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sexta-feira, 7 de julho de 2023

Marcadores de livros - 2721

Junqueiro morreu há cem anos!
O terceiro e o quarto já estão no Panteão; o segundo entra lá no final de setembro. Esperemos que chegue o dia para Camilo.
E ainda: Mário Cesariny faria 100 anos no próximo dia 9 de agosto.

As datas de nascimento e morte de Camilo estão erradas: 1825-1890. Uma gralha que vão emendar.


Em geminação com a Livraria Lumière.

domingo, 20 de março de 2016

Alegoria à Primavera

Domingos Costa

Canção de primavera

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar, flor, já não dou.

Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arrepio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho.
Mas tu, Maio, Vem com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e amar...
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio - Filho do Homem

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

terça-feira, 22 de abril de 2014

Pensamento ( s )



Se alguém me apedreja, eu irrito-me. E temos até a responsabilidade do nosso mau carácter; se eu ficasse impassível, alguém perdia a fé. Não sei quem, mas isso tem muita importância.

- Agustina Bessa-Luís, Abril de 1959, carta a José Régio in Correspondência Agustina-Régio ( 1955-1968 ), org e fixação de texto de Alberto Luís e Lourença Baldaque, Guimarães, 2014, 120 págs.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Fado Português

Um livro comprado por acaso, durante umas compras. Estava etiquetado com o custo de 4,5 euros e ficou por 1 euro. 
Graças a várias instituições esta coleção, que não conhecia, é possível sair a baixos custos. Só há um senão, quanto a mim, a coleção intitula-se Klássicos com um K. Só tenho este livro mas numa próxima compra irei ver se há mais.

As primeiras três estrofes, de vinte e seis, do poema, 
José Régio, Fado. Lisboa: Editora A Bela e o Monstro, 2011, p. 33.


As instituições que contribuíram para esta edição são: APP (Associação de Professores de Português); BNP (Biblioteca Nacional de Portugal); IC (Instituto Camões); Ler + (Plano Nacional de Leitura); RTP  (Rádio Televisão Portuguesa) e PCM (Presidência do Conselho de Ministros, Secretaria de Estado da Cultura) [Cuidado com a Língua, que julgo pertencer ao IC]. A coleção teve também o apoio do Café Delta. Apraz-me que haja uma conjugação de esforços em prol da cultura.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O que estamos a ler? - 2

A MR lançou o desafio: “o que estamos a ler?"

A pilha do que tenho para ler aumenta e o tempo foge. Neste momento ando a ler em simultâneo:

- A Antologia de Manuel Bandeira da qual já fiz uma referência.


Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais quotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Manuel Bandeira, Antologia, Lisboa: Relógio de Água, 2006, p. 213.



- De José Régio
O meu vizinho Daniel morreu há uns dias. E surpreendo-me a pensar nele mais do que julgara. Pobre homem! Já tinha a sua idade. Vivia de uma pequena reforma, e cultivava flores. Isso nos aproximara, creio, pois sempre considerei poetas os homens que particularmente gostam de flores; e sempre tive por eles a curiosidade um pouco irónica, mas intimamente afectuosa, que nos merecem os poetas que não fazem versos.

José Régio, Davam grandes passeios aos Domingos, Lisboa: Livros Unibolso, sd, p.103

- Um livro que veio do sótão,


Não sei porquê, todas as vezes que vou a Roma, é na estação morta. Passo por lá em Agosto ou Setembro, de viagem para outra parte, e durante um ou dois dias revejo lugares ou pinturas que me são caros em virtude de velhas recordações.

W. Somerset Maugham, O Elemento Humano in "Chuva e outras Novelas", Lisboa: Livros do Brasil, sd, p. 129.

Recomecei a ler porque perdi o fio à meada:

- De Juliette Benzoni,

L’ homme qui venait d’entrer contempla un instant spectacle puis, pliant les genoux. Se laissa tomber au pied de la couche funèbre et se mit à prier, sourd au vacarme insensé qui montait des rues de Rome et des quais du Tibre où se déchaînait la populace.
C’était un homme de vingt-six ans, grand et vigoureusement bâti avec, dans ses atitudes habituelles, une sorte de majesté. Son visage plein aux lèvres charnues, au long nez courbe, était animé par des grands yeux sombres, si brillants qu’ils semblaient jeter des éclairs.

