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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Lembro-me tão bem dos JO de Madrid

A crónica de Ferreira Fernandes no DN de hoje: 


Lembro-me tão bem dos Jogos Olímpicos de Madrid. Pudera, foram os meus primeiros JO. Mais tarde iria aos de Atenas, em 2004, também memoráveis. Bem, memoráveis são todos porque é uma concentração de homens e mulheres soberbos a ultrapassarem fasquias que antes de vencidas já eram extraordinárias. É quase viciante vê-los. Eu, que ao vivo assisti a pouco atletismo, ao fim dos dois JO em que estive, senti-me em estado de carência: faltavam-me os olhos doidos do chinês Liu Xiang, a 30 metros de mim (mordomia de jornalista), a dar-se conta, no salto da última barreira, de que ia ser campeão.
Porém, o que me cala fundo nos JO, mesmo, e por isso me lembro tão bem dos meus primeiros, os de 1992, em Madrid, é aquela vontade conseguida de juntar. De juntar-nos. Já o escrevi e volto a repetir, um dos momentos da minha vida foi ver duas velhas namibianas, branca e negra, ambas de vestidos e guarda-sóis vitorianos, a falar não sei de quê, numa praia de Swakopmund. O Swako é um rio efémero, a maior parte do ano o deserto engole-o, "mund" é boca em alemão e um comerciante português garantiu-me que o nome da cidade queria dizer cu do mundo. Brumosa, varrida pelo vento e, naquele ano de independência, 1990, as duas velhas estariam a despedir-se. Repito: juntar comove-me, separar entristece-me.
Isso para vos dizer que um dia, julgo que do verão de 1971, indo de Paris num calhambeque, desembarquei num concerto no campus da cidade universitária de Grenoble. O convívio com alguns artistas permitiu-me chegar aos bastidores e estava lá uma lenda, Paco Ibáñez. Neruda dera-lhe poemas para cantar e, no Olympia, ele traduzira Brassens para castelhano. Pai valenciano e mãe basca, Ibáñez conhecia o exílio francês desde a adolescência porque o pai foi combatente republicano na Guerra Civil. Proibido de cantar em Espanha, Paco Ibáñez acabava de voltar ao exílio, depois de ter vivido alguns anos em Barcelona. Por isso o tínhamos naquela festa contra as ditaduras peninsulares. Naquela tarde, a lenda estava irritada: na plateia de estudantes, alguns bascos, adeptos do IRA, gritavam contra Espanha.
Paco Ibáñez cantava sobretudo em espanhol, que era a língua comum dos seus - familiares e companheiros, sendo que alguns destes falavam também outra língua de Espanha. Ele também cantava em catalão e euskera. Mais tarde faria um disco com memórias de infância na língua da mãe e cantaria Palavras Para Julia, homenagem à mãe do poeta catalão Juan Augustin Goytisolo, que morrera num bombardeamento franquista.
Comportamento igualíssimo, por exemplo, ao de Joan Manuel Serrat, cantor catalão, que dedicou um álbum ao poeta espanhol Antonio Machado que morreu no dia em que pôs o pé fora da pátria, quando fugia da derrota republicana em princípios de 1939. Serrat cantava desde 1969 «caminante, no hay camino, se hace camino al andar», o que para quem conhece o destino de Machado é tão dolorosamente irónico.
Então, aqueles gritos contra a sua Espanha irritaram Paco Ibañez. Mandou-os calar. Subiu a viola e pôs-se a cantar: «Andaluces de Jaén / aceituneros altivos / decidme en el alma: quién / quién levantó los olivos?» Um valenciano, filho de basca, pôs-se a cantar as palavras de um sevilhano, Miguel Hernández, que seguiu, também em 1939, oposto e igual caminho do de Antonio Machado. Na derrota da liberdade, este fugiu pela fronteira da Catalunha para França; Hernández, pela da Andaluzia com Portugal, foi preso em Moura e, entregue pela polícia de Salazar a Franco, foi condenado à morte e morreu na prisão.
No verão de 1971, como vos disse, tirei um curso intensivo sobre História de Espanha, na Universidade de Grenoble. Cerca de três minutos. Como sou generoso, dou-vos de borla a sebenta onde me formei: aquela canção, Andaluces de Jaén, cantada por Paco Ibáñez, está no Youtube. Infelizmente, desculpem a antiguidade da minha memória, não é a versão de 1971, no campus de Grenoble, de que julgo não haver registo.


