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sábado, 11 de janeiro de 2014

Al Berto

Fra Angélico, Anunciação (daqui
The Annunciation (Convent of San Marco, Florence)
A Andorinha e Fra Angélico

a cor faz-se luz
dimana o esquemático desenho candura e
recolhida entre dois arcos está a virgem -- ao fundo
a sala adivinha-se vazia -- sob a abóbada
onde ínfimos astros cintilam veio o anjo
com seu esplendor de asas em ouro trazer
o doce recado: hás-de conceber e dar à luz um filho
que reinará eternamente sob a casa de jacob

angélico estremeceu com a inesperada revelação e
na cela retirado deu vida às celestiais criaturas
mas só ele e a andorinha ouviram o segredo
que deus mandara gabriel anunciar

Al Berto, Medo, retirado do Banco de Poesia da Casa Fernando Pessoa

Al Berto nasceu a 11 de Janeiro de 1948, em Coimbra, e faleceu em Lisboa a 13 de Junho de 1997.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Al Berto - Livro Antigo


Livro Antigo 

violetas secas entre páginas de livros onde em tempos anunciaram o amargor da noite e a humidade tremenda das insónias

o mar
o mar ao longe


debruça-se então para o interior do livro
lê qualquer coisa sobre o coração dos líquenes
ou deambula de sílaba em sílaba onde
os dedos se mancham de tinta e no cérebro
ergue-se uma planta de cinza noite adiante


fechou o livro ao amanhecer
era como se tivesse envelhecido séculos
com as violetas
fecha a persiana e adormece

Al Berto, O MedoLisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005.


Missal Rico, Fl. II, 2º Domingo do Advento, Introito, Biblioteca Pública e Municipal do Porto,  imagem retirada da revista Oceanos, A Luz do Mundo, Iluminura Portuguesa Quinhentista, nº 26 Abril/Junho 1996, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. 
A fotografia da revista é de Laura Castro Caldas e Paulo Cintra

quinta-feira, 4 de junho de 2009

CORPO

corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo


Al Berto