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quarta-feira, 2 de outubro de 2024

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Leituras no Metro - 2919

Porto: Livr. Chardron, 1910

«Domingo gordo: um ar frio de inverno dá uma certa lógica aos dominós, transformando-os em agasalhos menos monótonos; e as máscaras de seda ou de papelão, aderentes ao rosto como uma afronta, evitam os cortantes golpes de vento gelado. O primeiro ser anormal que apareceu nesse domingo, na madrugada da festa que no Brasil é de Momo, e na Espanha de Quasimodo, foi um "diabinho". [...]
«Das árvores a que o outono arrancou as folhas e que a primavera não reverdeceu, caía uma chuva constante de pedaços miúdos de papel, […]. As serpentinas se desenrolavam como foguetes que sobem, longas, finas e coleantes. E das quatro filas de carros abertos, das tribunas, de toda parte baixavam nuvens perfumadas de rosas, cravos, violetas. O longo préstito subia e descia, harmonioso e em fila, entre as guitarras das estudantinas e os pregões dos vendedores ambulantes que ofereciam as suas serpentinas de quarenta metros, - porque as autoridades só permitiam as de vinte. […]
«De repente houve um alvoroço alegre, uma espera atenta; preparavam-se os dacos de confetti, empunharam-se as serpentinas, escolheram-se os mais frescos e perfumados ramalhetes. Um automóvel apareceu ao longe […] o rei de Espanha passava na Castelhana […].» 
Tomás Lopes - Paisagens de Hespanha, p. 70-77

sábado, 7 de outubro de 2023

Leituras no Metro - 1163


Alfragide: Dom Quixote, 2014.

O KGB invadiu a casa de Vassili Grossman (1905-1964) lavando o manuscrito bem como todas as notas relacionadas Vida e destino, tendo Suslov informado o escritor que o livro não iria ser editado nos próximos 200 anos (imagine-se!). Todas as cópias do livro desapareceram, exceto uma em microfilme que foi enviada por Sakharov para o estrangeiro e o livro foi publicado pela primeira vez além fronteiras. Após a queda da União Soviética, o manuscrito que estava nos arquivos do KGB foi localizado. É uma obra-prima.
Depois da confisco do livro, Grossman resolveu aceitar o trabalho de rever a tradução para russo de um romance arménio. Só o fez porque isso lhe possibilitou visitar a Arménia e porque parece que o governo soviético também o queria fora de Moscovo. 
Dessa viagem nasceu Bem hajam!, relato dos dois meses que passou naquele país: as conversas com os arménios, muitas vezes em língua gestual, dado que Grossman desconhecia arménio e os habitantes do país não falavam russo. Por vezes, havia um intérprete.
Fala-nos das pessoas, das paisagens, das cidades, dos monumentos, dos costumes. Um relato intimista e comovente.

« Foi surpreendente para mim: entre os arménios, há muitos loiros, de olhos cinzentos, azul-claros, azul-escuros. Vi na aldeia crianças de cabelo clarinho, vi a encantadora Rossana, de quatro anos, de olhos celestes e cabelo dourado. Entre as mulheres e os homens arménios há caras de uma beleza de antiguidade clássica, com feições de rosto ideais, nariz pequeno e regular, olhos azuis amendoados. Vi pessoas com maçãs de rosto salientes, narizes achatados e o rasgo dos olhos um pouco asiático; vi pessoas com narizes arrebitados, vi arménios com caras alongadas, agudas, narizes incrivelmente grandes, aguçados, aduncos. Encontre pessoas de cabelo tão negro que parecia azulado [...].
«Como teriam surgido, contudo, os desvios de feições arménios consideradas típicas?
«Creio que tal variedade reflete a história das milenárias invasões, incursões, quedas em cativeiro, a história dos contactos comerciais e culturais [...].» (p. 33)

«[...] a exaltação nacionalista dos pequenos povos oprimidos surge como um meio de defesa da sua dignidade e liberdade.» (p. 39)


Marcadores de livros - 2807



Para Pini.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Livro(s) e marcador(es) - 85

Fotos da Maria.

Só li Veneza e há muitos anos, nesta ed. ou numa semelhante. O livro tem como marcador uma fitinha.
Ver aqui.


sábado, 2 de setembro de 2023

Conhecem este livro? E esta 'escritora'?

