Soube pela Maria que Marjane Satrapi faleceu na sexta-feira, com 56 anos.
A Maria gostava muito dela e enviou um filme e uma novela gráfica para assinalar a triste notícia.
Jafar Panahi, oposior do regime iraniano e que conheceu as suas prisões, dirigiu mais uma vez na clandestinidade o filme Foi Só um Acidente. Um homem sequestra outro por lhe ter reconhecido o andar e pensar que foi o homem que o torturou no passado e lhe deixou marcas na sua saúde. Mais não conto. O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes e vale mesmo a pena.
Iman, um funcionário público, advogado e oficial de justiça, é promovido a investigador do Tribunal Revolucionário de Teerão. No novo cargo, é-lhe atribuída uma arma e começa a ser pressionado pelos superiores para assinar sentenças de morte sem direito a investigação ou julgamento. Tudo isto se passa nos dias que sucedem a morte de Mahsa Amini.
Um dia, a arma desaparece de casa. A afronta enfurece Iman, que suspeita da mulher e das duas filhas adolescentes. Como aceitar um cargo numa ditadura vai destruir tudo.
O Parlamento Europeu atribuiu este ano o Prémio Sakharov a Mahsa Amini, que foi presa a 13 de setembro do ano passado pela «Polícia da Moralidade» do Irão, por alegadamente usar de forma incorreta o véu islâmico. Vítima de violência, enquanto esteve presa, morreu três dias depois num hospital de Teerão.
O prémio distinguiu igualmente o movimento iraniano Mulher, Vida, Liberdade.
Entretanto, Elaheh Mohammadi, de 36 anos e Niloufar Hamedi, de 31 anos, as duas jornalistas que passaram a notícia da causa da morte de Masha Amini para fora do Irão, foram julgadas e condenadas a, respetivamente, sete e seis anos de prisão.
Mais uma rapariga foi espancada: Armita Geravand, de 16 anos, está em morte cerebral. A estudante liceal entrou no metro de Teerão, no dia 1 de outubro, com duas colegas. Ia sem véu e foi violentamente agredida por elementos da polícia da moralidade que iam dentro da carruagem. Quantas mais raparigas vão ser agredidas e morrer? Estamos no século XXI...
Acrescento em 28 out., 20h53: Armita Geravand faleceu!
O comité norueguês distinguiu a ativista e jornalista, como reconhecimento das «centenas de milhares de pessoas que se manifestaram contra a opressão do regime teocrático [iraniano] contra as mulheres». Narges Mohammadi tem 51 anos, já foi presa parece-me que 13 vezes e está novamente na prisão, em Teerão, desde o ano passado e esta pena é de 11 anos.
Um chá iraniano com um bolinhos de Sohan Mohammad. São feitos de manteiga, açúcar, farinha, pistácios, cardomomo, gemas de ovos, espelta, água de rosas e açafrão. E são muito bons.
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe - d’água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Manuel Bandeira
1930
Para APS e porque também eu me lembrei deste poema sobre Pasárgada, onde está o túmulo de Ciro II.
«Seguíamos de carro pela grande estrada que atravessa como
em sonhos a planície da Pérsia, imensa e saturada de calor. Era a mesma estrada
que os soldados de Alexandre tinham percorrido, há tantos séculos atrás, quando
um mundo ruiu com o incêndio de Persépolis, em direção a norte, no encalço de
Dario. O rei estava em fuga. Fora um homem valoroso, mas perdera todo o seu
poder com a batalha Gaugamela, e fugiu sem parar, pelas montanhas curdas, pelas
suas terras, Média e Bactriana, até que o sátrapa Besso o matou.
«A planície da Pérsia também não mudou desde então, talvez
nunca venha a mudar. Na Pérsia, a planície é sempre cercada por montanhas, como
barcos encalhados, e pensamos que nos aproximamos delas, mas quando finalmente
lá chegamos, vemos que atrás delas, começa uma outra planície, que na realidade
é ainda a mesma, e nunca chegaremos ao fim.»
Annemarie Schwarzenbach – Morte na Pérsia. Lisboa: Tinta da
China, 2008, p. 55