Mas a tal do Youtube também serve: é de 2002 e Ibáñez canta no Palau de la Música Catalana, jóia de Barcelona. Oiçam as gentes da plateia a saber os versos da história comum. Do verso de entrada, «Andaluces de Jaén / aceituneros altivos / decidme en la alma: quién / quién levantó los olivos?», a todas as quadras que respondem o mesmo: «No los levantó la nada / ni el dinero, ni el señor / sino la tierra callada/ el trabajo y el sudor...» Oiçam a oração de um povo com um passado comum.
Por falar em Barcelona, agora me lembro, no princípio do texto eu disse que os meus primeiros Jogos Olímpicos foram os de Madrid, em 1992. Enganei-me. Foram nesse ano, certo, mas em Barcelona. Com esta história da pátria catalã oprimida e tal, por um instante convenci-me de que nunca um país opressor proporia organizar os JO a uma colónia desapossada das liberdades... Jogos Olímpicos que, aliás, Madrid nunca teve. Emendo, pois, a minha frase inicial: «Lembro-me tão bem dos Jogos Olímpicos de Barcelona.» E lembro-me que do que gosto mesmo é da vontade conseguida de juntar, de juntar-nos. O que tem sido, ao longo dos séculos, a história dos povos do país ao lado e, desde há 40 anos, a história da sua democracia constitucional.
No fundo, esta crónica é um plágio da resposta que Joan Manuel Serrat - uma vida a amar alto a Catalunha, mesmo quando isso era perigoso - deu, nestes dias de incerteza, à pergunta do jornal El Periodico de Catalunya: e agora? Disse Serrat: «Todos seguiremos a fazer o que fazemos: cada um com o seu trabalho, com os seus sonhos, com o seu mundo. E quantos mais juntos o façamos, melhor. Para todos.» Reparam nas cautelas com que um antigo combatente já fala?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Haja esperança

Na sua última crónica na coluna «Pretextos», Hélder Macedo, depois de falar nas eleições inglesas e na expressiva votação de muitos jovens, normalmente abtencionistas, refere um facto insólito ocorrido numa escola inglesa:

JL, 5 jul. 2017, p. 35

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Marcadores de livros - 476


Sou fã das crónicas de Luís Fernando Veríssimo, de modo que estes dois livros, acabados de publicar, vão ser das minhas próximas leituras.

«Quantas vezes você mente por dia? Calma, não precisa responder agora. Também não é sempre que você diz uma mentira, só de vez em quando. Na verdade, quando você mente, é porque precisa. Para proteger o outro — e, de preferência, a outra. Foi assim com a mãe, a namorada, a mulher, a sogra. Tudo pelo bom convívio social, pela harmonia dentro de casa, para uma noite mais agradável com os amigos. Você só mente, no fundo, para poupar as pessoas e, sobretudo, para o bem das mulheres.
Luis Fernando Verissimo, este observador bem-humorado do quotidiano brasileiro, reúne em As mentiras que os homens contam um repertório divertido de histórias assim - tão indispensáveis que, de repente, se tornam até verdades. Depende de quem ouve. Depende de quem conta.»