No final dos anos 1950 e início dos anos 1960, Vargas Llosa vivia em Paris. Precisava de dinheiro para viver e acetou escrever as memórias africanas de uma viajante peruana, Cata Podestá. O livro foi editado em Lima pago pela presuntiva autora, em 1960, P.L. Villanueva Editor. Mais um escritor fantasma! 🤣😉



 

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Livro e marcador - 72

Desta vez foi a Cláudia (a quem agradeço) que enviou esta foto:

Lisboa: Quetzal, 2019

«Muito mais do que um livro de viagens, Yoga para pessoas que não estão para fazer yoga é uma viagem por paisagens reais - Amesterdão, Camboja, Roma, Indonésia, Nova Orleães, Líbia, deserto do Nevada - e oníricas, por histórias, ideias, poemas e todos os labirintos da imaginação. Numa prosa reverberante de inteligência, de graça e de uma imensa comicidade, Dyer explora a noção de que experiências em diferentes tempos e lugares ocorrem, de alguma forma, em simultâneo; de que cada uma delas é única, irrepetível, sem paralelo; observa os fenómenos (e as sensações) que suspendem distância e espaço, e as categorias de proximidade e distância. E, em busca de experiências exóticas e extremas, Dyer procura o momento e o lugar perfeitos.» (Sinopse)

sábado, 19 de agosto de 2023

Favaios / Alijó

O nosso viajante Julio Llamazares, que andamos a acompanhar há uns dias por Trás-os-Montes, quis ir provar o moscatel de Favaios na sua terra.


O viajante pergunta ao barqueiro de Pinhão o caminho para Favaios para ir provar o moscatel. 
«- Moscatel! Isso é para crianças! - exclama o homem, ofendido. - os homens de barba como nós bebem vinho do Pinhão. [...] O moscatel de Favaios é como a água do rio: bebe-se mija-se». Ele ficou sem saber o que era vinho do Pinhão e eu também.
«Ainda assim, o viajante vai a Favaios. [...] o viajante só vê a povoação quando vê à sua frente a tabuleta: Favaios, Capital do Moscatel, lê-se entre dois arabescos. A povoação fica atrás, escondida pelos vinhedos [...].
«Favaios [...] é uma povoação muito antiga. De casas grandes, de pedra, com uma fonte lindíssima e uma igreja impressionante (enorme, também de pedra, com um relógio de granito - de 1912 - e coberta de azulejos), delata desde o princípio a sua antiguidade e riqueza. Sobretudo, tendo em conta que a povoação nem sequer é capital da comarca. Vê-se que o vinho moscatel pelo menos dá dinheiro.
«- Bom, não nos queixamos - confessa o dono do bar onde o viajante entra finalmente depois de ter apreciado a igreja. [...]
«- Dá.me um moscatel?
«- Um copo?
«- Não, um cálice.»
Depois de experimentar o moscatel, Llamazares saiu da taberna, não antes de comprar uns garrafõezinhos de moscatel com 20 anos.



«Alijó já é uma vila grande. Sede do conselho com o mesmo nome e capital da Terra Quente [...]. Uma pousada, uma praça, uns quantos cafés e moradias e um rosário de casarões solarengos falam do seu passado e importância [...]. O viajante, pelo menos, quando percorre as suas ruas, apercebe-se logo da riqueza da povoação.» Mais uma vez, parece que o moscatel e o vinho dão dinheiro. Llamazares não o provou, mas devia tê-lo feito. É menos doce que o Favaios.
Julio Llamazares - Trás-os-Montes. Barcelona: Penguin, D.L. 2016, p. 215-218, 221-222.



E assim terminamos este passeio por Trás-os-Montes, na companhia de Julio Llamazares.


Sirvam-se! 
Saúde!

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Vidago / Pedras Salgadas

Desculpem se acham que ando há muito tempo com este livro, mas a rever uma zona que conheço bastantes bem.

