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sábado, 3 de maio de 2014

"Odisseia do Direito"

Jacobello del Fiore, Justiça entre os Arcanjos Miguel e Gabriel,
Academia de Veneza (WikimediaCommons)
File:Jacobello Del Fiore - Justice between the Archangels Michael and Gabriel - WGA11888.jpg

(...) também na Odisseia do Direito estava tudo a flutuar no rio: os objectivos do Direito, os seus sobressaltos e declínios, o bom e o mau, o racional e o irracional, a verdade e a mentira. Na Odisseia do Direito, a única coisa que resta são as grandezas abstractas Justiça e Injustiça - e a verdade é que é necessário tomar decisões continuamente.

Bernhard Schlink, O Regresso. (Tradução de Fátima Freire de Andrade). Porto: Asa, 2008, p. 248.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Leituras em dia...

Ando a ler o livro de Schlink: O Regresso tal como O Leitor (do mesmo autor)é um livro interessante que nos faz pensar. Nele encontrei a referência de Arvo Pärt que deixo para homenagear o Dia Mundial da Voz, já referido por MR.
Cortesia do Google

Nele encontrei a referência Arvo Pärt

sexta-feira, 6 de março de 2009

O Leitor - 1


«Hanna? A mulher sentada no banco era a Hanna? Cabelos grisalhos, um rosto com profundos sulcos verticais na testa, nas faces, á volta da boca, e um corpo pesado. Trazia um tenso vestido azul claro, demasiado apertado no peito, barriga e ancas. As mãos estavam pousadas no colo e seguravam um livro. Não estava a ler. Observara, por cima dos seus óculos de ler, uma mulher que deitava migalhas de pão a alguns pardais. Depois, notou que estava a ser observada e virou a cara para mim.
«Vi a expectativa no seu rosto, vi-o resplandecer de alegria ao reconhecer-me, vi os seus olhos percorrerem o meu rosto ao aproximar-me, vi os seus olhos procurarem, perguntarem, ficarem inseguros, e vi apagar-se o resplendor no seu rosto. Quando cheguei perto dela, fez um sorriso amável, cansado. – Cresceste, miúdo. – Sentei-me ao seu lado e ela agarrou-me na mão.
«Antigamente eu gostava muito do seu cheiro. Cheirava sempre a fresco: a lavada de fresco ou a roupa lavada de fresco ou a suor fresco. Por vezes punha perfume, não sei qual, e também esse aroma era como tudo o resto: fresco. Debaixo desse aroma fresco havia ainda um outro, um cheiro mais denso, mais obscuro, áspero. Muitas vezes a farejei como um animal curioso, começava no pescoço e nos ombros, que cheiravam a acabados de lavar, sorvia o cheiro fresco a suor entre os seios, que se misturava nos sovacos com o outro cheiro, encontrava esse outro cheiro, denso e obscuro, quase puro, na cintura e na barriga e num colorido aromático entre as pernas, que me excitava; também cheirava as suas pernas e os seus pés […].
«Agora, estava sentado ao lado de Hanna e cheirava-me a velha. Não sei de onde vem esse cheiro que conheço de avós e de velhas tias e que paira como uma maldição nos quartos e corredores dos asilos de idosos. A Hanna era demasiado nova para ele. [...]
«Tinha-me reecontrado com a Hanna estava ela sentada num banco, e era uma velha. Tinha o aspecto de uma velha e cheirava a velha. Não tomara atenção à sua voz. A voz continuava muito jovem.»
Bernhard Schlink
In: O leitor. 5.ª ed. Porto: Asa, 2009, p. 128-129, 133

Acabei de ler o livro hoje. Tem sido a minha leitura de metro nos últimos dias. Até hoje, o filme agradava-me mais, pela sua subtileza. Mas as últimas 20 páginas do livro são comoventes - abalaram-me mais que o filme. E o filme mexeu comigo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"O Leitor" de Bernhard Schlink!