«Tudo começa com a mãe, com o «Olha o aviãozinho!» à mesa do almoço. É a mentira inaugural, que se vai desdobrando noutras ao longo da vida. Mas calma lá. Nem sempre a ideia é disfarçar um caso ou ocultar um segredo. Por vezes são apenas eufemismos, ambiguidades, desculpas educadas - tudo com o objetivo um pouco mais nobre de preservar a harmonia social.
Nas histórias de As mentiras que os mulheres contam aparecem, por exemplo, a senhora que se tenta enganar a si mesma fazendo uma plástica atrás da outra e a moça que mente na idade - para mais! - apenas para ouvir que ainda está nova. Há dramas, comédias, tragicomédias - e até histórias que terminam em tragédia. Mas tudo permeado pelo humor irresistível de Verissimo.»
(Sinopses retiradas da Wook.)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Leituras no Metro - 251

Depois de ler esta crónica de António Prata publicada num livro a que me referi, resolvi abalançar-me a ler as memórias de Keith Richards. Quando saíram, em 2011, foram muito elogiadas e eu fiquei com a pulga atrás da orelha.
Pois estou a lê-las, tal como a mulher do cronista brasileira, com enorme prazer. Um enorme trambolho.


«Das melhores autobiografias de uma estrela rock de sempre.» 
Rolling Stone 

«Da música a Mick [Jagger], das drogas às mortes: Richards deixa muito pouco por contar no seu imensamente legível livro de memórias.» 
Sunday Times

«A biografia de uma estrela rock mais brutalmente honesta e importante desde há muito tempo.» Washington Post 

«Como legendário guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards fez mais coisas, foi mais coisas e viu mais coisas do que o leitor ou eu alguma vez sonhámos. Ler Life, a sua autobiografia, deverá despertar (caso tenha um pulso e um QI acima de 100) a estrela de rock que há em si... Acredite que não vai querer perder nem uma palavra. [...] Ler este livro é como fechar-se dentro de um quarto com Keith Richards e perguntar-lhe sobre tudo aquilo que sempre quis saber acerca dos Rolling Stones, e ele responder-lhe de forma completamente honesta.» 
Liz Phair, in New York Times Book Review 

Já apelidada de Santo Graal das biografias de estrelas de rock, Life foi celebrado como um fenómeno incrível: mais de um milhão de cópias vendidas em menos de um ano. Em Life, Keith revela-nos os seus excessos e fragilidades, mas também todo o seu sentido de humor e coragem. Desde música, sexo, drogas, a lutas de facas, pouco fica por contar neste seu relato entusiástico e vibrante que nos revela os bastidores da maior banda de rock do mundo, os Rolling Stones: o seu nascimento, a passagem de Brian Jones pela banda, as rusgas policiais, os problemas com a lei, a conturbada relação de Keith Richards com Mick Jagger, e a verdade acerca de todos os boatos e mitos que rodeiam uma das mais carismáticas figuras musicais de todos os tempos.
Keith Richards foi o vencedor do prémio Writer of the Year 2011, instituído pela revista britânica GK.

Há cerca de dois anos li um livro que Keith Richards escreveu para os netos sobre o seu avô Gus, que lhe ofereceu a sua primeira guitarra e que o ensinou a tocar Malagueña. Acho que me referi a esse livro, aqui no blogue.


Esta gravação não é famosa, mas foi a que consegui. Deviam ter posto um microfone junto à guitarra, mas provavelmente ele não quis.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

1415


Celebrou-se mais em Marrocos o ano de 1415 e respectiva conquista de Ceuta pelos portugueses do que por cá, mas em boa hora a INCM edita o fac-simile da primeira edição impressa, a de 1792, da crónica de Zurara dedicada a D.Pedro de Menezes, conde de Vila Real e governador de Ceuta durante 22 anos . Uma edição limitada .

sábado, 14 de novembro de 2015

Livros de cozinha - 87

Lisboa: Oficina do Livro, 2014

Coletânea de crónicas que Maria de Lourdes Modesto escreveu para o Diário de Notícias, estas ou outras já coligidas anteriormente em Palavra puxa receita.

