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domingo, 15 de dezembro de 2019

Leituras no Metro - 1046


Compreensão

Os anos da minha juventude, a minha vida de prazer –
que claramente vejo agora o seu sentido.

Que inúteis remorsos, que estéreis…

Mas não via o sentido nessa altura.

Em meio à minha dissoluta vida jovem
ia tomando forma a minha poesia,
ia-se desenhando o contorno da minha arte.

Por isso nunca houve firmes arrependimentos.
E as decisões de me dominar, de mudar
duravam duas semanas se tanto.

1918
Konstantinos Kaváfis
In: 145 poemas. Trad. de Manuel Resende. Porto: flop livros, 2017

Leitura do poema «A Cidade» por José Luís Costa.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A bordo

Já que JMS trouxe um poema de Eugénio de Andrade dedicado a Kavafis, eu trago um do poeta grego, traduzido por Jorge de Sena.Vale a pena ler esta antologia.

2.ª ed. Coimbra: Texto, 1986

Claro que é parecido este pequeno
retrato dele, a lápis.

Feito num momento, no convés do barco,
numa tarde encantadora.
O mar da Jónia a rodear-nos.

Parece-se com ele. Não era ele mais belo?
Sensível era a ponto de sofrer -
o que seu rosto iluminava.
Mais belo me aparece, agora que,
fora do Tempo, eu o recordo n'alma.

Fora do Tempo. Tudo isto é muito antigo -
o desenho, e o navio, e o entardecer.

[1919]
Konstantinos P. Kavafis
Trad. de Jorge de Sena

quinta-feira, 29 de março de 2012

Em geminação com A Casa Improvável


A Bordo
Claro que é parecido este pequeno
retrato dele, a lápis.
Feito num momento, no convés do barco,
numa tarde encantadora.
O mar da Jónia a rodear-nos.
Parece-se com ele. Não era ele mais belo?
Sensível era a ponto de sofrer -
o que seu rosto iluminava.
Mais belo me aparece, agora que,
fora do Tempo, eu o recordo n'alma.
Fora do Tempo. Tudo isto é muito antigo -
o desenho, e o navio, e o entardecer.
                                                   [1919]



sábado, 30 de julho de 2011

Parabéns, c.a. - parte I

SOMA

Não discuto se sou feliz ou não.
Mas de uma coisa faço por lembrar-me sempre:
que nessa grande soma - a deles, que eu detesto -
de tantas e tantas parcelas, não sou
uma delas. Eu nunca fui contado
para a soma total. Esta alegria basta.

Konstantinos P. Kavafis
Trad. de Jorge de Sena, in 90 e mais quatro poemas. 3.ª ed. Lisboa: Asa, 2003, p. 24

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ítaca


Pinturas encontradas em Acrotiri, Thera (Santorini)
http://www.mlahanas.de/Greeks/Ships/Ships.htm

Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestregónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestregónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

Konstantinos P. Kavafis
Trad. Jorge de Sena





EM ÍTACA

Quando um homem se põe a caminhar
deixa um pouco de si pelo caminho.
vai inteiro ao partir repartido ao chegar.
O resto fica sempre no caminho
quando um homem se põe a caminhar.

Fica sempre no caminho um recordar
fica sempre no caminho um pouco mais
do que tinha ao partir do que tem ao chegar.
Fica um homem que não volta nunca mais
quando um homem se põe a caminhar.

Vão-se os rios sem margens para o mar.
Ai rio da memória: só imagens.
O mais é só um verde recordar
é um ficar (sem as levar) nas verdes margens
quando um homem se põe a caminhar.

Manuel Alegre
(excerto de Um barco para Ítaca)

domingo, 14 de dezembro de 2008

À porta do café

Algo que ouvi junto de mim desviou-
-me a atenção para a porta do café.
E vi o corpo esplêndido que parecia
como se o próprio Eros o fizera com perícia extrema -
modelando-lhe com prazer a simetria dos membros,
erguendo ao alto a estátua do seu torso,
modelando o rosto dele com afecto,
e do toque deixando dos seus próprios dedos
um jeito na testa, nos olhos, e nos lábios.

[1915]

Konstantinos P. Kavafis
In: 90 e mais quatro poemas / trad. de Jorge de Sena. 3.ª ed. Porto: Asa, 2003, p. 56

Depois de ter lido o poema de Eugénio de Andrade.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Olhos azuis

Para quem gostar de olhos azuis!

Tão longe

Desta memória eu quereria dizer...
Tão apagada agora... quase nada resta -
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser humano.

Uma pele como de jasmim... Na noite
de Agosto... Era Agosto?... Mal relembro
os seus olhos... Eram, suponho, azuis...
Ah sim, azuis. Azuis como safira.

[1914]
Constantino Cavafy [Konstantinos Kavafis]

(90 e mais quatro poemas. Trad. de Jorge de Sena. 3.ª ed. Porto: Asa, 2003)