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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

António Nobre em Paris

Em 15 out. 2014, fiz um post sobre a Pension Guillier, um dos sítios em que António Nobre viveu quando esteve em Paris. Hoje mostro outros locais, e foram muitos, onde ele viveu na capital francesa.
Hotel de Suez, no 31, boulevard Saint Michel. Entre nov. e dez. 1891.

No 2, rue Racine, gaveto para o boulevard Saint Michel. Hoje está aqui o Hotel Belloy Saint Germain. De onde escreveu a Alberto de Oliveira, em  nov. 1890.

Em dez. de 1890 muda-se para o 12, rue de la Sorbonne de onde escreve também a Alberto de Oliveira, e onde fica até fev. 1891. Este prédio tem uma lápide assinalando a passagem de António Nobre, bem como do poeta russo Ossip Mandelstam.

41, rue des Écoles, de onde António Nobre escreveu a Vasco da Rocha e Castro em 26 fev. 1891 e a Manuel da Silva Gaio, em 1 out. 1892. Hoje o edifício está ocupado pelo Villa Pantheon, há tempos muito falado por ter sido o local de encontro José Sócrates e o seu advogado João Araújo.

Em 16 nov. 1893, Nobre escreve ao irmão Augusto do 18, rue de la Sorbonne. Nesse edifício estava instalado o Café Gibelin., que possivelmente o poeta terá frequentado.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Paris: Pension Guillier

Parece-me que APS já se referiu a este exemplar do , com dedicatória a António Cândido e que foi a leilão no passado dia 6 de outubro.
Fui procurar o 21, rue Valette, em Paris. Já sabia que era perto do Panteão, mas não que então, 1872, aí funcionava a Pension Guillier:
Foi nesta Pension que António Nobre esteve hospedado entre maio e maio de 1872, de enviou cartas para seu pai, Augusto Nobre e Rafael Bordalo Pinheiro (as sobreviventes).
Um dia, hei-de falar das várias residências que António Nobre teve em Paris.

«Amei Paris como nunca o amara. Vi arte nova, fiz anarquismo platónico [...9 fiz a noce, enfim, quis iludir-me a mim próprio [...]. »
(Carta a José de Castro, fev. 1894)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quotidianos - 38


Irmãos Le Nain - Fumadores num interior
Óleo sobre tela, 1643
Paris, Museu do Louvre
Le Nain - nome de três irmãos franceses, nascidos em Laon: Louis (ca 1593-1648), Antoine (1588-1648) e Mathieu (ca 1607-1677).
X
Este quadro - colocado no seguimento de outro dos Irmãos Le Nain, que o Luís postou ontem - lembrou-me outro. Qual? Um dos meus preferidos.
X
[...]
Fumo? E ocorre-me à lembrança
Todo esse tempo que lá vai,
Quando fumava, ainda criança,
Às escondidas do meu Pai.
[...]
António Nobre - «O meu cachimbo»

sábado, 5 de dezembro de 2009

A. S. : Escolhas Pessoais IX

António Nobre

Guerra Junqueiro (1850-1923) e António Nobre (1867-1900) foram os primeiros poetas que li. Se Junqueiro é, hoje, uma remota recordação no tempo, Nobre, pelo contrário, revisito-o muitas vezes. E, para tomar de empréstimo a Vitorino Nemésio algumas palavras, diria, com ele : “Queremos falar criticamente do «Só», e ele recusa-se, foge do terreno crítico como uma recordação de família que não suporta outra estima senão a do coração”.
Mas sobre a criação poética, em Nobre, tenho alguma coisa a dizer a propósito do soneto 13 (da primeira edição do “Só” ) que passou a ser o 12º na segunda edição.
De Paris, e a 2 de Fevereiro de 1891, o Poeta escreve, ao seu grande amigo Alberto de Oliveira, uma carta em que refere: “Ó Alberto! manda-me notícias! Jornais aos montes (…) crivados de pormenores, com a cópia de quantos telegramas têm nestes dias atravessado os fios de arame que eu vejo além, meu Deus! sob um lindo céu cheio de sol, atacadinhos de pardais de todo alheados do «pronunciamento», nem por isso lhe oscilando as patas – Revolução! 30 mortos! 100 feridos!... - que passam”. Esta sofreguidão de António Nobre por notícias prendia-se com os factos ocorridos com a intentona do 31 de Janeiro de 1891, no Porto, em que participara, pelo menos, um dos seus amigos: Sampaio Bruno.
Cerca de nove meses mais tarde e na passagem pela Alemanha, em Colónia (possivelmente a 10 de Novembro de 1891), esta carta vai “transformar-se” no soneto 13 da primeira edição do “Só”.
Reproduz-se este soneto através das provas para a 2ªedição, com as emendas feitas pela mão de Nobre, no seu exemplar.

Este soneto deve ter deixado, também e posteriormente, marcas de leitura num poema de Alexandre O’Neill, intitulado “A Central das frases”. O contágio de Nobre reflecte-se também, no paralelismo da doença e no agrado pelo coloquial, em alguma da poesia de Manuel Bandeira. E não só.
Como disse Vitorino Nemésio, a arte de António Nobre é portadora de grande “astúcia estética” que lhe permitiu sobreviver ao seu tempo e deixar marcas para o futuro.
Além do afecto que tenho pelo “Só”, é com imenso gosto que lembro, hoje, o seu autor e o escolho.

Post de Alberto Soares

quarta-feira, 25 de março de 2009

O sono do João, António Nobre.

O João dorme...(Ó Maria,
dize áquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria... um morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!

O João dorme... Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó Mar! fala mais baixinho...
E tu Mãe! E tu Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...

O João dorme, o inocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o Mundo,
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mãe! canta-lhe uma canção,
os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vai sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo...
Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João... ficarão menores!

Mas para isso, Ó Maria
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João, acordar...

E os anos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda, e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio...

Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...

António Nobre - Breve antologia da Poesia Portuguesa, Lisboa: Guimarães Editores SA, 2009, p. 35-37.