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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Passagem do ano


O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão 
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar. 
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade 

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Nos 300 anos da publicação de Robinson Crusoé




Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 21 de maio de 2019

Parabéns, Chico!


Foi através desta peça que o TUCSP trouxe ao Teatro Avenida que conheci Chico Buarque e li de seguida a peça de teatro de João Cabral de Melo Neto. O poema musicado por Chico Buarque «Funeral de um lavrador» ficou-me na memória.
A seguir veio A Banda:

sábado, 20 de abril de 2019

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe - d’água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira
1930

Para APS e porque também eu me lembrei deste poema sobre Pasárgada, onde está o túmulo de Ciro II.

domingo, 2 de abril de 2017

Umas portas para a Isabel - 1

Porto, 21 jan. 2017

VERDADE

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
As duas eram totalmente belas.
Mas carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um poema de Eucanaã Ferraz

Descobri este poeta há pouco tempo, mercê de uma conversa com um amigo. Gostei bastante de alguns poemas que já li deste livro:
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2017

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Morte de um poeta


Um dos últimos grandes poetas do Brasil - da estatura de Carlos Drumond de Andrade , Manuel Bandeira ou João Cabral de Mello Neto – morreu neste final de 2016. Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira), poeta, ensaísta, crítico literário, biógrafo, memorialista, tradutor, um dos fundadores do neoconcretismo, prémio Camões em 2010.

Neste Leito de Ausência
Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.
O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.
Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.


[Poemas Portugueses]

sábado, 24 de setembro de 2016

Em uma tarde de Outono

Gustave Caillebotte - Barcos à vela em Argenteuil, 1888

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Canção de Outono

Pintura de Edward Cucuel


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...

Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles
In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001. Vol. 2

sábado, 15 de novembro de 2014

«Só dez por cento é mentira»

Há várias maneiras sérias de não dizer nada
mas só a poesia é verdadeira
Manoel de Barros

O primeiro verso é certíssimo; quando ao segundo... vareia!

Para APS, que me deu a conhecer este poeta.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Agosto estava por um trevo!


Formigas botaram ovo
Nuas, sem cortinas...
Na aba de um capuz roto

Agosto estava por um trevo!

Manoel de Barros

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Cigarras...

http://animais.culturamix.com/informacoes/insetos-e-aranhas/tudo-sobre-as-cigarras

Cigarras franzem a hora
Libélulas pensam dálias...

Manoel de Barros

sábado, 21 de junho de 2014

Parabéns, Chico Buarque!

Já há dias que pensava em fazer um post sobre Chico Buarque que fez 70 anos há dois dias.
Vi-o, pela primeira vez, na década de 60, quando o Teatro da Universidade de São Paulo se apresentou no Teatro Avenida, em Lisboa, com a peça Morte e Vida Severina. Chico Buarque é o autor da música e um dos atores, ninguém sabia quem ele era, mas percebeu-se que era especial. Adorei a peça e o meu pai deu-me o livro de João Cabral e Melo Neto. De vez em quando lei-o, não o devo ter arrumado e não consigo encontrá-lo.


Depois veio A Banda que o deu a conhecer. Tive este disco, mas não o encontro. Em 45 r.p.m. só tenho este, que comprei no dia 9.3.1974, na discoteca do Apolo 70, que era, n época, muito boa:






Em LP, tenho A Ópera do Malandro, para mim, um dos melhores discos de Chico, baseado na Ópera dos Mendigos e na Ópera dos Três Vinténs:



quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Futebol nas Letras - 27


O FUTEBOL BRASILEIRO EVOCADO DA EUROPA

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

João Cabral de Melo Neto

sábado, 31 de maio de 2014

O Amor aos Sessenta


Isto que é o amor (como se o amor não fosse
esperar o relâmpago clarear o degredo):
ir-se por tempo abaixo como grama em colina,
preso a cada torrão de minuto e desejo.

Ser contigo, não sendo como as fases da lua, 
como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos, 
mas como numa rosa as pétalas fechadas, 
como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos

contra o casco do barco que se vai, sem avanço
e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.
Ser assim quase eterno como o sonho e a roda
que se fecha no espaço deste sol às estrelas

e amar-te, sabendo que a velhice descobre
a mais bela beleza no teu rosto de jovem.

Alberto da Costa e Silva
Prémio Camões 2014

sábado, 11 de janeiro de 2014

Um poema de Oswald de Andrade

Índios tupinamás, século XVI

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

Oswald de Andrade

sábado, 19 de outubro de 2013

De repente, não mais que de repente...



Soneto de Separação

DE REPENTE do riso fêz-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fêz-se espuma
E das mãos espalmadas fêz-se o espanto.

De repente da calma fêz-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fêz-se o pressentimento
E do momento imóvel fêz-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fêz-se de triste o que se fêz amante
E de sozinho o que se fêz contente.

Fêz-se do amigo próximo o distante
Fêz-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes, in 'O Operário em Construção'
in Citador
Vinícius de Moraes nasceu em 19 de Outubro de 1913



 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Em uma tarde de Outono

Peter Nilus - Outono, 1893

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos 
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

sábado, 1 de junho de 2013

A nossa vinheta

Ilustração de Ofélia Marques para o artigo de Adolfo Simões Müller, «A literatura da infância» 
(Panorama, Lisboa, Natal 1944)

«a natureza determina que as crianças sejam crianças antes de serem homens»
Jean-Jacques Rousseau (in: Emílio)

É a nossa vinheta no Dia Mundial da Criança Todas as crianças deveriam ter direito ao ócio.


Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu -
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé

Carlos Drummond de Andrade