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segunda-feira, 23 de março de 2020

Leituras na quarentena - 7

As leituras de M. Franco:
«Quando não estou bem, o meu companheiro desde hà longos anos é o velhinho Os cadernos de Malte Laurids Brigge. É quase uma devoção. Posso abri-lo em qualquer página e todas as palavras me sabem bem. Não sei explicar, mas mais uma vez me acompanha nesta fase da minha vida.»

Porto: Inova, 1975

Não sei se é esta a edição de M. Franco. É a minha com uma tradução de Paulo Quintela. Aliás foi nas traduções deste professor de Coimbra que li (e continuo a ler) Rilke. 
E a Inova era uma belíssima editora.

Afinal a edição que M. Franco tem é esta:

Coimbra, 1965

domingo, 4 de dezembro de 2016

Marcadores de livros - 541




O torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.

Rainer Maria Rilke
Trad. Paulo Quintela

(Este poema não é do livro do marcador.)

sábado, 4 de dezembro de 2010

La Dame à la licorne


La Dame à la licorne: L'Ouïe

La Dame à la licorne: Le Goût
Duas de seis tapeçarias, século XV
Paris, Museu de Cluny


«Agora também as tapeçarias da Dame à la Licorne não estão já no velho castelo de Boussac. Chegou o tempo em que tudo abandonava as casas, elas não podem conservar mais nada. O perigo tornou-se mais seguro que a própria segurança. Já ninguém da estirpe dos Della Viste marcha a nosso lado e não traz no sangue a sua raça. Todos passaram. Ninguém pronuncia o teu nome, Pierre d'Aubusson, grande grão-mestre da casa antiquíssima, por cuja vontade foram talvez tecidas estas imagens que tudo louvam mas nada abandonam. (Ah, porque é que os poetas escreveram jamais de outra maneira sobre as mulheres, ,mais literalmente, segundo supunham? É bem certo que não devíamos saber nada senão isto.) Agora chega-se diante delas por acaso e entre visitantes de acaso, e quase se tem medo de não ter sido convidado. Mas há outros ainda que passam, posto não sejam muitos. os jovens mal param, a não ser que de qualquer modo faça parte da sua especialidade o olhar uma vez para estas coisas, por amor deste ou daquele determinado pormenor.
«É verdade que se encontram por vezes raparigas diante delas. Porque há uma porção de raparigas nos museus que algures abandonaram as casas que nada mais conservam. Encontram-se diante destas tapeçarias e esquecem-se um pouco. Sentiram sempre que isto devia existir, uma tal vida suave de gestos lentos e nunca totalmente esclarecidos, e lembram-se obscuramente de que algum tempo pensaram mesmo que seria esta a sua vida. [...]»
Rainer Maria Rilke
In: Os cadernos de Malte Laurids Brigge / trad. Paulo Quintela. Porto: O Oiro do Dia, 1983, p. 125-126

Rainer Maria Rilke nasceu a 4 de Dezembro de 1875.
Depois de ter lido
, no ARPOSE, um texto retirado deste mesmo livro.

terça-feira, 9 de março de 2010

Ainda a propósito de Maria Helena da Rocha Pereira


Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia, D.L. 2006

Andava à procura de uns vasos gregos - por uma razão que compreenderão dentro de umas semanas - e dei com este catálogo que desconhecia, que teve Maria Helena da Rocha Pereira como comissária científica.
A exposição, a que se refere o catálogo, reuniu, no Museu Nacional de Arqueologia, em 2007, um notável acervo de vasos gregos. A avaliar pelo magnífico catálogo - o qual termina com um poema de Keats, que a seguir transcrevo -. tenho pena de não ter visto esta mostra.

A UM VASO GREGO

Ó sempre inviolada noiva da quietude!
Ó filha adoptiva do Silêncio e do Tempo lento,
Rústica cantora, que assim sabes contar
Um conto flóreo com mais doçura do que os vossos versos:
Que legenda orlada de folhagem envolve a tua forma
De deidades ou mortais, ou de ambos,
No Tempe ou nos vales da Arcádia?
Que homens ou que deuses são estes? Que virgens relutantes?
Que louca perseguição? Que luta para escapar?
Que flautas e pandeiros? Que êxtase selvático?

