«O Surreal é do Poeta de todos os tempos, de todos os grandes poetas.»
António Maria Lisboa carta a Mário Cesariny, reproduzida em Poesia,
org. de Mário Cesariny, Assírio & Alvim, 2022.
(A edição inclui um conjunto de cartas de António Maria Lisboa dirigidas a Mário Cesariny.)
(António Maria Lisboa fotografado por Artur Cruzeiro Seixas, nos anos 50)
IN MEMORIAM
António Maria Lisboa foi uma das figuras marcantes do surrealismo português. Nasceu em Lisboa a 1 de agosto de 1928, integrou, no final da década de 1940, o grupo de jovens escritores que procurava renovar profundamente a literatura portuguesa. Para António Maria Lisboa, a poesia era uma forma de liberdade. Tal como os surrealistas, acreditava que a criação artística devia romper com as regras e revelar a dimensão mais profunda do ser humano. No entanto, recusava limitar a poesia a um movimento ou a uma escola. Defendia que o «surreal» pertence a todos os grandes poetas, independentemente da época em que viveram, porque nasce da liberdade criadora e da capacidade de ultrapassar os limites da realidade. Apesar de ter vivido apenas 25 anos (m.1953), deixou uma obra original que continua a despertar o interesse de leitores e estudiosos.
Para o A. Cruzeiro Seixas
A construção dos poemas é uma vela aberta ao meio
e coberta de bolor
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente
fino
Como Uma Agulha
A construção dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS
é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto
ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente
NUM TÚMULO EXAUSTIVO.
António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas",
https://www.citador.pt/poemas/conjugacao-antonio-maria-lisboa

5 comentários:
Gosto muito de AML e já há uns tempos que não o leio. Vou fazê-lo hoje. Obrigada.
Bom fim de semana!
Bom fim de semana! :))
Gracias por darmo a coñecer. Gústame. Recórdame a Manuel Antonio, poeta galego, morto tamén moi novo, con 29 anos.
Apertas.
Obigada, Justa. Também não conhecia esse poeta galego, vou procurar.
Boa semana!
Para Justa com agradecimento:
INTENCIÓNS.
Encheremol-as velas
c'a luz náufraga d'a madrugada
...Pendurando en dous puntos cardinaes
a randeeira esguía
d'o pailebote branco
....................C'as suas mans loiras
....................acenan mil adeuses as estrelas
...Inventaremos frustradas descobertas
...a barlovento d'os horizontes
...pra acelerar os abolidos corazóns
d'os nosos veleiros defraudados
...Halaremos pol-o chicote
d'un meridián innumerado
...N'a illa anónima
de cada singladura
esculcaremos o remorso d'a cidade
.........Ela noitámbula desfollará
.........como unha margarida prostibularia
.........a Rosa d'os Ventos d'o noso corazón
...Encadearemos adeuses d'escuma
pra todal-as praias perdidas
...Xuntaremos cadernos en branco
d'a novela errante d'o vento
...Pescaremos n-a rede d'os atlas
ronseles de Simbad
...E cazaremol-a vela
sobre o torso rebelde d'as tormentas
pra trincar a escota d'unha ilusión.
https://www.ogalego.gal/exercicios_de_lingua/de4a4/1.htm
Enviar um comentário