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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Marcadores de livros - 2034


Marcador deste livro, que acabei de ler há dias. Na verdade, já conheço o texto de Antero desde o liceu, mas reli-o com enorme prazer, nesta edição com prefácio de Ana Maria Almeida Martins.

Lisboa: Tinta da China, 2021

«Costuma apontar-se o Eça de Queirós como o modernizador da prosa portuguesa. Basta, porém, a carta 'Bom senso e bom gosto' para se provar que se houve reforma da prosa portuguesa ela já estava evidente no famoso escrito de Antero.»
Manuel Bandeira

sábado, 20 de abril de 2019

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe - d’água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira
1930

Para APS e porque também eu me lembrei deste poema sobre Pasárgada, onde está o túmulo de Ciro II.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Torso de Mileto

Séculos V-IV a.C.
Paris, Louvre


Em geminação com dois comentários, colocados no post anterior.

Com este acrescento, devido ao comentário de Justa:
O chamado Torso Belvedere, da autoria do escultor ateniense Apolónio.
Século I a.C.
Museu do Vaticano

sexta-feira, 29 de março de 2013

Andorinha

Selo da Bielorrússia


Andorinha lá fora está dizendo: 
— «Passei o dia à toa, à toa!» 

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste! 
Passei a vida à toa, à toa . . . 

Manuel Bandeira

Mais uma vez, em geminação com o Arpose.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

19 de abril: boas colheitas

Auto-retrato

Provinciano que nunca soube 
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crónicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Manuel Bandeira

Fernando Botero, nascido em 1932.

Roberto Carlos nasceu em 1941.

Bom dia!!!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Poemeto erótico

Teu corpo claro e perfeito,
- Teu corpo de maravilha
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...
Teu corpo branco e macio
É como um véu de noivado...

Teu corpo é pomo doirado...
Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...
Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...

A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Manuel Bandeira
(que faleceu há 43 anos)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Para MR como agradecimento. Esta flor não é de Toledo mas verei se trago uma de lá.

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra.



Leitura matinal, à espera que as bibliotecas abrissem.



Antologia de Manuel Bandeira, Lisboa: Relógio de Água

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O que estamos a ler? - 2

A MR lançou o desafio: “o que estamos a ler?"

A pilha do que tenho para ler aumenta e o tempo foge. Neste momento ando a ler em simultâneo:

- A Antologia de Manuel Bandeira da qual já fiz uma referência.


Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais quotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Manuel Bandeira, Antologia, Lisboa: Relógio de Água, 2006, p. 213.



- De José Régio
O meu vizinho Daniel morreu há uns dias. E surpreendo-me a pensar nele mais do que julgara. Pobre homem! Já tinha a sua idade. Vivia de uma pequena reforma, e cultivava flores. Isso nos aproximara, creio, pois sempre considerei poetas os homens que particularmente gostam de flores; e sempre tive por eles a curiosidade um pouco irónica, mas intimamente afectuosa, que nos merecem os poetas que não fazem versos.

José Régio, Davam grandes passeios aos Domingos, Lisboa: Livros Unibolso, sd, p.103

- Um livro que veio do sótão,


Não sei porquê, todas as vezes que vou a Roma, é na estação morta. Passo por lá em Agosto ou Setembro, de viagem para outra parte, e durante um ou dois dias revejo lugares ou pinturas que me são caros em virtude de velhas recordações.

W. Somerset Maugham, O Elemento Humano in "Chuva e outras Novelas", Lisboa: Livros do Brasil, sd, p. 129.

Recomecei a ler porque perdi o fio à meada:

- De Juliette Benzoni,

L’ homme qui venait d’entrer contempla un instant spectacle puis, pliant les genoux. Se laissa tomber au pied de la couche funèbre et se mit à prier, sourd au vacarme insensé qui montait des rues de Rome et des quais du Tibre où se déchaînait la populace.
C’était un homme de vingt-six ans, grand et vigoureusement bâti avec, dans ses atitudes habituelles, une sorte de majesté. Son visage plein aux lèvres charnues, au long nez courbe, était animé par des grands yeux sombres, si brillants qu’ils semblaient jeter des éclairs.

Juliette Benzoni, Suite italienne, Bartillat, 2005, p. 15

sexta-feira, 8 de julho de 2011

POEMA DO BECO





Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.

1933



Manuel Bandeira, Antologia, Lisboa: Relógio D'Água, 2006, p.138







Alta de Coimbra

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Bom passeio, Jad!