Lisboa: Verbo, 2005

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Leituras no Metro - 217

Paris: Tallandier, 2011

Vim parar a Janet Flanner por um livro sobre Paris que li anteriormente, penso que Les exilés de Montparnasse,
Janet Flanner foi correspondente de The New Yorker, em Paris, entre 1925 e 1939. Este livro é uma antologia das «Cartas de Paris» que ela escreveu para essa revista americana, sob o pseudónimo de Genêt.
Figuras como Hemingway, Joyce, Pound, Fitzgerald, Sylvia Beach, Gertrude Stein, Diaghilev, Picasso, Joséphine Baker, Ravel, as mortes de Foch, Joffre, Clemenceau perpassam pelas 135 páginas do livro que já li. Crónicas sobre acontecimentos literários, artísticos ou políticos, reveladores de uma cidade cheia de contrastes.

Sobre o encerramento de um mítico cabaré em 1928, ela escreve: «Le Lapin agile, dernier cabaret de Montmartre, installé à l'ombre des frondaisons, jadis fréquenté par des hommes devenus célèbres depuis, tels que Guillaume Apollinaire, Max Jacob, Pierre Mac Orlan et André Salmon, va fermer ses portes. Le vieux Frédéric, le patron barbu et chapeauté de velours, qui avait trinqué avec la plupart d'entre eux, gratté sa guitare, accordé du crédit aux poètes et fait payer le prix fort aux riches, ne peut plus s'en sortir à cause des nouvelles taxes de nuit qui frappent la Butte.» (p. 80)

Segundo conta Janet Flanner, noutra página do livro (p. 117-118), a filha de Berthe Morisot ofereceu ao Louvre o quadro O Berço. Como o museu se mostrasse renitente em recebê-lo, disse-lhes que ele seria acompanhado por um quadro do tio Manet: Dame aux évantails. Claro que o Louvre recebeu os dois. O Berço encontra-se hoje no Museu d'Orsay. E Berthe Morisot é uma pintora muito apreciada.

O Berço, 1872
Senhora com leques, 1873

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Bordalo e Júlio César Machado nas Caldas


«Começaram por ser conjunto de crónicas de caldense ilustre, Isabel Castanheira, que foi, ao longo de anos, alegrando as páginas d’ A Gazeta das Caldas, mas cresceram até se tornarem agora um álbum profusamente ilustrado à maneira das publicações bordalianas, com o toque contemporâneo do designer Miguel Macedo. São 89 Passos a rasgar a cidade, fazendo-nos acompanhar Rafael Bordalo, na companhia de Júlio César Machado, em busca dos vestígios da sua estada. As Pausas para descanso são aproveitadas para chamar a intervir um ou outro dos autores clássicos. Não há instante que não seja devidamente iluminado por traço ou foto, resultando o conjunto numa experiência inesquecível. Se nunca as Caldas se viram assim retratadas, em mapa detalhado e rigoroso; também o artista e os seus admiradores não haviam sentido deste modo o peso que a cidade deixou na sua vida e obra. Um trabalho de referência, ao mesmo tempo erudito e popular, à maneira do mestre que olha com extrema ternura.»
http://www.ccc.com.pt/espetaculos/12-outros/799-apresentacao-do-livro-as-caldas-de-bordalo

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

S. Carlos em 1842

«Que diferença enorme entre o S. Carlos de hoje [1909] e o S. Carlos de 1842, como o descreve no seu estilo sarcástico e pitoresco o príncipe Lichnowsky!
«Então, durante dois meses, revezavam-se no cartaz a Rainha de Gioconda e as Prisões de Edimburgo.
«A sala era iluminada a velas de cera. Em frente do camarote da rainha tronava o conde de Farrobo, príncipe da finança e mecenas dos artistas, que recusara as ofertas de Verdi e mandara vir Frondini para Lisboa.»
Carlos Malheiro Dias
In: Em redor de um grande drama. Lisboa: Livrarias Aillaud & Bertrand; Rio de Janeiro: Livr. Francisco Alves, ca 1913, p. 30



