Prosimetron

Prosimetron
Mostrar mensagens com a etiqueta Ferreira Gullar (1930-). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ferreira Gullar (1930-). Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Setembro

Parabéns, Ferreira Gullar! Faz hoje 82 anos.


SETEMBRO

Me volto: a alegoria bebe numa hortênsia
No rumor dos sumos enfurecidos
meu corpo se debatia
a cabeça presia num fosso solar

Os ananases puxavam suas espadas
do dia escuro
...................No almofariz
...................tabaco e sol.

...................Enterraram ontem em São Paulo
...................um anjo antropófago
...................de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)

As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto mais pressa mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional

Ferreira Gullar
In: Obra poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003,p. 99

domingo, 21 de novembro de 2010

Frutas - 38


Valéria Iasbech - Natureza-morta
São Paulo, Museu de Arte do Parlamento de São Paulo
X
FRUTAS
Sobre a mesa de domingo
(o mar atrás)
duas maçãs e oito bananas num prato de louça
São duas manchas vermelhas e uma faixa amarela
com pintas de verde selvagem:
uma fogueira sólida
acesa no centro do dia.
O fogo é escuro e não cabe hoje nas frutas:
chamas,
as chamas do que está pronto e alimenta
X
Ferreira Gullar
In: Obra poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003, p. 98

terça-feira, 1 de junho de 2010

Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010

Ferreira Gullar, pseudónio de José Ribamar Ferreira, nasceu em 10 de Setembro de 1930 em S. Luís do Maranhão. Em 1949 publica, em edição de autor, o seu primeiro livro de poemas "Um pouco acima do chão". Começa aí a sua longa caminhada de poeta, escritor, ensaista, crítico, tradutor,radialista, jornalista, dramaturgo, também com colaboração no cinema e na televisão.
Engajado politicamente, foi preso durante a ditadura militar e teve de exilar-se. Foi premiado em 1950, com o seu poema "O galo", em concurso do Jornal de Letras e recebeu os prémios Saci e Moliére em tradução e teatro e o prémio Jabuti em 2007, pelo melhor livro do ano "Resmungos". Foi indicado por professores universitários dos EUA, Brasil e Portugal para o Prémio Nobel em 2002. Foi-lhe atribuído o Prémio Camões 2010, pelo júri que integrou Elena Buescu, José Carlos Seabra Pereira, Inocência Mata (escritora santomense), Luis Carlos Patraquim (poeta e jornalista moçambicano) e os brasileiros António Carlos Secchin e Edla van Steen.

João Boa Morte
Cabra Marcado para Morrer

Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.

Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.

João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro.

"Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço".

1962

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS


Bina (n. Setembro de 2001)

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precaridade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afectivo
- dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

FERREIRA GULLAR
In: Obra poética. [Vila Nova de Famalicão]: Quasi, 2003

Em memória de Anna Blume...


...que não era siamesa.

MANHÃ DE NOVEMBRO

Meu gato siamês
(de veludo
e garras,
cheio de sons)

Deita-se
ao sol
(da morte,
sabemos nós)

displicente
e eterno

Ferreira Gullar
In: Obra poética. [Vila Nova de Famalicão]: Quasi, 2003, p. 495

Litografia de Mário Cesariny.