«Porque, do Grande Hotel até ao Palace, passando pelas nascentes (o manancial de água termal em torno da qual surgiram), o caminho é tão bonito, tão sombrio e decadente, que o viajante compreendeu, não apenas a insistência [...] para que o visse. [...]
«O caminho para o Hotel Palace (na realidade uma ladeira) vai da estrada até à beira do rio que corre nas costas da povoação, e daqui não é visível. No total, um quilómetro ou um pouco mais no meio de árvores enormes e de jardins sombrios entre os quais, de vez em quando, assoma uma velha igreja ou um chalé agradável à vista, normalmente abandonado. Há também estufas, e hortas, e palacetes, e um caminho já em desuso que atravessa os jardins [...].

O Hotel Palace foi restaurado há poucos anos.

Rótulo para mala de viagem, muito vulgar nos anos 1950 e 1960.
Hoje há colecionadores destes rótulos.

«Dizem que, quando foi inaugurado (em 1910), o Palace era o hotel mais luxuoso e romântico da Europa. Talvez continue ainda a sê-lo, todavia, devido ao lugar onde se encontra e à grandiosidade e magnificência que impregnam todo o conjunto e atingem a sua expressão máxima no vestíbulo e na grande escadaria principal [...].»

Llamazares visitou a sala de jantar que ainda não tinha sido restaurada em 1995.

Postais de Vidago: o p&b é dos anos 1950 e os coloridos dos anos 1960.

«Porque, se Vidago é o paraíso, Pedras Salgadas não lhe fica atrás. Nem na distância, que não é muito grande (doze quilómetros apenas), nem na bonança das suas nascentes. Talvez por isso, ambas as vilas, embora sendo velhas rivais, partilhem hoje a capitalidade das águas termais portuguesas. [...]
«As setas, que se sucedem, vão conduzindo o viajante até um espesso arvoredo que corre ao lado do rio e onde se ouvem vozes de pessoas que parecem estar a banhar-se. [...]

Capela da Estância, Pedras Salgadas, construída no início do século XX. Postal dos anos 1940.

«[...] todos os edifícios da estação termal das Pedras Salgadas conservam o estilo e a construção belle époque e o inconfundível aspeto decadentista da época.» 
Julio Llamazares - Trás-os-Montes. Barcelona: Penguin, D.L. 2016, p. 109-110, 112, 115-116.

Sou uma grande apreciadora de água das Pedras [Salgadas], mais do que da de Vidago. Mas quando não há Pedras, bebo Vidago. Moderadamente.

Garrafa atual.

Rótulo de uma garrafa antiga.
Os rótulos e o design das garrafas tem mudado ao longo dos anos.

Para Miss Tolstoi.

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Chaves

Uns postais dos anos 1940-1950 com vistas de Chaves.

«A cidade vai aparecendo pouco a pouco entre a vegetação do rio como uma continuação das pequenas casas agrícolas que se vão sucedendo na estrada. O viajante, de facto, não se dá conta que está nela até descobrir a ponte que a une com o mundo e que constitui também a sua porta mais singular apesar das mutilações que sofreu com o tempo.
«Dezoito arcos, de que hoje apenas se conservam 12, e mais de duzentos metros chegou a ter esta ponte por onde a calçada romana unia Braga e Astorga transpunha o curso do Tâmega e por onde durante séculos foram entrando em Chaves todos os invasores e viajantes. A cidade edificada numa colina, estava isolada por ela e durante centenas de anos esta foi a sua única ponte. Por isso continua de pé e por isso continua a ser a mais utilizada, embora com o decorrer do tempo tenha ficado pequena. Não foi por acaso que, graças a ela, Chaves começou a crescer até se transformar [...] na principal cidade de todo o vale do Tâmega e de toda a fronteira portuguesa.
«E nota-se. O viajante vai-se apercebendo à medida que se aproxima dela, contemplando as igrejas e as casas que se erguem em redor da ponte. São casas grandes, de pedra, com escudos e fachadas brasonadas e miradores e alpendres que se amontoam e quase se empurram para poder contemplar o rio.»
Julio Llamazares - Trás-os-Montes. Barcelona: Penguin, D.L. 2016, p. 86-87


Llamazares viu uma carrinha de «O Antigo Pasteleiro. Os verdadeiros pastéis de Chaves», mas parece-me que não os chegou a experimentar. Fez mal! 
Agora tenho sorte porque estes pastéis já se vendem em Lisboa e alguns muito bons. Tal como as frigideiras de Braga.
Seria Teresa de Jesus Teixeira a antiga pasteleira?


