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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Contos de Orkény - 10

QUEM A VIU ?

Fehér Kálmánné, nome de solteira Mária Flugl, 41 anos de idade, moradora em Budapeste, foi ao cinema no dia 7 do mês corrente, às cinco e meia da tarde, e desde então não voltou para casa. As suas características: tem estatura alta, ou antes, é baixa com tendência para engordar, ou melhor, é muito magra. Os olhos são azuis, aliás esverdeados, talvez pretos.
A cor de cabelos é incerta. O seu casaco de Inverno é azul-escuro, ou melhor, castanho-ferrugem, mas também é capaz de ser cinzento, com a gola bordada a pele. ( Mais exactamente: não é pele, mas veludo ou não tem nenhuma gola bordada. ).
A sua característica particular é : mulher.
À espera do aviso urgente do achador.

- O marido ansioso.


- István Orkény, Histórias de 1 minuto, vol.1, Cavalo de Ferro, 2004.

domingo, 6 de setembro de 2009

Contos de Orkény - 9

MAL- ENTENDIDO HISTÓRICO

- Allô! Moloko?
- Como?
- Moloko?
- Vu paruszki gavaritye? (1)
- Não percebo o que está a dizer.
- E a senhora o que está a dizer?
- Pergunto pelo meu genro.
- Então porque é que disse «moloko» ?
- Por que não devia ter dito?
- Porque isso em russo significa «leite».
- Mas é assim que eu chamo ao meu genro.
- Não sou eu.
- Mas eu marquei o número correcto.
- Então há aqui alguma coisa que não bate certo, minha senhora.


(1) Em russo : « Fala russo? »

- István Orkény, Histórias de 1 minuto, vol.1, Introd., selec. e trad. do húngaro de Piroska Felkai, Cavalo de Ferro Editores, 2004.

sábado, 5 de setembro de 2009

Contos de Orkény - 8

- Fotografia de Euromedbeer.

INFORMAÇÃO

Há já catorze anos que está sentado à entrada de um postigo. As pessoas só lhe dirigem dois tipos de perguntas.
- Onde ficam os escritórios da Montex?
Ele responde:
- Primeiro andar, à esquerda.
A segunda pergunta é:
- Onde fica a Empresa Transformadora dos Desperdícios de Resinas?
A esta ele responde:
- Segundo andar, segunda porta à direita.
Há catorze anos que nunca se engana, toda a gente tem recebido a informação correcta. Uma vez, porém, aconteceu que uma senhora se dirigiu ao seu postigo e lhe fez uma das perguntas habituais:
-Pode fazer o favor de me dizer onde é a Montex?
E ele, nessa única vez, alongou os olhos e disse assim:
- Todos nós vimos do nada e à merda do nada vamos voltar.
A senhora apresentou queixa. A queixa foi examinada, discutida e depois arquivada.
E de facto, não era assim tão grave.


- István Orkény, Histórias de 1 minuto, vol.1, Introd., selec. e trad. do húngaro de Piroska Felkai, Cavalo de Ferro, 2004.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Contos de Orkény - 7

QUEM É O ASSASSINO?

O juiz que costumava julgar os processos-crime, disparou contra um corço no território grande da reserva. Depois de ter dado o tiro de misericórdia, disse assim:
- A caça é a paixão mais nobre.
O procurador fazia colecção de borboletas. Furava com um alfinete os seus abdómens e, quando já estavam mortas de asas abertas, pensava:
- Assim é a sede de saber.
Quem escreve estas linhas e também a reportagem sobre um assunto de crime, é um adepto entusiástico do pólo aquático. Se algum jogador da sua equipa dá um pontapé no estômago do adversário, ainda o encoraja da tribuna.
- O pólo aquático é um desporto duro- costuma dizer-se.
E o que é que disse o assassino?
Não esteve com rodeios. Confessou, compungidamente, ter morto a mulher que o tinha traído com toda a gente, impelido a sua filha à desmoralização, arruinado a família inteira. Disse desanimado:
- Sou um assassino.
Foi enforcado.


