“Num artigo amplamente divulgado, Manuel Maria Carrilho ataca a política cultural do actual Governo, pondo ênfase no que considera serem as duas prioridades:”Um orçamento capaz” e “uma administração eficaz”. Independentemente do que se possa pensar do que foi a sua actuação como Ministro da Cultura do 1º Governo de Guterres, esta avaliação das políticas da Cultura está claramente desfocada.
…Sempre defendi que uma política de Cultura séria devia centrar-se na formação de uma massa crítica de consumidores informados e com espírito crítico, atendendo a que o nosso défice não é de artistas mas de leitores, espectadores e ouvintes…E como os artistas têm um acesso privilegiado aos media e nenhum PM quer compara uma guerra na Cultura, nenhuma reformo estrutural é feita porque ninguém quer tocar nos direitos adquiridos. E o público, que devia ser o primeiro consultado e o primeiro beneficiário das políticas da cultura, sente-se cada vez mais afastado das obras que o Estado subsidia, cuja pertinência e qualidade ninguém escrutina, a não ser meia dúzia de críticos dos jornais que os políticos lêem….
…Ninguém se lembraria de propor que o objecto da política da Saúde sejam os médicos em vez dos doentes….Porque não alargar a ideia de ‘utente’ à área da Cultura?”
António - Pedro Vasconcelos
semanário "Sol", 27.3.2009
Há muito que defendo, e já o escrevi, que a política cultural do Estado está errada e padece, como muitos outros sectores, de uma concepção de Estado interventor por via do subsídio, que cria fidelidades e conivências. Há muito que defendo que a principal política do Estado na área da Cultura, deve ser na preservação do património histórico e artístico, no apoio à formação de pessoas com potencialidades em vários domínios da criação, nomeadamente através de bolsas de estudo - escrutinadas por pessoas independentes do poder político - e no apoio aos artistas já afirmados pelas suas obras, através da aquisição dessas obras ou da sua difusão junto do público.
Subsidiar artistas plásticos, escritores, compositores, companhias de teatro ou realizadores de cinema para produzirem obras, com critérios mais ou menos obscuros, que a maioria não aprecia, a ninguém interessa ler ou ouvir ou revelam salas de espectáculo às moscas, é criar uma falsa ideia de cultura de que o público se arreda e que não resistirá à passagem do tempo.
É uma opinião, evidentemente.