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Crónica de Férias - 1

 Também se pode começar pelo fim, é um critério como qualquer outro. Gostei de conhecer Bayonne, encantadora cidade do País Basco francês, cidade carregada de história. A primeira foto é da cidade ao fim da tarde, tirada da janela do quarto do hotel na outra margem, mais modernizada, do rio que banha a cidade.
 Uma das pontes que ligam a cidade, todas elas iluminadas .
 Um dos mais antigos edifícios, uma torre medieval de forma quadrada que resistiu a todos os cercos, todas as invasões que se esperam numa cidade fronteiriça.
 Uma loja que não se vê todos os dias, e que comprova a rica história de Bayonne, Onde há navios afundados há tesouros escondidos ...

 Um prato típico do País Basco francês, Axoa de Veau. 
 Ainda a cidade com o seu rio e as suas pontes.


Um dos mais antigos edifícios civis de Bayonne, uma beleza que ainda é habitada.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

«Eu gostava de tudo»...


«Eu gostava de tudo, dos Hércules no São Jorge, de uns policiais alemães com o Peter van Eyck no Roma, do fantástico Guerra e Paz de King Vidor [no Éden], gostava era do cinema, de comprar o bilhete, receber o programa, ouvir o gong e ali ficar, entre aventuras de piratas e dramas de amor, pensando que iria ser assim, desmesurada, a minha vida adulta e o grande amor.»
Jorge Silva Melo - Século passado. Lisboa: Cotovia, 2007, p. 21

Recomecei a ler a compilação de algumas crónicas de Jorge Silva Melo que estava no monte há anos. Já estaria lido (crónicas é um bom género literário para ler no Metro), não fosse o formato e o peso do livro...

Também eu gostava de ir ao cinema e lembro-me destes filmes que JSM refere. Sempre fui muito e continuo a ir.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O Futebol nas Letras - 25


