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domingo, 4 de agosto de 2013

À mesa com Afrânio Peixoto


«Vai-se à mesa. Cada qual toma o seu lugar, afasta o assento, e de pé, silencioso, queda-se, benze-se, e rende graças a quem nos dá esse «pão nosso de cada dia»... Isto feito, largas ao apetite. Não é a table d'hôte apressada. Nem os pratinhos magros e parcos, das minutas de restaurante, que não restauram coisa alguma... Senão fartos e multiplicados. Quando a gente supõe não poder mais, a iguaria que vem solicita a capacidade do ventre para nova concessão... Dez pratos, vinte sobremesas. Vinhos: uma gama riquíssima, que começa no aperitivo do Madeira, continua nos brancos dos peixes, segue nos tintos dos pratos de resistência, cepas velhas, rascantes, vivos, graves, indo aos espumantes, e acabando no Porto, que coroa a obra prima da refeição... «Quando finda, a gente levanta-se e, então, é que a bênção sobrevém, como se fora encanto espiritual a esse, de comunhão familiar: uns volvem para os outros, apertam-se efusivamente as mãos, 'boa tarde', ao almoço, 'boa noite', ao jantar, que enternecidamente se desejam os que celebraram este santo sacrifício quotidiano, com que Deus nos favorece...» 
Afrânio Peixoto 
In: Viagens na minha terra: Portugal. Lisboa; Porto: Livr. Lello & Irmão, 1938, vol. 1, p. 166

sábado, 3 de agosto de 2013

Afrânio Peixoto e a doçaria portuguesa


«Onde, porém, Portugal me extasia, é na delícia da sobremesa... (Sempre tive a ideia que é falta de gosto não começar as refeições pelos doces... Não se chegaria ao resto... tanto melhor!). Os doces portugueses, como tanta coisa aqui, são os melhores ou mais gostosos do mundo. Um clássico arroz doce, uma aletria de Abrantes, uma marmelada de Odivelas, uma tigelinha de Santo Tirso, uns ovos moles de Aveiro, um doce-podre de Évora, umas arrufadas de Coimbra, umas queijadas de Sintra, ou da Periquita, umas cavacas de Caldas, ou de Felgueiras, um morgado, ou um Dom Rodrigo do Algarve, maçapão de Portalegre, morcelas de Arouca, amêndoas de Moncorvo, pastéis de feijão de Torres Vedras... – que sei?! – não posso esquecer. Minha alma pia perdoa às boas freiras dos conventos portugueses, que inventaram e aperfeiçoaram tanto doce bom, de nome às vezes religioso. E o pão-de-ló? Felgueiras, Ovar, Fafe, Braga, Alfeizerão, Vouzela... não me deixeis em pecado de ingratidão! Às vezes sensuais, mas sempre de bom gosto, tais nomes... «toucinho-do-céu», 'papos-de-anjo', «palha-de-abade», «barriga-de-freira», 'casadinhos', – considere-se na forma desse doce – «fatias-de-parida», «levanta-velhos»... Esse capítulo daria um livro delicioso, se escrito por um sociólogo ou geógrafo de bom paladar.»
Afrânio Peixoto 
In: Viagens na minha terra: Portugal. Lisboa; Porto: Livr. Lello & Irmão, 1938, vol. 1, p. 165

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

1.ª Feira do Pastel de Chaves

«Nesta edição, pretende-se dar especial relevo ao Pastel de Chaves, cuja história remonta a 1862, quando uma vendedora, cuja origem se desconhece, percorria a cidade com uma cesta contendo uns pastéis de forma estranha e cuja quantidade não era suficiente para saciar os flavienses. Com tal escassez, e para satisfação da gula transmontana, a fundadora da Casa do Antigo Pasteleiro terá oferecido uma libra pela receita de tão gostosa iguaria. Perdurando na memória e no paladar, os pastéis acabaram por conquistar um lugar de destaque na gastronomia Nacional. Uma aposta que valeu o epíteto de “melhores pastéis folhados de Portugal”.»

O Pastel de Chaves é feito de uma finíssima massa folhada, recheada com picado de carne e chouriça transmontanas.

«Chaves tem porém uma celebridade mais modesta, mas que conta, a quem tem apetite: os pastéis de Chaves... Há uma geografia da Europa, e em França, e agora em Portugal, sou-lhe muito sensível... Não sei porque se há-de ter vergonha de falar em coisas de gosto, de bom gosto, que não sejam de olhos, ouvido, olfato, quando muito... Porque não, do paladar? O 'gosto' deu todas as artes. O 'sabor' deu todas as ciências... porque, pois, a hipocrisia de não falar do que bem sabe, do que tem bom gosto? O presunto de Chaves é tão famoso como o de Lamego. Os pastéis de carne não têm aqui rivais. Um gaspacho ou um cozido, ou os dois, em Trás-os-Montes, vencem a serra. Um folar ou uma tabafeia, de Bragança, nutrem por uma semana. Um leitão ou cabrito daqui, assados ao espeto, são gloriosos. Uma açorda, comida em tarro de cortiça, por manhã fria, num campo do Alentejo, não se esquece mais... Ainda a canja aristocrática, com as grandes moedas de oiro, de enxúndia, a sobrenadarem, comeria a vida inteira, para contradizer a anedota picaresca de el-rei ao confessor: 'nem sempre galinha, nem sempre rainha'... Tenho o estômago fiel e grato. Sarapatel ou cabidela têm cabimento. Na geografia gastronómica de Portugal sou eclético e gosto de tudo. (Aliás estou preparado, por nascimento na Baía,– a mais portuguesa das terras do Brasil- filha mais velha e mais amorosa... – onde se come mais, e melhor, que em todo o resto do país – come-se intelectualmente, come-se pecadoramente...)» 
Afrânio Peixoto
In: Viagens na minha terra: Portugal. Lisboa; Porto: Livr. Lello & Irmão, 1938, vol. 1, p. 163, 165

Havemos de voltar a este livro de Afrânio Peixoto.