William-Adolphe Bouguereau - O dia de finados, 1859.
Museu de Belas Artes de Bordéus
«Confesso que se a morte não me causa susto, as agências funerárias me desgostam um pouco. Existe uma no bairro [...]. Lembro [...] que regressando a casa alta madrugada, e às vezes, por que não confessar, um pouco trôpego de pernas e ideias, só via uma casa de portas abertas, um anúncio aceso na rua silenciosa: a agência funerária.
«Lá dentro dois sujeitos jogavam damas - e quando eu passava o que estava de frente para a rua erguia os olhos um pouco para me ver. Era um sujeito pouco simpático, em mangas de camisa, sempre a fumar um toco de charuto. A manira como ele me olhava toda madrugada começou a me irritar. Ele parecia dizer: "Hum, ali vai outra vez aquele sujeito. Continua a beber... Não deve durar muito..."
«E devia estar pensando que poderia ganhar algumas centenas de cruzeiros de comissão à minha custa... [...]
«Dizem que quando se liga aquele número o homem do toco de charuto atende com uma voz cavernosa que tenta ser gentil para agradar à freguesia: "Funerais, boa noite..."»
Rubem Braga - Desculpem tocar no assunto. Lisboa: Tinta da China, 2023, p. 71-72.