SOB O SIGNO DE EUSÉBIO

Pouco ou quase nada entendo de futebol. Penso que isto não me diminui nem me favorece. Tudo o que se conhece e se sabe é enriquecimento. Mas poucas devem ser as pessoas com capacidade e tempo suficiente para atender todas as solicitações que a vida moderna lhes oferece. Enfim, pertenço àqueles que não veem desafios de futebol, nem nos estádios nem na televisão, aliás coisa que não possuo. Apesar disso voltei duma viagem ao estrangeiro com a sensação de a ter feito sob o signo de Eusébio. Foi na última semana de julho que passámos a fronteira da França para a Alemanha. O funcionário, ao revistar os nossos passaportes, exclamou: 
- Portugueses? Bravo! Eusébio! Eusébio! 
Olhámo-lo com estranheza. Não compreendemos tal manifestação. Vendo-nos assim, estupefactos, tornou-se ainda mais barulhento, quase tanto como os turistas alemães que viajam em magotes compactos por este mundo fora:
- «Messieurs! Señores! Verstehen Sie nicht? Eusebiio!» 
E ilustrou a última palavra com o gesto de um pontapé no ar. 
Ah, o Eusébio! Pois claro, claro! Oferecemos-lhe um sorriso: quem não conhecia o Eusébio? Numa pequena estalagem de Estugarda, onde entrámos à hora do jantar, perguntámos à dona se não nos podia arranjar alguma coisa para comer. Estava a ver, na televisão, o desafio entre Portugal e a Rússia. Apontou, sorrindo, para o Eusébio e despachou-nos rapidamente, com a desculpa de que pouca coisa tinha na despensa – na melhor das hipóteses, umas fatiazinhas de chouriço e pão – e que, se descêssemos a rua e atravessássemos a avenida, encontraríamos um bom restaurante. Era óbvio que não se queria privar do espetáculo. 
A rua e a avenida estavam despovoadas. Coisa estranha na cidade de Estugarda, àquela hora. Provavelmente a população encontrava-se absorvida pelo desafio. O bom restaurante era uma cervejaria. Também ali se estava a ver o jogo; e nós, enquanto comíamos, víamos também. O locutor salientava alguns nomes com nítido carinho. Entre eles o de Eusébio. E os fregueses da cervejaria repetiam, com o mesmo carinho: 
- Eusébio, Eusébio… 
Depois, numa outra cidade da Alemanha. Assistíamos a uma comemoração particular, num hotel de primeira. Havia mais de cem convidados, entre os quais representantes do governo, de vários organismos oficiais, de corporações, etc. Felicitaram-nos pela nossa bela equipa de futebol e, sobretudo, pelo Eusébio. Um velho conhecido – aliás bastante racista no que respeita aos negros, o que nos levava muitas vezes a ardentes discussões – confessou que sentia uma verdadeira ternura por «esse moço, esse Eusébio». E, no fim do banquete, mal tinham acabado os brindes, numeroso grupo correu para a sala onde havia um aparelho de televisão a fim de assistir ao desafio Portugal-Inglaterra. 
Na Áustria, no hall do nosso hotel, travei conversa com um engenheiro checo. 
- Portugal? – cismou – Mas eu sei alguma coisa de Portugal! 
- Talvez tenha lido um livro, um artigo? Ou visto um filme? – ajudei. 
Não, não tinha. Meti, então, um pouco hesitante: 
- Eusébio? 
- Isso! Precisamente! – exclamou. – Eusébio, que grande artista! O rei do futebol. Uma maravilha! 
Na pacata Suíça, onde bem se pressente que os trabalhadores estrangeiros – e entre eles os portugueses – não são lá grandemente estimados, vi muito suíço desconsolado com a vitória final da Inglaterra. Também ninguém queria que os alemães tivessem ficado em primeiro lugar, não; quem devia ter ganho era a simpática equipa portuguesa, com aquele grande virtuoso do jogo, o Eusébio. Que pena! 
Em Zurique, um motorista de táxi perguntou-me se eu alguma vez vira Eusébio. Disse-lhe que si, ainda há pouco, na televisão, em Estugarda.
- Mas nunca o viu em Portugal? – perguntou. 
- Não, não tenho televisão em casa. 
Insistiu: 
- O que queria saber é se já o viu em carne e osso. 
Tive de o desiludir: não, nunca o vira em carne e osso e, para me justificar, expliquei-lhe que vivia no Porto e ele em Lisboa. 
- Mesmo assim… - retorquiu com certa estranheza. 
Podia reproduzir mais conversas no género, mas o espaço concedido a um artigo deste teor não mo permite. Devo só confessar que, por várias vezes, me senti deslocada neste mundo por não saber falar com desenvoltura e entusiasmo sobre futebol e sobre Eusébio. 
Mea culpa

Ilse Losa
In: Diário Popular. Lisboa. 6 out. 1966

sábado, 28 de setembro de 2013

A minha pilha de livros - 4

2.ª ed. Lisboa: Portugal-Brasil, ca 1922

Já o tinha lido, emprestado. Como entretanto o comprei, reli-o agora. Reli algumas das crónicas com grande prazer.

sábado, 17 de novembro de 2012

Em geminação com o Arpose: «Castanhas assadas»

 Alguém andava à procura na net da crónica de Maria Judite de Carvalho «Castanhas assadas», e foi parar ao Arpose. A referida crónica saiu no Diário de Lisboa em 13 nov. 1968 e foi coligida, por Ruth Navas e José Manuel Esteves, na antologia Este tempo (p. 77-78). Aqui fica.

