Ferreira Gullar, pseudónio de José Ribamar Ferreira, nasceu em 10 de Setembro de 1930 em S. Luís do Maranhão. Em 1949 publica, em edição de autor, o seu primeiro livro de poemas "Um pouco acima do chão". Começa aí a sua longa caminhada de poeta, escritor, ensaista, crítico, tradutor,radialista, jornalista, dramaturgo, também com colaboração no cinema e na televisão.
Engajado politicamente, foi preso durante a ditadura militar e teve de exilar-se. Foi premiado em 1950, com o seu poema "O galo", em concurso do Jornal de Letras e recebeu os prémios Saci e Moliére em tradução e teatro e o prémio Jabuti em 2007, pelo melhor livro do ano "Resmungos". Foi indicado por professores universitários dos EUA, Brasil e Portugal para o Prémio Nobel em 2002. Foi-lhe atribuído o Prémio Camões 2010, pelo júri que integrou Elena Buescu, José Carlos Seabra Pereira, Inocência Mata (escritora santomense), Luis Carlos Patraquim (poeta e jornalista moçambicano) e os brasileiros António Carlos Secchin e Edla van Steen.
João Boa Morte Cabra Marcado para MorrerEssa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro.
"Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço".
1962