Vi ontem no blogue da Livraria Lumiére que Arquimedes da Silva Santos faleceu.
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
Os meus franceses - 731
Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça ira”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.
Jorge de Sena
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Sacha Guitry (1885-1957)
terça-feira, 19 de novembro de 2019
As minhas primeiras memórias de José Mário Branco
Fiquei chocada quando soube da morte repentina de José Mário Branco.
O primeiro disco de José Mário Branco. Acho que já falei dele aqui:
O primeiro disco de José Mário Branco. Acho que já falei dele aqui:
Um 45 r.p.m., editado em 1967, e que tem Sérgio Godinho como 2.ª viola e pandeireta e Raymond Guyot na flauta.
Segundo disco de José Mário Branco, editado em 1969.
Primeiro LP, gravado em Paris, em 1971.
sábado, 9 de novembro de 2019
Um quarto de hotel em Madrid
Não se chega a pertencer nunca a um
quarto de hotel. Não se lhe ganha afecto (não
é nosso por inteiro) se é
certo que amanhã outro dono estará
emoldurado
ao espelho. Não se chega a confiar nele
(não se lhe lega segredos) sequer a
palavra impudica expurgada
da pele
pela toalha de banho. Não chega a
ser nossa a cama (não se molda
a nosso jeito) melhor que
nem te despeças dessa alcova pela manhã
quando sabes como é lesta a
entregar-se ao próximo viandante
por dinheiro.
João Luís Barreto Guimarães
In: O tempo avança por sílabas. Lisboa: Quetzal, 2019
sábado, 2 de novembro de 2019
O Baloiço de Fragonard
Fragonard - O baloiço [I]
Fragonard - O baloiço [II], 1767 - o mais conhecido
Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entreveem, e que mais
não vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça, como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!
Assis, 8 abril 61
Jorge de Sena
Em memória de J.-F. C.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
segunda-feira, 10 de junho de 2019
quinta-feira, 16 de maio de 2019
quinta-feira, 9 de maio de 2019
Boa noite!
Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1954
Manuel Mendes faleceu há 50 anos. Escreveu um belo livro, Pedro: romance de um vagabundo, que foi adaptado ao cinema por Alfredo Tropa em 1972, com António Montês no protagonista. Para a banda sonora do filme, Manuel Freire interpretou um poema de Fernando Assis Pacheco musicado por Manuel Jorge Veloso.
Este 45 r.p.m. também existe cá em casa. Editado pelo ZIP-ZIP que depois de ser programa da RTP - onde estreou há 50 anos - foi etiqueta de discos.
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Carta de amor informático
Ana Hatherly faria hoje 90 anos.
Penetraste no meu coração
Como um vírus no meu computador
Vindo de lado nenhum
Ofereces-me agora
O vazio da não opção
Estragaste-me o real
Obrigaste-me a reinventá-lo:
Para quê?
Agora estás
No meu cemitério de textos
Já não te posso reencaminhar
Arquivei-te no lixo da memória
Do meu Pentium IV
Que aliás já vendi
Troquei-o por um lap top
Mais leve
Mais portátil
Mais facilmente descartável
Ana Hatherly
Penetraste no meu coração
Como um vírus no meu computador
Vindo de lado nenhum
Ofereces-me agora
O vazio da não opção
Estragaste-me o real
Obrigaste-me a reinventá-lo:
Para quê?
Agora estás
No meu cemitério de textos
Já não te posso reencaminhar
Arquivei-te no lixo da memória
Do meu Pentium IV
Que aliás já vendi
Troquei-o por um lap top
Mais leve
Mais portátil
Mais facilmente descartável
Ana Hatherly
domingo, 14 de abril de 2019
O beijo
Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
Donde teria vindo! (Não é meu…)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?
É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar.
Alexandre O’Neill
In No Reino da Dinamarca (1958)
No Dia Mundial do Beijo. :)
domingo, 7 de abril de 2019
L'âge d'airain
Rodin - L'âge d'airain, 1876
MET
Devagar, devagar, em frente á luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.
No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai - perdida dos seus dedos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 21 de março de 2019
quarta-feira, 20 de março de 2019
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Parabéns, Fernando Echevarría!
O irmos sendo subjaz
em estarmos só a ser.
Ou temos em punho a paz
com a paz e o punho a arder.
E o que é feliz então
nem é irmos nem é tempo,
mas estar o coração
a pensar o pensamento.
Um coração esquecido
do que, punho subjacente,
conserva apenas o afinco
em queimar o seu repente.
Fernando Echevarría
Fernando Echevarría recebe hoje (dia em que completa 90 anos), no Porto, a Medalha de Mérito Cultural.
sábado, 23 de fevereiro de 2019
Marcadores de livros - 1279
José Afono faleceu há 32 anos. Lembro-me muito bem do momento em que soube da sua morte. Para mim, ele é único.
Para a Cláudia.
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domingo, 17 de fevereiro de 2019
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
As janelas do meu quarto
Pierre Bonnard - Janela, 1925
Tenho quarenta janelas,
nas paredes do meu quarto,
sem vidros nem bambinelas,
posso ver através delas,
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea,
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza,
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança,
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa.
E o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio,
a que se chama poesia.
E a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade.
E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro,
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.
Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra,
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
que vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta,
falta-me a luz e o ar.
António Gedeão
Para a Ana.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Menina calçando a meia
Menina calçando meia. Escultura de Leopoldo de Almeida.
Lisboa, Estufa Fria, Parque Eduardo VII
(Estufa-Fria, 1966)
Não te mexas.
O futuro é perder o equilíbrio,
cair até bater no fundo
de uma insónia hora a hora
interrompida para respirar
à superfície da luz.
Não te mexas, ainda.
Não hesites, não assustes o sonho
pousado em teia sobre ti,
não agites as águas.
E talvez a vida se deixe
ficar à margem
com os seus dias armados de pedras.
Inês Dias
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