Gostaria de lembrar aqui um discípulo de Montaigne que nasceu em 28 de Fevereiro de 1916, há precisamente 110 anos: Vergílio Ferreira. Deixou-nos em 1996, mas está presente em muitos de nós. Hoje tenho estado a ler PENSAR, e só não transcrevo aqui alguns excertos porque me custa imenso escrever neste quadradinho dos comentários. Boa tarde! 🌤
Ainda na sequência das merecidas referências de MARIA e MR aos velozes 30 anos do falecimento de VERGÍLIO FERREIRA (Melo, Gouveia, 28.1.1916 - Lisboa, 1.3.1996), creio ser oportuno recordar a longa e saudável Amizade e troca de correspondência entre o Autor de Obras tão marcantes como "Aparição", "Manhã Submersa" e "Para Sempre" e EDUARDO LOURENÇO (cf., por ex., a missiva do saudoso ensaísta, de 20.6.1955, publicada no próprio "JL", de 6.1.2016)...
Ao mesmo tempo, é digna de registo a reconhecida qualidade da memorável adaptação (1980) de "Manhã Submersa" ao Cinema, por LAURO ANTÓNIO. Até que ponto este filme contribuiu para a divulgação do célebre livro homónimo?!...
É neste contexto que me lembro da análise cuidada do Prof. ARNALDO SARAIVA ["VERGÍLIO FERREIRA, SEMINARISTA nos Seminários do Fundão e da Guarda", Porto, Editora Exclamação, 2017, pp. 50-51]:
"(...) O pároco [da sua Aldeia natal] António Parente escreveu em 1926 que Vergílio Ferreira devia 'trazer muito prestígio à Igreja', acrescentando com prudência: 'se se ordenar'. Não se ordenou, mas a sua experiência de seminarista permitiu-lhe escrever um romance ["Manhã Submersa"] que [a par da novela "Adolescente Agrilhoado", de José MARMELO E SILVA] prestou bons serviços à causa da educação em internatos e seminários portugueses, celebrizou o Seminário do Fundão - que por sinal fechou as suas portas em 2015, já depois de um escândalo que envolveu um seu vice-reitor - e, beneficiando sem dúvida da formação que aí recebeu, pôde produzir uma obra de inegável valor e prestígio cultural e literário."
Guardo para o fim uma telegráfica e inevitável menção ao simbólico Centenário do falecimento de CAMILO PESSANA (Coimbra, 7.9.1867 - Macau, 1.3.1926), cujo legado poético podemos, desde já, (re)apreciar nas páginas notáveis (e, no entanto, por vezes subestimadas) de "Clepsydra"...
A verdade é que, como se sabe - e está, aliás, bem patente numa página (172), muito elucidativa, do V Vol., "DA MÚSICA", das "Obas Completas" de EDUARDO LOURENÇO - com coordenação, Introdução e notas de Barbara ANIELLO, editado em 2019 pela Fundação C. Gulbenkian -, "existe uma intensa correspondência entre os dois intelectuais [EDUARDO LOURENÇO e VERGÍLIO FERREIRA] conservada na Biblioteca Nacional (...) e no Acervo de Eduardo Lourenço"; e, "entre 1955 e 1995, Eduardo Lourenço escreveu 256 cartas a Vergílio Ferreira"!...
Note-se, a propósito, a reconhecida espontaneidade do erudito ensaísta (p. 171, do referido volume): "(...) O meu amigo Vergílio não imaginava até que ponto tinha razão quando me julgava incapaz de 'falar de musica'. Mas também ignorava a que ponto essa 'música', de que não sabia falar, ou não podia falar, desde sempre 'me submergiu como o mar', como diria Baudelaire./ Na verdade, só os criadores e os intérpretes de génio (...) poderão falar dessas mágicas tapeçarias de sons onde a nossa temporalidade cruza e descruza os fios do tempo que a tecem e destecem./ É um milagre tão puro como o da invenção desses espaços de transparência e opacidade sonoras a que nós chamamos Bach, Mozart, Chopin".
Entretanto, talvez não seja despropositado lembrar aqui, apenas de passagem, um "pormenor" biográfico do talentoso e respeitado Actor RUY DE CARVALHO, que ontem celebrou o seu 99.º Aniversário. Sinceros parabéns!...
12 comentários:
Qué maravillosa biblioteca ¿Sabes de dónde es?
Feliz sábado.
Justa,
parece ser a Trinity College Dublin Library, mas não tenho a certeza...
Mr,
Fiquei com vontade de ler este livro.
Bom dia para as duas!📚
Primeiro pensei que seria da Tour de Montaigne, mas nada ficou da biblioteca do próprio. Também me parece a bibl. do Trinity College.
Bom sábado!
Gostaria de lembrar aqui um discípulo de Montaigne que nasceu em 28 de Fevereiro de 1916, há precisamente 110 anos: Vergílio Ferreira.