http://sm1.imgs.sapo.pt/mb/x/J/5/O/NH8sRc4vzrEu,hJcT7EsnzM_.jpg

Castanhas assadas

O velho vendedor desta tarde, ali à esquina da rua, lembrou-me outro, lá longe, no passado de uma cidade diferente, esse diluído não só em tempo ou em bruma mas também num fumo aromático que não aquecia, fumo frio, talvez, e que atravessava ossos porosos que existiam, que estavam ali dentro de mim, um pouco arrepiados também. Eu passava todos os dias pelo homem, que usava boina e samarra, talvez fosse espanhol, já não me lembro, e detinha-me sempre para comprar o eterno cartucho de castanhas, que logo metia, em partes iguais, nos bolsos já largueirões do casaco, deixando ficar as mãos naquele leve, apesar disso reconfortante calor. Cá fora havia nevoeiro, ou então um espesso teto de nuvens baças separava-nos da estrela da vida, que desaparecera do nosso convívio há muito tempo. E eu, mesmo sem querer, mesmo pensando que isso era impossível, não a imaginava lá em cima mas muito longe, para o sul,  aquecendo e iluminando a  minha terra. Fazia o resto do percurso devagar, ia aproveitando aquela sensação tão doce. Quando chegava ao hotel tinha as mãos enfarruscadas e as castanhas estavam quase frias, mas paciência, comia-as mesmo assim.
Hoje, aqui, não comprei castanhas ao velho vendedor. Hoje, aqui, não quero sujar as mãos e, de resto, o casaco não tem bolsos. Hoje, aqui, ainda não faz frio e o Sol é sedentário e amigo, mora lá em cima, nunca anda muito tempo a viajar. Ou brilha ou brilhou ou vai brilhar um dia destes, talvez amanhã. O fumo também nunca chega a ser névoa e as castanhas têm outro sabor. Nem melhor nem pior. Um sabor diferente.

Maria Judite de Carvalho

Lisboa: Caminho, 1991

domingo, 19 de agosto de 2012

Livros de cozinha - 62

Um livro de Joaquim Pulga, de crónicas memorialistas, do qual retirei uma. Bem quis saber onde é a Taberna do Gasolina, mas não consegui.

3.ª ed. Évora: Casa do Sul Ed., 2006 
4.ª ed. Évora: Casa do Sul Ed., 2008

LONGA VIDA À TABERNA DO GASOLINA 

Na Grécia antiga a taberna dava pelo nome de Kapêleion e os taberneiros de Kápelos. O vinho, razão primeira da existência das tabernas, mereceu do poeta Grego Alceu para a posteridade: 
É preciso não entregar o coração ao infortúnio./Nada lucraremos, ó Bíquis, com tristezas./O melhor remédio é pedir vinho e embriagar-nos. 
Os Romanos frequentavam-nas com entusiasmo, como se de lugares de culto se tratasse. Para eles, eram poiso de conversa e boa disposição, de abrigo e refúgio, de comidas e vinho que, generoso, corria a rodos. Muitos foram os autores romanos a quem nunca doeram as mãos e a pena na sua celebração. Plauto, Horácio, Cícero e Tito Lívio que, certamente, entre outros, se refugiaram na sua penumbra apelando às Musas. 
Na Idade Média continuaram a ser templos de convívio e satisfação. Nelas, continuou a jorrar vinho para poetas, jograis, e goliardos, saltimbancos e vagabundos, cavaleiros e soldados, frades e peregrinos, camponeses e artesãos. Foram frequentadores seus que escreveram os magníficos Carmina Burana. Nelas, se conspirou e delas saíram revoluções e regicídios. Nelas, encontraram conforto os inúmeros desprezados da sorte daqueles tempos.
Omar Khayyam, cidadão da Pérsia muçulmana, homem sábio, culto e crítico, astrólogo, matemático e geómetra, que com a normalidade dos amantes do prazer, prezou o convívio das mulheres, das tabernas e do vinho, deixou-nos na forma de poema, o seu elogio:
O nosso tesouro? O vinho./ O nosso palácio? A taberna./ Os nossos fiéis companheiros? A sede e a embriaguês./ Ignoramos a inquietude, porque sabemos que as nossas almas, corações e taças e as nossas roupas maculadas nada têm a temer do pó, da água e do fogo.
As tabernas foram para mim a curiosidade da infância e a academia da adolescência. A taberna do Armando, do Nabo, do Quintaneiro, do Praça, do Carranca, sítios que atentatóriamente foram convertidos em baiucas de mau gosto, onde reina a falsa modernidade do espelhinho, do alumínio e da fórmica, foram escolas onde percebi dos méritos e dos malefícios da vida. Lugares onde estabeleci amizades e aprendi a maldizer, onde discuti o relativo e o absoluto, onde com reverência escutei do saber e do fazer, onde fui iniciado nos prazeres do vinho e do petisco.
Em homenagem a estes santos lugares convivialidade, exalto, do saber e do fazer um petisco que é comedia nobre nas tabernas do sul. 