Juliette Benzoni, Suite italienne, Bartillat, 2005, p. 15

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Gato

Passei por ele inúmeras vezes mas nunca o tinha visto. É o gato amarelo da estação de Metro da Cidade Universitária.


Gato, intervenção plástica de Vieira da Silva transposta para azulejo por Cargaleiro.



Metro Cidade Universitária, Lisboa

«Procuro uma definição de Arte que me satisfaça. Achei esta, que me não satisfaz:
A Arte é a intimidade simpática de tudo.»

José Régio,Páginas do Diário Íntimo, Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 2000, p.47.

Transpus a ideia de Régio para este gato: é um bicho simpático que observa quem passa.

domingo, 11 de abril de 2010

Um homem que passou por Coimbra e a louvou!

Coimbra é a minha cidade, é ela que me ensina, nela passaram muitos homens que louvaram a poesia. A todos que ensinam na criação.
José Régio nasceu em Vila do Conde e tirou o curso de Filologia Românica. Um poema dele retirado directamente do youtube

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Carnaval 1

Frank Xavier Leyendecker (1876 - 1924), Arlecchino and Columbina, New York


JOSÉ RÉGIO

Três máscaras (1940)

Um bando de mascarados cruza a cena

PIERROT (ergue-se de salto, faz piruetas, ensaia passos de bailado, volta para junto de Columbina) – Já só me interesso por ti, Columbina! Esta noite é o mais claro dia da minha vida. Se tu soubesses como me sinto leve... livre... poderoso... Tenho asas, barbatanas, músculos de aço, plumas... Queres que faça um milagre?

COLUMBINA – Quero! Transforma-te num homem interessante: Estrangula-me por amor, depois ressuscita-me.

PIERROT – Consentes que os meus dedos toquem no teu pescoço?

COLUMBINA – O meu pescoço frágil, delicado como um caule de flor..., não é? O meu colo de graça... o meu colo de cisne... Os poetas líricos são pouco inventivos.

PIERROT – Não, Columbina: o teu pescoço mesmo; a tua carne.

COLUMBINA - ...De leite e rosas, suponho.

PIERROT – Não! A tua carne, a tua alma feita sangue...

COLUMBINA – Ligeiramente mais interessante.
(...)
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"O teatro de José Régio [...] funde três linhas nele destacáveis [...]: o alegorismo poético do post-simbolismo [...], o realismo-naturalismo […] e o experimentalismo das formas expressionistas [...]. Com efeito, se Jacob e o Anjo continua a linha de António Patrício, Três Máscaras prolonga o diálogo de Pierrot e Arlequim de Almada Negreiros, como Benilde reflecte o expressionismo e a superação do realismo efectuada por Alfredo Cortez e por Raul Brandão".
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Jorge de Sena, «Algumas notas sobre o teatro de José Régio».
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O lamento ... - Ícaro 1.

O Lamento por Ícaro, de Herbert Draper, foi um dos quadros que vi na Tate Britain que me encantou. As ninfas que rodeiam Ícaro lamentam a perda dele. Ícaro que o desejo de voar mais alto levou até ao Sol, acabaria por perecer ao derreter-se a cera das suas asas. A história de Ícaro, figura da mitologia grega, fascina-me.
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Herbert Draper, O Lamento por Ícaro, exibido em 1898
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Óleo sobre tela, 182,9 x 155,6 cm, Tate Britain, Londres
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Ícaro
A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.
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Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...
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Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:
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Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
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José Régio, Poemas de Deus e do Diabo, Lisboa: Quasi, 2005

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Legenda para nada

Legenda para nada

Senhora Dona Lua
No céu de focos esventrado se apagou.
Murcha, caiu à rua
A pálida camélia;
E a casa das valetas a levou.
Que fantasma de Ofélia
No lago escoado de água se afogou?

José Régio, Não Vou por Aí!, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2001 p. 149 (Selecção e Org Isabel Cadete Novais), p.

sábado, 27 de junho de 2009

José Régio: Poema do Silêncio!



Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épicas trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais.
Ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso
Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós.
E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

*José Régio, in “Poemas de Deus e do Diabo"poemas de Deus e do Diabo” (1925)