"A questão era: bastará que o artigo (segundo o qual os guardas e os esbirros dos campos de concentração são condenados) já estivesse inscrito no Código Penal no momento dos seus actos? Ou interessa também o modo como este era interpretado e usado naquele tempo, e, nesse caso, esse artigo não lhes era aplicado? O que é a justiça? É o que está escrito nos códigos, ou aquilo que é verdadeiramente aplicado e seguido na sociedade? Ou a justiça é aquilo que, independentemente de estar ou não estar escrito nos livros, deveria ser aplicado e seguido se todos fizéssemos o que está certo?"

A justiça é, na minha opinião, o que torna a nossa sociedade civilizada, é, ou deveria ser a súmula da moral e ética de um país, é o resultado das acções humanas intelectualizadas e objectivadas para regular o comportamento humano e preservar a democracia. Muito mais poder-se-ia dizer da justiça mas vou ficar por aqui. No entanto este livro: "O Leitor" leva-me a enunciar as seguintes questões:

O que é a justiça?
Como se pode julgar o passado?
Quem é que deve ser julgado?

Para lá da justiça, este livro leva-nos ao relacionamento humano que é um labirinto inexplicável. Procurava respostas mas não as encontro... Michael Berg não foi feliz, viveu num mundo criado pelas memórias e pelos livros.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O leitor: o livro, o filme

Em Maio do ano passado, tive a oportunidade de dedicar algumas linhas ao bestseller "O leitor" (Der Vorleser) de Bernhard Schlink. O livro, entretanto traduzido em quarenta idiomas, entre eles, em português e editado pela ASA Editores, é hoje em dia uma referência na literatura alemã do pós-guerra.

O protagonista Michael Berg tem quinze anos quando conhece Hanna Schmitz, uma mulher de 36 anos, bela, sensual e misteriosa. A narrativa decorre na Alemanha, na década de 50. Michael vive as primeiras experiências amorosas com Hanna até que esta, subitamente, desaparece da sua vida. Passados alguns anos, Michael, estudante de Direito, reencontra Hanna num processo de acusação a ex-guardas de campos de concentração. "Inicia-se então uma reflexão metódica e dolorosa sobre a legitimidade de uma geração, a braços com a vergonha" (ASA Editores, primeira edição de Dezembro de 1998).

Pode e deve a geração dos anos 60 julgar a geração dos seus pais pelos crimes ocorridos entre 1933 - 45? O confronto político e social com os acontecimentos deste período começa na segunda metade dos anos 60 e é um dos motivos principais para as revoltas estudantis do Maio de '68.
O livro, por sua vez, segue esta reflexão de forma clara, acompanhada de uma sensibilidade extraordinária do autor, sem nunca correr risco de mistificar ou aligeirar os horrores cometidos.

Desde quinta-feira passada, está em cartaz o filme The Reader do realizador Stephen Daldry (The hours) na produção de Sydney Pollack e Anthony Minghella, infelizmente falecido em 2008. Os papéis principais estão a cargo de Kate Winslet e Ralph Fiennes, o jovem Michael é interpretado pelo actor alemão David Kross.

Raras são as adaptações cinematográficas bem sucedidas que têm uma obra literária por base. A meu ver, The Reader resultou, e muito bem. À excepção de pequenos pormenores, o argumento segue de forma fidedigna a narrativa do livro. Graças à realização e ao desempenho excelente dos actores (Winslet e Kross em especial), é omnipresente a essência deste livro em toda a película: o que é dito, mas, sobretudo, o que resta dizer entre Hanna e Michael, expressa a essência desta história: um relacionamento invulgar que marca profundamente a vida dos dois protagonistas. A condenação moral de Hanna, facto incontestável e necessário, mistura-se com a análise dos sentimentos e dos motivos que levam esta mulher a actuar num passado obscuro, num presente misterioso e num futuro em aberto. Michael representa, ora o espelho moral da História, ora o simples ser humano que nos ajuda a descobrir Hanna.

