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domingo, 15 de dezembro de 2019

Leituras no Metro - 1046


Compreensão

Os anos da minha juventude, a minha vida de prazer –
que claramente vejo agora o seu sentido.

Que inúteis remorsos, que estéreis…

Mas não via o sentido nessa altura.

Em meio à minha dissoluta vida jovem
ia tomando forma a minha poesia,
ia-se desenhando o contorno da minha arte.

Por isso nunca houve firmes arrependimentos.
E as decisões de me dominar, de mudar
duravam duas semanas se tanto.

1918
Konstantinos Kaváfis
In: 145 poemas. Trad. de Manuel Resende. Porto: flop livros, 2017

Leitura do poema «A Cidade» por José Luís Costa.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O segredo é amar


"O poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade…
E diz assim: “É preciso saber olhar…”
E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos…
E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás…
E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ovelha…
E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso…
E acha que tudo é importante…
E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim…
E reparou que os homens estavam tristes…
E escreveu uns versos que começam desta maneira: “O segredo é amar…”
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquiloque talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.
 Sebastião da Gama
morreu em 7 de Fevereiro de 1952, com 28 anos

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

In Memoriam no dia Nacional da Cultura Científica

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu a 24 de Novembro de 1906. Este dia é considerado o DIA NACIONAL DA CULTURA CIENTÍFICA. O centro Rómulo, Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra comemora o 8º Aniversário com a inauguração da Exposição: 
"20 anos, 20 livros de ciência para todos"  e com uma palestra intitulada Ciência e Religião, com os oradores Nuno Camarneiro e Tolentino Mendonça.

Poema das árvores

As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.

De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.

António Gedeão, Obra Poética, Lisboa, edições JSC, 2001


Boa tarde!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Federico

No passado dia 18 de Agosto passaram 80 anos sobre o miserável assassinato de Federico Garcia Lorca, grande poeta, grande dramaturgo, grande figura da cultura de Espanha do século XX. Morto pelo ódio à liberdade.




Túmulo de Lorca

Em ti choramos os outros mortos todos
Os que foram fuzilados em vigílias sem data
Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias
Tão ignorados que nem sequer podemos
Perguntar por eles imaginar seu rosto
Choramos sem consolação aqueles que sucumbem
Entre os cornos da raiva sob o peso da força.

Não podemos aceitar. O teu sangue não seca
Não repousamos em paz na tua morte
A hora da tua morte continua próxima e veemente
E a terra onde abriram a tua sepultura
É semelhante à ferida que não fecha

O teu sangue não encontrou nem foz nem saída
De Norte a Sul de Leste a Oeste
Estamos vivendo afogados no teu sangue
A lisa cal de cada muro branco
Escreve que tu foste assassinado

Não podemos aceitar. O processo não cessa
Pois nem tu foste poupado à patada da besta
A noite não pode beber nossa tristeza
E por mais que te escondam não ficas sepultado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 14 de junho de 2016

Boa noite!


«Vedi, in questi silenzi in cui le cose
s'abbandonano e sembrano vicine
a tradire il loro ultimo segreto».
Eugenio Montale

Esta epígrafe encontra-se na folha de rosto do catálogo que Ohran Pamuk escreveu para o seu Museu da Inocência:

New York: Abrams, 2012

sábado, 21 de novembro de 2015

Palavras

Palavras - asas para pássaros que tomam
                os sonhos como ninhos

Adonis
Trad. Nuno Júdice

Lisboa: Teorema, D.L. 2006

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Aboulala el-Ma´arri: um poeta sírio


La vérité est soleil recouvert de ténèbres -
Elle n'a pas d'aube dans les yeux des humains.

Aboulala el-Ma´arri
(Trad. Adonis)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

"The Mentor"

Gabriela Gonzalez Dellosso, The Mentor (Adelaide Labille-Guiard)
Colecção privada 


Gabriela Dellosso é poeta e pintora, para saber mais sobre a pintora ver o link


LIFE DRAWING

Model for me.
Let my eyes be wheels that carry me across
The contour of your form.

Your arms roads, your legs bridges
I am architect
Builder of You.

Passages of human poetry
Exist in your figure
I want to capture them all.

Twenty five gestures
Become twenty five bony myths
Unfolding on my paper landscape.

Light and shadow are unified paradox
On the flat, three dimensional reality
Of this drawing.

Your rib cage- day; your pelvis- night
Together seven times
Anatomy of Creation.

The Indian Ocean rests on your iliac crest
Your spine channels the Nile
Your Achilles heel has walked across earth’s history.

I grab your edges, your geography
Mapping rhythms of your world
A translation of your boundaries.

Charcoal lines pull me through tunnels
Containing inked secrets
Held only by Old Masters.

I graze their whispering hands,
Channeling God’s Last Judgement
Or perfecting the Angel of Annunciations.

With this, I press, wishing to express
Your breath onto vellum
As has been done for thousands of years. 