Fígado de coentrada
3 fígados de borrego
1 molho de coentros médio
3 dentes de alho
1,5 dl de azeite
vinagre a gosto
sal grosso a gosto 

Depois dos fígados bem arranjados e salpicados de sal, assam-se inteiros, no carvão, em calor brando. Para uma tigela cortam-se os fígados em pequenos cubos. Rega-se o preparado com o azeite e o vinagre, para o qual, igualmente, se picam os alhos e os coentros. Salga-se a gosto e mistura-se bem. Deixa-se a tomar sabor de um dia para o outro, mexendo de vez em quando

Em Alcáçovas, entre na taberna do Gasolina e sente-se, jogue uma suecada ou um dominó e aprecie o magnífico balcão de mármore. Faça-se à conversa com o tio André ou com o Sérgio que, seguramente, com a delicadeza dos alentejanos, o recompensarão com uma pomada da sua secreta garrafeira. Solicite os delicados préstimos culinários da tia Vicência ou da Elsa. Coma e beba e belamente vai voltar, pela pinga, pela comida e pela simpatia. Pode, inclusivamente, maldizer (com bons modos) o Benfica, que o André e o Sérgio são do Glorioso da Luz, mas como qualquer alentejano que se preze, são danados para a brincadeira.
Eu tenho um prazer imenso no Gasolina.
Longa vida à taberna do Gasolina.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

sábado, 26 de março de 2011

Citações - 158


(...) Esta civilização em que vivemos- e a palavra é justa- foi criada a seguir à II Guerra, durante 30 anos de uma extraordinária e irrepetível prosperidade, pela esquerda socialista e social democrata ( às vezes com o apoio da democracia cristã e até de alguns partidos conservadores ). Do berço à cova ( não em Portugal, claro ), o Estado tratava da nossa querida vida e resolvia os nossos problemas. Não vale a pena discutir os méritos desta horrível visão. Mas vale com certeza a pena compreender que esse mundo não volta e que os vestígios dele irão desaparecer lentamente na miséria geral. A Europa já não é uma potência, é um lugar turístico. E o dinheiro acabou. Ninguém sabe o que aí vem, para lá da dívida e do défice, excepto que seguramente não será nada como dantes.


-
Vasco Pulido Valente
, no Público de hoje.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Citações - 150


(...) Das malfadadas SCUT'S às nebulosas parcerias público-privadas, passando pelos sofisticados esquemas de financiamento a longo prazo das grandes obras públicas, o que vemos é o multiplicar de exemplos de antecipação de benefícios e direitos por contrapartida do adiamento-muitas vezes escamoteado- de custos e deveres.
A questão que agora se começa a colocar, à medida que chegam à idade eleitoral os milhares de jovens chamados a pagar a fatura de uma prosperidade artificial de que os seus pais gozaram, é a de saber até que ponto são sustentáveis as tensões que este fenómeno coloca no nosso sistema político e constitucional.
Porque é normal, convenhamos, que esta geração se sinta pouco apegada a um regime que - sem sombra de legitimidade - a traiu e "tramou". E bem tramada, de resto.
Já bastavam à democracia todas as demais doenças da modernidade. Mas esta crise da legitimidade intergeracional pode bem ser o grande desafio que tem pela frente.


- Pedro Norton, Bacalhau e democracia, na Visão.