Charles-Louis Girault (1851–1932) - Arco triunfal do Palácio do Cinquentenário, 1906 (Bruxelas, Parque do Cinquentenário)

BÉLGICA

Bélgica dos canais de labor perseverante,
Que a usura das cousas, tempo afora,
Tempo adiante,
Fez para agora e para jamais
Canais de infinita, enternecida poesia…

Bélgica dos canais, Bélgica de cujos canais
Saiu ao mar mais de uma ingénua vela branca…
Mais de uma vela nova… mais de uma vela virgem…

Bélgica das velas brancas e virgens!

Bélgica dos velhos paços municipais,
Húmidos da nostalgia
De um nobre passado irrevocável.

Bélgica dos pintores flamengos.
Bélgica onde Verlaine escreveu Sagesse.

Bélgica das beguines,
Das humildes beguines de mãos postas, em prece,
Sob os toucados de linho simbólicos.
Bélgica de Malines.
Bélgica de Bruges-a-morta…
Bélgica dos carrilhões católicos.

Bélgica dos poetas iniciadores.
Bélgica de Maeterlinck
(La Mort de Tintagiles, Pelléas et Mélisande.)
Bélgica de Verhaeren e dos campos alucinados da Flandres.

Bélgica das velas ingénuas e virgens.

Manuel Bandeira
In: Poesias completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1940, p. 86-87

sábado, 20 de março de 2010

Como as andorinhas são o mote do dia...

Fotografia retirada do blog A Vida Portuguesa



Poema de Manuel Bandeira


Manuel Bandeira, Meus Poemas Preferidos, Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 57.


Livro on-line

sábado, 5 de dezembro de 2009

A. S. : Escolhas Pessoais IX

António Nobre

Guerra Junqueiro (1850-1923) e António Nobre (1867-1900) foram os primeiros poetas que li. Se Junqueiro é, hoje, uma remota recordação no tempo, Nobre, pelo contrário, revisito-o muitas vezes. E, para tomar de empréstimo a Vitorino Nemésio algumas palavras, diria, com ele : “Queremos falar criticamente do «Só», e ele recusa-se, foge do terreno crítico como uma recordação de família que não suporta outra estima senão a do coração”.
Mas sobre a criação poética, em Nobre, tenho alguma coisa a dizer a propósito do soneto 13 (da primeira edição do “Só” ) que passou a ser o 12º na segunda edição.
De Paris, e a 2 de Fevereiro de 1891, o Poeta escreve, ao seu grande amigo Alberto de Oliveira, uma carta em que refere: “Ó Alberto! manda-me notícias! Jornais aos montes (…) crivados de pormenores, com a cópia de quantos telegramas têm nestes dias atravessado os fios de arame que eu vejo além, meu Deus! sob um lindo céu cheio de sol, atacadinhos de pardais de todo alheados do «pronunciamento», nem por isso lhe oscilando as patas – Revolução! 30 mortos! 100 feridos!... - que passam”. Esta sofreguidão de António Nobre por notícias prendia-se com os factos ocorridos com a intentona do 31 de Janeiro de 1891, no Porto, em que participara, pelo menos, um dos seus amigos: Sampaio Bruno.
Cerca de nove meses mais tarde e na passagem pela Alemanha, em Colónia (possivelmente a 10 de Novembro de 1891), esta carta vai “transformar-se” no soneto 13 da primeira edição do “Só”.
Reproduz-se este soneto através das provas para a 2ªedição, com as emendas feitas pela mão de Nobre, no seu exemplar.

Este soneto deve ter deixado, também e posteriormente, marcas de leitura num poema de Alexandre O’Neill, intitulado “A Central das frases”. O contágio de Nobre reflecte-se também, no paralelismo da doença e no agrado pelo coloquial, em alguma da poesia de Manuel Bandeira. E não só.
Como disse Vitorino Nemésio, a arte de António Nobre é portadora de grande “astúcia estética” que lhe permitiu sobreviver ao seu tempo e deixar marcas para o futuro.
Além do afecto que tenho pelo “Só”, é com imenso gosto que lembro, hoje, o seu autor e o escolho.

Post de Alberto Soares

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

CANTIGA

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela d’alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

Manuel Bandeira
In: Poesias completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1940, p. 137

quinta-feira, 21 de maio de 2009

PASSADO, PRESENTE, FUTURO

Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente…. O presente não existe:
Le moment où je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus… Ora, adeus!

Manuel Bandeira
In: Estrêla da tarde. Rio de Janeiro: Livr. José Olympio, 1963, p. 31