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domingo, 27 de julho de 2025

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Bacio - 124


«única alegria do mundo é comunicar. É bom viver porque viver é comunicar a cada momento.»
Cesare Pavese

domingo, 26 de agosto de 2012

A praia: livros - 1

Na montra da Livraria Multinova (Av. Santa Joana a Princesa, em Lisboa).

Quando vi esta banhista, achei que poderia aqui trazer uns livros com a palavra praia no título. Destes três, só li o de Pavese, mas o de Agatha Christie já vem a caminho.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A NOITE

Mas a noite ventosa, a noite límpida
que a lembrança somente aflorava, está longe,
é uma lembrança. Perdura uma calma de espanto,
feita também ela de folhas e de nada. Desse tempo
mais distante que as recordações apenas resta
um vago recordar.

xxxxxxxxxxÀs vezes volta à luz do dia,
na imóvel luz dos dias de Verão,
aquele espanto remoto.

xxxxxxxxxxPela janela vazia
o menino olhava a noite nas colinas
frescas e negras, e espantava-se de as ver assim tão juntas:
vaga e límpida imobilidade. Entre a folhagem
que sussurrava na escuridão, apareciam as colinas
onde todas as coisas do dia, as ladeiras
e as árvores e os vinhedos, eram nítidas e mortas
e a vida era outra, de vento, de céu,
e de folhas e de coisa nenhuma.

xxxxxxxxxxÀs vezes regressa
na imóvel calma do dia a recordação
daquele viver absorto, na luz assombrada.

Cesare Pavese
In: Trabalhar cansa / trad. Carlos Leite. Lisboa: Cotovia, 1997, p. 65

Para c.a., depois de ter lido outra «Noite» de Pavese n'A Casa Improvável.


Gorni Kramer (1913-1995) e a sua banda.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010


«Ninguém se mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmos na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada.»

Faz hoje 60 anos que Pavese se suicidou num quarto de hotel, em Turim.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

[O sonho] - 2


Henri Rousseau - O sonho, 1910
Nova Iorque, MoMA

23 de Julho
«Outra singularidade dos sonhos é que – a menos que sejam imediatamente apreendidos, repensados e revividos com intensidade – nunca mais nos lembramos deles. Um sonho é coisa ainda menos nossa do que uma narrativa escrita por outrem, porque ao escutarmos, nunca somos tão passivos como quando sonhamos. E, no netanto, é indubitável que somos nós que criamos os sonhos. Criar sem ter consciência disso, eis o que o sonho tem de estranho.»


Cesare Pavese
In: Ofício de viver: Diário (1935-1950) / trad. Alfredo Amorim. Lisboa: Portugália, 1968, p. 187

quinta-feira, 22 de julho de 2010

[O sonho] - 1


Pierre Puvis de Chavannes (1824-1898) - Le rêve
Óleo sobre tela, 1883
Paris, Musée d'Orsay

22 de Julho [1940]
Sonhar que, de regresso da prisão, ou do confino, chegamos a nossa casa, uma moradia, riquíssima, principesca, com salões e escadarias, e que aí encontramos os conhecidos da família, a quem somos apresentados, e esperamos depois, com enorme curiosidade, que entrem em cena os nossos pais, para ver como são, que tipos foram escolhidos para ti - é um outro caso de sonho feito como um romance que se lê sem se saber como acabará, isto é, em que leitor e protagonista coincidem.
O sonho é uma construção da inteligência, a que o construtor assiste sem saber como vai acabar.

Cesare Pavese
In: Ofício de viver: Diário (1935-1950) / trad. Alfredo Amorim.Lisboa: Portugália, p. 187

terça-feira, 29 de junho de 2010

[És como uma terra...]

És como uma terra
que nunca ninguém disse.
Não esperas nada
a não ser a palavra
que jorrará do fundo
como um fruto entre os ramos.
Um vento vem ter contigo.
Coisas mortas e secas
abafam-te e vão no vento.
Membros e palavras antigas.
No Verão tremes.

29 de Outubro de 1945

Cesare Pavese
In: Trabalhar cansa. Lisboa: Cotovia, 1998, p. 319

Depois de ter ouvido um poema de Cesare Pavese, maravilhosamente dito por Vittorio Gassman, no Arpose.

domingo, 9 de novembro de 2008

Passarei pela Praça de Espanha


O céu estará límpido.
As ruas abrir-se-ão
sobre as colinas de pinheiros e pedra.
O tumulto das ruas
não modificará esse ar imóvel.
As flores salpicadas
de cores, que há nas fontes,
piscarão os olhos como mulheres
divertidas. As escadas
os terraços e as andorinhas
cantarão ao sol.
Abrir-se-á aquela rua,
as pedras cantarão,
o coração baterá em sobressalto
como a água nas fontes -
será esta a voz
que subirá as tuas escadas.
As janelas saberão
o valor da pedra e do ar
matinal. Abrir-se-á uma porta.
O tumulto das ruas
será o tumulto do coração
na luz perdida.

Serás tu - imóvel e clara.

28 de Março de 1950

Cesare Pavese
In: O vício absurdo / sel., pref. e trad. Rui Caeiro. Lisboa: & etc, 1990, p. 55

Cesare Pavese - poeta, romancista e contista - nasceu em 9 de Setembro de 1908, numa pequena aldeia do Piemonte: Santo Stefano Belbo.

Foto: Praça de Espanha, em Roma.