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

O que estamos a ler? - 16

Estou a ler e a adorar este livro com a descrição de uma viagem que Julio Llamares fez por Trás-os-Montes, em agosto de 1995, sete meses após a morte de Miguel Torga.
Fui pela primeira vez a Trás-os-Montes com seis meses, de comboio. Imagino que não terá sido uma viagem fácil e como devem perceber não me lembro de nada. Depois durante 18 anos todos os anos em setembro passava uma semana nessa região do país. Só quem não conheceu Trás-os-Montes nos tempos anteriores à democracia pode dizer que nada aconteceu no Portugal profundo. Já lá voltei umas vezes depois de 1995 e  as condições de vida mudaram para bastante melhor.
Olhando para aquelas terras, Llamares 'ouve' Ortega y Gasset a perguntar: «¡Esta pobre tierra de Guadalajara y Soria, esta meseta superior de Castilla!… ¿Habrá algo más pobre en el mundo?» E a resposta de Llamares é: «Sim. Trás-os-Montes, em Portugal!»

Barcelona: Penguin, D.L. 2016. (Debolsillo)

«No Café Leão [em Vinhais...], um lugar amplo e escuro onde o viajante entra para tomar a sua cerveja, dúzias de fregueses estão a jogar ás cartas, alheios á musica e ao ruído que se ouve lá fora. Ruído também fazem eles bastante, cantando cada jogada e batendo nas mesas. O viajante aguenta algum tempo - até se recompor dos 35 graus - mas, por fim, sai do café [...].»

Rebordelo.

«[...] pelas ruelas da aldeia, que o sol castiga com força, o viajante encontra homens e mulheres que conversam amavelmente á porta das suas casas enquanto os filhos jogam futebol ou andam de bicicleta. Outros, mais solitários, passeiam tranquilamente ou dormitam à sombra de alguma árvore ou protegidos pelas casas. Muitos devem ser emigrantes, mas parecem felizes por estar agora na sua aldeia. pelo menos, matam o tempo, coisa que o viajante duvida que possam fazer em França, ou na Suíça, ou na Alemanha, por mais que estes países sejam o centro do mundo e o lugar onde encontraram solução para a sua pobreza.»

Castelo de Monforte.

«O castelo, inteiramente de granito, tal como as aldeias próximas, está quase desmoronado, ams dos seus arredores, vê-se toda a várzea do Tâmega e as colinas de Trás-os-Montes praticamente até ao infinito: para o norte, as montanhas da Galiza, rotundas e ameaçadoras, quase à distância de uma pedrada; a oeste, o rio Tâmega, com Chaves nas suas margens, entre canais e hortas; para sul, as colinas de Valpaços, por onde corre o Tua, e, a este, a estrada que vai para Vinhais e Bragança e por onde chegou o viajante. Todo um mundo de cores e sons estendidos aos pés do castelo como se fosse uma toalha [...].»

Este livro ainda aqui vai voltar. 
                  
Lisboa: Difel, 1998

A tradução portuguesa está esgotada. A Quetzal bem a podia reeditar na sua col. Terra incógnita. Ou a Tinta da China na sua col. Literatura de viagens.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Leituras no Metro - 1151

Lisboa: Quetzal, 2022

Neste livro, Predrag Matvejevitch mostra-nos outra Veneza com locais menos conhecidos: «Perto do palazzo Soranzo, há um jardim luxuriante que vi pela primeira vez numa gravura do padre Vincenzo Coronelli. Da Ponte San Cristoforo, entrevi ao fim do dia o belo jardim do sinistro Palazzo Dario. [...] O Palazzo Contarini del Bovolo transformou os seus alpendres noutro jardim extraordinário.» (p. 33)

Jardins do palácio Soranzo Cappello.
Palazzo Contarini del Bovolo

«Nestes lugares (escrevo estas palavras na Laguna, na pequena ilha de Sam Giorgio in Alga) corriam outrora rios: veem-se ainda nos canais vestígios dos seus leitos. Eles depositaram aluviões, desgastaram as margens, cortaram ou ligaram os bancos de terra.» (p. 58)

António Visentini - A ilha de San Giorgio in Alga.«, 1738.