Doces são melodias ouvidas, mas as não ouvidas
São inda mais doces; por isso, suaves flautas, continuai a tocar;
Não pra os ouvidos do corpo, mas, mais ternas,
Cantai para o espírito canções sem tom:
Belo efebo, debaixo das árvores, não podes deixar
De cantar, nem essas árvores perder a folhagem;
Amante ousado, nunca, nunca poderás beijar,
Mesmo com o alvo sedutoramente perto mas, não te lamentes,
Que ela não pode murchar; inda que não alcances a ventura,
Para sempre amarás e ela será bela!

Ah! felizes, felizes ramos! que não podeis perder
As vossas folhas, nem dizer nunca adeus à Primavera;
E tu, feliz aulete, infatigável,
Sempre a tocar canções para sempre novas;
Mais feliz amor! mais feliz, feliz amor!
Pra sempre ardente e para ser gozado ainda,
Sempre ofegante e para sempre jovem;
Muito acima do hálito de toda humana paixão
Que deixa o coração tão cheio de tristeza e saciedade,
A fronte febril e a língua ressequida.

Quem são estes que vão pra o sacrifício?
Para que verde altar, ó misterioso sacerdote,
Levas tu a vitela que vai mugindo os céus,
De flancos sedosos todos engrinaldados?
Que vilazinha à beira-rio ou junto ao mar,
Ou assente num monte c’uma acrópole pacífica,
Se esvaziou do seu povo nesta manhã piedosa?
E as tuas ruas, vilazinha, para sempre
Ficarão silenciosas; e nem viv’alma, pra contar
Porque ficaste deserta, pode jamais voltar.

Ó forma ática! Atitude bela! C’uma renda
Bordada de homens e de virgens de mármore,
Com ramos dos bosques e ervas que os pés calcaram;
Tu, forma silenciosa, intrigas e esgotas o nosso pensar
Como o faz a Eternidade: Fria Pastoral!
Quando a velhice tiver consumido esta geração,
Tu continuarás, no meio de outras dores
Que não as nossas, amiga do homem a quem dizes:
“Beleza é verdade, verdade é beleza!”, - e eis tudo
O que se sabe cá na terra, e tudo o que é preciso saber.

John Keats
Trad. Paulo Quintela

terça-feira, 14 de abril de 2009

Canções de Zaratustra – 6

103.

O poeta não é capaz de mentir
ciente e voluntariamente,
é o único que pode falar verdade.

Friedrich Nietzsche
In: Poemas / trad. Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1986, p. 109

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Canções de Zaratustra – 5

96.

Sois acaso mulheres,
para quererdes sofrer
por aquilo que amais?

Friedrich Nietzsche
In: Poemas / trad. Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1986, p. 107

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Canções de Zaratustra – 4

60.

A morte temo-la certa:
por que não havemos de estar serenos?

Friedrich Nietzsche
In: Poemas / trad. Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1986, p. 91

terça-feira, 7 de abril de 2009

Canções de Zaratustra – 3

18.

Este supremo obstáculo,
o pensamento dos pensamentos,
quem foi que o criou?
A própria vida se criou
o seu supremo obstáculo:
por cima do seu próprio pensamento ela agora salta.
……………………………………………………..
Por este pensamento
eu puxo todo o futuro.

Friedrich Nietzsche
In: Poemas / trad. Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1986, p. 73

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Canções de Zaratustra – 2

15.

A esta beleza de pedra
se refresca o meu ardente coração.

Friedrich Nietzsche
In: Poemas / trad. Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1986, p. 71

domingo, 5 de abril de 2009

Canções de Zaratustra – 1

4.

Não é pra tal ambição
Pequena de mais a terra?

Friedrich Nietzsche
In: Poemas / trad. Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1986, p. 67

quarta-feira, 1 de abril de 2009

GOSTO BIQUEIRO


Se tivesse liberdade de escolher,
Escolhia um bom cantinho
Mesmo no meio do Paraíso:
Melhor ainda – cá fora, em frente à porta!

Friedrich Nietzsche
In: Poemas / trad. Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1986, p. 149