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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Dia Mundial do Doente

Neste Dia Mundial do Doente, um quadro ( A criança doente, de Edvard Munch, 1907, óleo sobre tela, sendo que esta tela da Tate Gallery de Londres é a quarta variação sobre o mesmo tema. A inspiração foi a irmã mais velha e preferida de Munch, Sophie, que faleceu aos 15 anos vítima de tuberculose. ) e um texto:

(...) O que aprende o doente com a dor, com o medo? A grande dificuldade para aquele que está doente e que sofre, é não estar autorizado a ser ferido por si próprio- e só esta afecção o poderá aliviar-, i.e., a sonhar, a ter visões, a evadir-se: os tratamentos quase sempre não o permitem. Na verdade, a cura só pode vir do som da voz e não do sentido da voz. Essa voz terá de saber, e fazer ressoar em si, que estar doente é uma das iniciações mais decisivas e terríveis à nossa vida, conhecer o que é perder o seu sangue, sem conhecer a causa, não no sentido da etiologia mas do estandarte que está em jogo, sacrifício que põe à prova e prova que qualquer um só se pertence a si próprio, que o homem por essência pertence-se.
Rainer Maria Rilke pede-nos que aceitemos que a dor é o nosso fundo, a nossa paisagem. Quando se sente o fundo que é a dor, diz ele, então os homens sentam-se diante dela, ela que está atrás deles, as estrelas caem e demoram-se no silêncio. A dor, o fundo que é a dor, murmura, rumoreja por cima deles como uma floresta. E eles estão perto uns dos outros como nunca estiveram. A dor é nosso fundo, é ela que nos obriga a procurar auxílio, a caminhar ao lado de alguém (...)

- Maria Filomena Molder, Princípios de Método. 4, in A Imperfeição da Filosofia, Relógio D'Água, 2003.

sábado, 8 de novembro de 2008

A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA - 5

" (...) É neste sentido que não se pode confundir uma experiência autêntica com aquisição informativa. Valoriza-se, então, o imediato, o contacto de onde nasce a expressão, considerando a multiplicação de intermediários como sinal de endurecimento, de esclerose, de insensibilidade, numa época em que as mediações progridem na sua vigência universal, multiplicando-se e dissimulando-se sob as imagens da imediatez, como sempre os espectros, enviados da morte, fizeram por relação à vida. Hofmannsthal, como Goethe, um século antes, exige que se reconheça de novo ao espírito o direito de se colocar imediatamente diante das coisas.
Sendo assim, trata-se de fazer a apologia do «estar de fora» , da «inactualidade» , sem permitir que a resistência ao presente seja convertida em propósito nihilista ou em solipsismo auto-suficiente. Isso parece-me ser próprio daquele que se dedica à filosofia: distanciar-se, procurar por si próprio, tentar desvendar os enigmas que encontra. Aqui, o perigo reside em embriagar-se com esse distanciamento e conhecer apenas a forma heróica dolorosa, que é reconhecível em Platão, mas que só em Nietzsche encontrou o único representante fiel. Para vencer esse perigo, teremos , então, de chamar em nosso auxílio a mais antiga tentativa de superação dessa procura solitária: a experiência do eros. "

- Maria Filomena Molder, Apologia da inadaptação-5, in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA, Relógio D'Água Editores, 2003.

domingo, 2 de novembro de 2008

A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA - 4

"(...) Haverá algum antídoto contra a dor e a morte? Nenhuma teoria, nenhuma construção, nenhum modelo, permitirão vislumbrá-lo, só no modo como cada um vê a vida, no aspecto que a vida tem, nas escolha das imagens em que a vida se recolhe, esse antídoto poderá encontrar asilo. O que são essas imagens? Experiências da nossa vida que se coagulam em visões e figuras, e tendem a fixar-se em conceitos: viagem, deserto, jardim, casa, sonho, sede, prisão, jogo, máscara. Cada uma dessas imagens é uma lâmina de dois gumes, que exprime dois sentimentos cujo litígio, insondável, não conhece termo: aceitar a vida e recusar a vida, e à sombra disto aparecem o dom, a dívida, o pagamento da dívida, o equilíbrio, a justiça, o sacrifício, o rito que o repete, a história que contamos acerca da nossa vida: salvar-se, perder-se, ressuscitar, renascer. E também aparecem os conceitos de indivíduo, de eu, de isto, de centro, de si próprio. O que é que se encontra quando procuramos por nós próprios? O mistério e o enigma, o oculto e o manifesto, a ultrapassagem dos limites e a adaptação aos limites. Os deuses e a aparência: alegria, jogo, dizer sim, exercitar-se na morte, o exemplo de Montaigne.
Diz Epicuro: a morte não nos diz respeito, uma vez que, enquanto formos, ela não é, e logo que ela entra em cena, nós já não estamos. Declaração que é para sempre válida e, no entanto, como tão bem nos mostrou Jean Amery, ele de novo, absolutamente oca para aquele que tem de se haver com a morte. Trata-se, como em tantos casos gritantes, de uma falsa evidência. (...) "

- Maria Filomena Molder, Princípios de método-5, in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA,
Relógio D'Água Editores, 2003.

Dedicado a J., numa ocasião que é a que mais temo e mais quero ver adiada.