938 ) , in De Amore.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Poemas - 79
Princípio
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só é preciso saber
que temos de viver.
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
de amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
- Nuno Júdice, in 366 poemas que falam de amor.
domingo, 26 de maio de 2013
Poemas - 78
Augusta Ludwig ( 1834-1901 ), O bolo de aniversário, óleo sobre tela.
A idade não nos despoja,
cumula-nos como coisas:
há cada vez
mais retratos,
cartas e livros por ler,
flores negras, frutos brancos,
sombras em quartos soalheiros,
mais discos e luz insones
a pedir sono e mãos próximas,
mais punhais
mais insidiosos
contra corações
mais plenos.
- José Bento ( 1932 ), in Alguns Motetos.
Especialmente para o APS neste seu aniversário, com votos de um dia, e já agora o resto do ano, muito bem passado.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Poemas - 77
Rosa dentro da rosa dentro da rosa
azulejo iluminura filigrana
joelhos nuca sovacos unhas
não quero quebrar
o dom de estar viva
a doçura dos mistérios
o dom do teu corpo
o teu cheiro a tua voz
o teu olhar o teu sorriso
as minhas lembranças de ti
beijo repetidas vezes
a tua boca fechada
estás debruçado sobre mim
e sorris-me
somos bons um para o outro
posso ter filhos de ti
sabemos isso
- Adília Lopes ( 1960 ), Dobra ( Poesia Reunida 1983-2007 )
domingo, 19 de maio de 2013
Poemas - 76
Teatro da Boneca de Carlos Queiroz, por Nuno Miguel Henriques. Queiroz, poeta injustamente esquecido, é hoje homenageado no CCB com a apresentação de um livro e a inauguração de uma exposição.
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