«Seguíamos de carro pela grande estrada que atravessa como
em sonhos a planície da Pérsia, imensa e saturada de calor. Era a mesma estrada
que os soldados de Alexandre tinham percorrido, há tantos séculos atrás, quando
um mundo ruiu com o incêndio de Persépolis, em direção a norte, no encalço de
Dario. O rei estava em fuga. Fora um homem valoroso, mas perdera todo o seu
poder com a batalha Gaugamela, e fugiu sem parar, pelas montanhas curdas, pelas
suas terras, Média e Bactriana, até que o sátrapa Besso o matou.
«A planície da Pérsia também não mudou desde então, talvez
nunca venha a mudar. Na Pérsia, a planície é sempre cercada por montanhas, como
barcos encalhados, e pensamos que nos aproximamos delas, mas quando finalmente
lá chegamos, vemos que atrás delas, começa uma outra planície, que na realidade
é ainda a mesma, e nunca chegaremos ao fim.»
Annemarie Schwarzenbach – Morte na Pérsia. Lisboa: Tinta da
China, 2008, p. 55