- István Orkény, Histórias de 1 minuto, vol.1, Introdução, selecção e tradução do húngaro de Piroska Felkai, Cavalo de Ferro, 2004.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Contos de Orkény - 6

7. TUDO É PERMITIDO

"Uma senhora com cerca de quarenta anos, bem vestida e penteada, está sentada com as pernas cruzadas no lado esquerdo da entrada do hotel de luxo, que se chama Plaza.
Tem uma mala enorme com fecho éclair à sua frente, donde começa sair lenta e majestosamente uma anaconda. A anaconda é bem comportada, o seu comprimento pode atingir os cinco ou seis metros. Serpenteia de um lado para o outro, no passeio, não incomoda os peões na circulação. Ninguém olha para ela.
Só eu páro à sua frente, com a minha atitude cartesiana, procurando sempre a ordem e a lógica nas coisas, com um disciplinado olhar europeu. Reflicto: ela está a pedir dinheiro ou não? Passo por cima da anaconda e dou uma moeda de dez cêntimos à mulher. Ela recusa o dinheiro.
-Lá em casa fica tão aborrecida- explica a mulher. - Aqui pelo menos há um pouco de circulação."

- Istvan Orkény, in Notas dos Estados Unidos, Histórias de 1 minuto, vol.1, Introdução, selecção e tradução de Piroska Felkai, Cavalo de Ferro, 2004.

sábado, 30 de agosto de 2008

Contos de Orkény - 3

ITÁLIA


Depois de ter dirigido o Baile de Máscaras, o maestro italiano lançou-se na noite de Budapeste. Pela madrugada, convidou para a sua mesa uma senhora com quem já tinha dançado várias vezes.
O artista estrangeiro, com a ajuda de um intérprete, cortejou-a durante algum tempo, depois tirou a carteira do bolso e, pondo a mão em cima dela, olhou para o tradutor na expectativa.
Este trocou algumas palavras com a senhora.
- Cinquecento- disse a seguir ao maestro.
- Trecento- disse o visitante, porque achava cara a quantia.
- Quattrocento- sugeriu finalmente o intérprete.
E assim ficou combinado.


- ob. cit.

domingo, 17 de agosto de 2008

Contos de Orkény - 1

Só muito recentemente descobri o grande escritor húngaro István Orkény (1912-1979), e os seus Contos de 1 minuto, que achei fascinantes desde logo por obedecerem a uma temática geral que muito me interessa : o absurdo ou o grotesco a irromperem pela banalidade do quotidiano e inesperadamente interrompendo esta.
Sobre este tema geral ouçamos o tradutor para português, Piroska Felkai: " O narrador procura levar o leitor a pensar, a reparar na vida quotidiana, nas coisas banais, e a encontrar um sentido escondido nos fenómenos insignificantes. As situações de partida são acontecimentos típicos da vida, mas nelas os factos deslocam-se.(...) As situações que aparecem nestas obras são uma distorção tragicómica da realidade humana, um mundo em que as pessoas vivem em níveis de vida indignos, descrições da solidão, da velhice, da loucura, da morte, e uma evocação de temas históricos misturados com humor negro (...) "
Aqui fica o primeiro dos contos que escolhi :


A MORTE DO ACTOR


O popular actor Zoltán Zetelaki caiu desmaiado hoje à tarde numa travessa da Avenida Ulloi.
Foi levado pelos transeuntes à clínica mais próxima, onde se revelaram vãs todas as tentativas de reanimação, mesmo com as mais recentes conquistas científicas, tipo o pulmão de aço. O ilustre actor faleceu às sete e meia da tarde, depois de uma agonia prolongada: os seus restos mortais deram entrada no Instituto de Medicina Legal.
A despeito deste acontecimento trágico, a sessão da noite do Rei Lear decorreu sem problemas .
Embora um pouco atrasado e notoriamente cansado no primeiro acto ( teve de recorrer ao ponto várias vezes ) , Zetelaki retomou gradualmente o seu brilho próprio e conseguiu interpretar a morte do rei com tanta convicção que o público lhe ofereceu uma salva de aplausos.
Depois foi convidado para um jantar, mas recusou dizendo:
- Hoje tive um dia difícil.



- István Orkény, Histórias de 1 minuto, vol.1, Introdução, selecção e tradução do húngaro de Piroska Felkai, Cavalo de Ferro Editores, 2ª tiragem, Novembro de 2004, 23.