Deixou-nos em 1996, mas está presente em muitos de nós. Hoje tenho estado a ler PENSAR, e só não transcrevo aqui alguns excertos porque me custa imenso escrever neste quadradinho dos comentários.
Boa tarde! 🌤
Gosto imenso de Vergílio Ferreira.
Boa tarde!
Gracias, María y Manuela.
Adoro Montaigne e o seu xenio. Emerson dicía del: Corta esas palabras e sangrarán; son vasculares e vivenciais.
Bom domingo!
Também gosto muito de Montaigne. Não conhecia esse dito de Emerson, muito bem visto.
Bom domingo para os dois.
Ainda na sequência das merecidas referências de MARIA e MR aos velozes 30 anos do falecimento de VERGÍLIO FERREIRA (Melo, Gouveia, 28.1.1916 - Lisboa, 1.3.1996), creio ser oportuno recordar a longa e saudável Amizade e troca de correspondência entre o Autor de Obras tão marcantes como "Aparição", "Manhã Submersa" e "Para Sempre" e EDUARDO LOURENÇO (cf., por ex., a missiva do saudoso ensaísta, de 20.6.1955, publicada no próprio "JL", de 6.1.2016)...
Ao mesmo tempo, é digna de registo a reconhecida qualidade da memorável adaptação (1980) de "Manhã Submersa" ao Cinema, por LAURO ANTÓNIO. Até que ponto este filme contribuiu para a divulgação do célebre livro homónimo?!...
É neste contexto que me lembro da análise cuidada do Prof. ARNALDO SARAIVA ["VERGÍLIO FERREIRA, SEMINARISTA nos Seminários do Fundão e da Guarda", Porto, Editora Exclamação, 2017, pp. 50-51]:
"(...) O pároco [da sua Aldeia natal] António Parente escreveu em 1926 que Vergílio Ferreira devia 'trazer muito prestígio à Igreja', acrescentando com prudência: 'se se ordenar'. Não se ordenou, mas a sua experiência de seminarista permitiu-lhe escrever um romance ["Manhã Submersa"] que [a par da novela "Adolescente Agrilhoado", de José MARMELO E SILVA] prestou bons serviços à causa da educação em internatos e seminários portugueses, celebrizou o Seminário do Fundão - que por sinal fechou as suas portas em 2015, já depois de um escândalo que envolveu um seu vice-reitor - e, beneficiando sem dúvida da formação que aí recebeu, pôde produzir uma obra de inegável valor e prestígio cultural e literário."
Guardo para o fim uma telegráfica e inevitável menção ao simbólico Centenário do falecimento de CAMILO PESSANA (Coimbra, 7.9.1867 - Macau, 1.3.1926), cujo legado poético podemos, desde já, (re)apreciar nas páginas notáveis (e, no entanto, por vezes subestimadas) de "Clepsydra"...
Muito Boa Noite!
Quero muito ler a correspondência trocada entre EL e VF. Dará certamente mais de um volume. Quando sairá?
Boa semana!
A verdade é que, como se sabe - e está, aliás, bem patente numa página (172), muito elucidativa, do V Vol., "DA MÚSICA", das "Obas Completas" de EDUARDO LOURENÇO - com coordenação, Introdução e notas de Barbara ANIELLO, editado em 2019 pela Fundação C. Gulbenkian -, "existe uma intensa correspondência entre os dois intelectuais [EDUARDO LOURENÇO e VERGÍLIO FERREIRA] conservada na Biblioteca Nacional (...) e no Acervo de Eduardo Lourenço"; e, "entre 1955 e 1995, Eduardo Lourenço escreveu 256 cartas a Vergílio Ferreira"!...
Note-se, a propósito, a reconhecida espontaneidade do erudito ensaísta (p. 171, do referido volume): "(...) O meu amigo Vergílio não imaginava até que ponto tinha razão quando me julgava incapaz de 'falar de musica'. Mas também ignorava a que ponto essa 'música', de que não sabia falar, ou não podia falar, desde sempre 'me submergiu como o mar', como diria Baudelaire./ Na verdade, só os criadores e os intérpretes de génio (...) poderão falar dessas mágicas tapeçarias de sons onde a nossa temporalidade cruza e descruza os fios do tempo que a tecem e destecem./ É um milagre tão puro como o da invenção desses espaços de transparência e opacidade sonoras a que nós chamamos Bach, Mozart, Chopin".
Entretanto, talvez não seja despropositado lembrar aqui, apenas de passagem, um "pormenor" biográfico do talentoso e respeitado Actor RUY DE CARVALHO, que ontem celebrou o seu 99.º Aniversário. Sinceros parabéns!...
Agradeço e retribuo os votos de boa semana!
Obrigada pelas dicas.
Bom dia!
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