The Reader retrata a Alemanha dos anos cinquenta, em que os acontecimentos do período mais negro são abafados sob a aura da recuperação económica, para depois nos conduzir a meados dos anos sessenta, quando o confronto com a História é inevitável num ambiente de contestação estudantil crescente. O encontro entre Hanna e Michael em 1958 decorre num contexto não político, quase idílico nalgumas passagens, mas sempre sob a suspeita de haver algo por explicar e desvendar. O reencontro entre Hanna e Michael em 1966 dá-se num ambiente politicamente explosivo e culmina num julgamento. No entanto, o mistério chamado Hanna continua.


Cenários e guarda-roupa contribuem para este retrato bem conseguido. Os intérpretes secundários são maioritariamente alemães e falam, no entanto, em inglês. Kate Winslet, exemplo invejável da espécie humana que domina o inglês very british, introduz um sotaque genuinamente alemão no seu desempenho. Espantoso!

E a propósito de Kate Winslet: a qualidade do filme deve-se sobretudo à magnífica interpretação desta actriz. O papel difícil de Hanna não poderia ter um melhor desempenho. Neste ponto, estou de acordo com a crítica do Expresso de Vasco Baptista Marques, pouco benevolente quanto ao filme: "Para a posteridade ficará, ..., a interpretação de Kate Winslet que, ou muito me engano ou pode já começar a arranjar espaço nas estantes lá de casa para o Óscar" .

domingo, 11 de maio de 2008

"O LEITOR" DE BERNHARD SCHLINK


No rol das publicações recentes da editora suíça Diogenes, encontra-se o novo livro de Bernhard Schlink, Das Wochenende (O fim de semana). Neste romance, somos confrontados com um ex-terrorista da Rote Armee Fraktion (brigadas vermelhas alemãs) que, após vinte anos de prisão, encontra seus amigos durante um fim de semana.Teremos de esperar algum tempo pela tradução do livro para português.

Bernhard Schlink, nascido em Bielefeld (Alemanha) em 1944 e jurista de formação, tornou-se conhecido do público internacional em 1995 com o seu romance Der Vorleser (O leitor). O livro foi entretanto traduzido em quarenta idiomas, entre eles em português e editado pela ASA Editores em 1998. De leitura obrigatória em muitos liceus alemães juntamente com os clássicos de Goethe, Schiller ou Lessing, representa a obra literária alemã mais vendida das últimas décadas depois de O Perfume de Patrick Süskind. Os respectivos direitos para o cinema foram adquiridos por uma das grandes produtoras de Hollywood.

O protagonista Michael Berg tem quinze anos quando conhece Hanna Schmitz, uma mulher de 36 anos, bela, sensual e misteriosa. Estamos na Alemanha, na década de 50. Michael vive as primeiras experiências amorosas com Hanna até que esta, subitamente, desaparece da sua vida. Passados alguns anos, Michael, estudante de Direito, reencontra Hanna num processo de acusação a ex-guardas de campos de concentração. "Inicia-se então uma reflexão metódica e dolorosa sobre a legitimidade de uma geração, a braços com a vergonha" (ASA Editores, primeira edição de Dezembro de 1998). Pode e deve a geração dos anos 60 julgar a geração dos seus pais pelos crimes ocorridos entre 1933 - 45? O confronto político e social com os acontecimentos deste período começa na segunda metade dos anos 60 e é um dos motivos principais para as revoltas estudantis do Maio de '68 na Alemanha de que tanto se fala nestes dias.

O livro, por sua vez, segue esta reflexão de forma clara, acompanhada de uma sensibilidade extraordinária do autor, sem nunca correr risco de mistificar ou aligeirar os horrores cometidos.

Quanto ao filme: está a ser realizado por Stephen Daldry. Anthony Minghella participava neste projecto até ao seu falecimento recente. Os papéis principais estão a cargo de Ralph Fiennes e Kate Winslet que substitui Nicole Kidman (renunciou ao papel dada a sua gravidez). O jovem Michael será interpretado pelo promissor actor alemão David Kross.