«Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida», poema dito por al berto, com música de Francisco Ribeiro.
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terça-feira, 13 de junho de 2023
sábado, 11 de janeiro de 2014
Al Berto
Fra Angélico, Anunciação (daqui)
a cor faz-se luz
dimana o esquemático desenho candura e
recolhida entre dois arcos está a virgem -- ao fundo
a sala adivinha-se vazia -- sob a abóbada
onde ínfimos astros cintilam veio o anjo
com seu esplendor de asas em ouro trazer
o doce recado: hás-de conceber e dar à luz um filho
que reinará eternamente sob a casa de jacob
angélico estremeceu com a inesperada revelação e
na cela retirado deu vida às celestiais criaturas
mas só ele e a andorinha ouviram o segredo
que deus mandara gabriel anunciar
Al Berto, Medo, retirado do Banco de Poesia da Casa Fernando Pessoa
Al Berto nasceu a 11 de Janeiro de 1948, em Coimbra, e faleceu em Lisboa a 13 de Junho de 1997.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Al Berto - Livro Antigo
Livro Antigo
violetas secas entre páginas de livros onde em tempos anunciaram o amargor da noite e a humidade tremenda das insónias
o mar
o mar ao longe
debruça-se então para o interior do livro
lê qualquer coisa sobre o coração dos líquenes
ou deambula de sílaba em sílaba onde
os dedos se mancham de tinta e no cérebro
ergue-se uma planta de cinza noite adiante
fechou o livro ao amanhecer
era como se tivesse envelhecido séculos
com as violetas
fecha a persiana e adormece
Al Berto, O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005.
Missal Rico, Fl. II, 2º Domingo do Advento, Introito, Biblioteca Pública e Municipal do Porto, imagem retirada da revista Oceanos, A Luz do Mundo, Iluminura Portuguesa Quinhentista, nº 26 Abril/Junho 1996, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.
A fotografia da revista é de Laura Castro Caldas e Paulo Cintra
quinta-feira, 4 de junho de 2009
CORPO
corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
Al Berto
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
Al Berto
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