Gabriela Gonzalez Dellosso

terça-feira, 7 de abril de 2015

Gabriela Mistral

Assinala hoje o Google o aniversário (nasceu em 7 de Abril de 1889) da poetisa Gabriela Mistral, nascida em Vicuña, Chile, que recebeu em 1945 o Prémio Nobel da Literatura, o primeiro atribuído a um autor latino-americano. E eu escolhi um poema seu para evocar essa grande poetisa, educadora e diplomata.

 
Doña Primavera
viste que es primor,
viste en limonero
y en naranjo en flor.

Lleva por sandalias
unas anchas hojas,
y por caravanas
unas fucsias rojas.

Salid a encontrarla
por esos caminos.
¡Va loca de soles
y loca de trinos!

Doña Primavera
de aliento fecundo,
se ríe de todas
las penas del mundo...

No cree al que le hable
de las vidas ruines.
¿Cómo va a toparlas
entre los jazmines?

¿Cómo va a encontralas
junto de las fuentes
de espejos dorados
y cantos ardientes?

De la tierra enferma
en las pardas grietas,
enciende rosales
de rojas piruetas.

Pone sus encajes,
prende sus verduras,
en la piedra triste
de las sepulturas...

Doña Primavera
de manos gloriosas,
haz que por la vida
derramemos rosas:

Rosas de alegría,
rosas de perdón,
rosas de cariño,
y de exultación

sábado, 21 de março de 2015

Um livro de poesia

Cortesia do Google imagens


Associando-me ao Dia Mundial da Poesia comprei na FNAC um livro de poemas de José Tolentino Mendonça.

Embora já tenha lido poesia de JTM não tinha nenhum livro. Eis pois, Estação Central, publicado pela Assírio & Alvim.


A ronda dos eleitos

Como artesãos vivem em suas oficinas
para aperfeiçoar os ofícios
Apanharam pedras e atiram-nas longe
em silêncio sempre na mesma direcção

Os seus cântaros regam o infortúnio
a semente que caiu à beira do caminho
o som vazio do vento
as poças de água onde, às vezes, um peixe se debate

Para si mesmos repetem:
salvam-se apenas os que recusam tudo
até mesmo a salvação

( 2ª edição) p. 34.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Miguel Torga

Miguel Torga, 20 anos sobre o desaparecimento do poeta.

S. Martinho da Anta, 13 de Abril de 1965


Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora.



In Diário X. Coimbra : [s.n.], 1968.

domingo, 23 de novembro de 2014

Casos do 14

O Elias
Elias tinha uma tara
qual era ninguém sabia.
Tinha atracção por gravatas
grenás e às pintinhas brancas
e engraxava os sapatos
sempre encostado às esquinas.
Trabalhava ai trabalhava
sentado e todo dobrado
com a mão a servir de pala
por causa da luz do sol
que entrava pelo gabinete
onde a preencher documentos
era como ele dizia
um autêntico portento.
Mal acabava o trabalho
sumia-se pelas vielas
caminhando empertigado
sacudindo o pó dos ombros
do seu casaco azulado
e para esticar os punhos
da sua camisa branca
levava as mãos aos sovacos
e logo de imediato
num gesto bem computado
puxava os punhos com os dedos
com tão grande precisão
que fosse qual fosse a mão
quando tinha que os puxar
os punhos obedeciam sem falhar.
E assim era o Elias
no seu vulgar dia a dia.
Até que um dia
a empregada da pensão
onde vivia o Elias
vai dar com ele de pé
em frente à televisão
de cuecas e em peúgas
numa grande convulsão
na altura que o Santo Padre
em plena praça de S. Pedro
de costas e em saiote
abrindo os braços benzia
uma enorme multidão.

Eduardo Valente da Fonseca, Casos do 14. Porto: Cadernos do Caos, p. 57-59.

Conheci o escritor/jornalista através da Livraria Lumière e achei que o retratado no poema ligava bem com o retrato pintado por Jean Fouquet.
Boa tarde!

domingo, 16 de novembro de 2014

Ainda Manoel de Barros

Nuno Júdice no Público
Manoel de Barros, Ilustração de Rogério Coelho
Retrato de Manoel BarrosENCOMENDAÇÃO

Deus é uma grande aranha, pensou
manoel de barros. E agarrou um dos
fios da sua teia para subir, com
todo o cuidado de um tecedor
de palavras, até ao infinito. «E
onde está o deus que fabricou
tudo isto?», perguntou ao chegar
à floresta que nasce no cume
dos sonhos. E um dos pavões,
de sílabas coloridas com as tintas
vermelhas e roxas do crepúsculo,
respondeu: «Deus vive na rede
dos teus versos.» E abriu a sua
cauda onde as cores da madrugada
reflectiam, como num espelho
de ouro poliédrico, o rosto de deus.

Nuno Júdice
 14-11-2014
Poema inédito cedido pela Casa da América Latina

domingo, 21 de setembro de 2014

Silence

Uma faceta de Leonard Cohen que me atrai. (Link)

Cohen

*
*Summer-Haiku from "The Spice-Box of Earth"
For Frank and Marian Scott

Silence

and a deeper silence

when the crickets

hesitate