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quinta-feira, 22 de maio de 2025

Marcadores de livros - 3394

Li alguns livros de poesia deste autor, e não sou grande fã. Há dias deram-me uns marcadores dele que juntei a outros que já tinha para postar hoje, Dia do Autor Português.

Philippe Lejeune (1924-2014) - Le repas chez Simon, 1952
Musées de la ville de Boulogne-Billancourt 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

quinta-feira, 25 de março de 2021

Pensamento ( s )


 


" (...) São tempos de encruzilhada os que vivemos. Ou somos capazes de construir novos modelos de vida, com maior sobriedade, com moderação do consumo e redução dos desperdícios ou estaremos a condenar o futuro a uma distopia, da que a atual situação pandémica é um pré-aviso. E esta viragem tanto diz respeito às sociedades no seu todo, como aos estilos adotados concretamente por cada indivíduo. Acelera-se o dano: torna-se urgente acelerar o remédio. "


- José Tolentino de Mendonça, na revista do Expresso.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Pensamento ( s )


(...) Em momentos diferentes da nossa vida , quando não é claro o que podemos fazer ou por onde começar, estendamos a mão a uma vassoura. A vassoura vai sujar-nos as mãos e ensinar-nos, desse modo, uma imensidão de coisas às quais, de outra maneira, dificilmente acederíamos. O poeta Charles Péguy escreveu, com razão, que quando nos recusamos a sujar as mãos no cuidado da vida acabamos rapidamente por ficar sem mãos. É um facto : muitas vezes vivemos sem mãos, perdemos as nossas mãos lá atrás em alguma etapa do caminho, esquecemo-nos do seu significado, da sua função, e, por anos e anos, não temos consciência disso.
A vassoura - e o que ela simboliza - realiza também um providencial movimento de resgate em relação a nós próprios. (...)

- José Tolentino de Mendonça, em crónica publicada no Expresso.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

O «Tesouro dos remédios da alma» - 46

A terceira é Biblioteca do Vaticano que já apareceu várias vezes no blogue. Fundada pelos papas Nicolau V e Sixto IV no século XV, é uma das mais antigas do mundo. Conta com mais de 50 000 manuscritos, 7 000 incunábulos e numerosos arquivos secretos. É hoje dirigida por José Tolentino de Mendonça.


sábado, 28 de julho de 2018

Marcadores de livros - 1121


«A rotina não basta ao coração do homem. O grande desafio é, em cada dia, voltar a olhar tudo pela primeira vez, deslumbrando-se com a surpresa dos dias. É reconhecer que este instante que passa é a porta por onde entra a alegria.»
José Tolentino de Mendonça - A mística do instante

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Pensamento ( s )




(...) Somos todos experiência do inacabado, indagação no incompleto, na dureza e opacidade de pedra que, não raro, é a do tempo que nos cabe viver. E a esperança não nega ou contradiz isso. A esperança é uma gestação espiritual que ocorre precisamente nessas circunstâncias. É a esperança que entreabre, que faz descobrir, para lá das duras condições, possibilidades ainda escondidas. A esperança , se quisermos, é a arte de acolher pacientemente a vida e partir daí para um trabalho incessante de ressignificação ( que é, como sabemos, em grande medida, um trabalho de reconciliação ). A nossa existência, do princípio ao fim, é o resultado de uma aprendizagem da esperança, e só ela é capaz de dialogar com o futuro e de o aproximar.

- José Tolentino Mendonça, O pouco que sabemos da esperança, in Expresso 



Também uma singela homenagem ao Padre Tolentino, novo Prefeito da Biblioteca Vaticana e dos Arquivos Secretos, e elevado a arcebispo pelo Papa Francisco.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Pensamento ( s )



(...) Um exercício que devemos repetir mais vezes é recordar ( voltar a trazer ao coração, literalmente ) os lugares onde experimentamos consolação. Esses lugares, amiúde inesperados, guardam um precioso ensinamento. Se quisesse eu próprio falar de um lugar de consolação recente na minha vida teria de referir o campo de concentração de Westerbork, na Holanda, onde estive em peregrinação o verão passado.Foi nesse epicentro da dor que, ao lado de milhares de outros mártires do século XX, esteve prisioneira Etty Hillesum. Recordo-me de passar um par de horas, deitado sobre a erva, a escutar o vento. Apenas isso. Mas senti uma comunhão profunda com o grito e o perdão que se pode ler quer nos escritos de Etty, quer no destino silencioso de tantas vidas. E, sem que as pudesse deter, as lágrimas lavaram-me o rosto várias vezes. As vezes necessárias para que ficasse limpo.

- José Tolentino de Mendonça, no Expresso do passado Sábado .

terça-feira, 18 de abril de 2017

Citações

Pietá Rondanini, mármore, 195cm, Castello Sforzesco, Milão.

(...) Até poucos dias da sua morte, Miguel Ângelo trabalhou noutra pietá, a chamada Pietá Rondanini. Ele tinha-a começado 12 anos antes e abandonado. Em 1563 volta a ela com um gesto inesperado : quebra o corpo de Cristo que havia esculpido para refazê-lo agora a partir do próprio corpo da mãe, em comovente fusão, a ponto de ser impossível dizer qual dos dois transporta o corpo do outro. O tom daquela pedra é humaníssimo, dolentíssimo, inexplicável. É o contrário da impassibilidade da primeira pietá. Mas não temos de escolher : uma e outra são maneiras possíveis de confessar a fé pascal.

- José Tolentino Mendonça, no Expresso.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Pensamento ( s )


( Jean-Yves Piton, Dans le regard de l'autre )


(...) Escolhemos passar ao lado e ignorar. Olhamos, mas não vemos nem queremos ver. O consumo ( e também o há nas relações interpessoais, não apenas no que respeita aos bens ) supõe, pelo contrário, a supressão de toda a distância. À sua maneira é também uma forma de ignorar o outro, mas agora pelo movimento invasor, pela devoração e pela posse. Usamos os outros em função das nossas necessidades : verdadeiramente não os encontramos. Por isso, é tão importante reconhecer que só a atenção dota o olhar de uma significação ética. Só somos justos com aqueles que miramos demoradamente, num exercício que coloca a hospitalidade como condição do conhecimento. Ou mesmo como condição do resgate. Não é por acaso que Simone Weil, que ao tema dedicou uma agudíssima reflexão, escreveu que " o que nos salva é o olhar " .

- José Tolentino Mendonça, no Expresso do passado Sábado .

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Pensamento ( s )



(...) Não nos enganemos. O verdadeiro repouso não o encontraremos prefabricado e pronto a consumir. O repouso não está à nossa espera nos lugares de sonho das promoções turísticas. Não o encontraremos em lugar algum, se ele não tiver antes brotado na nossa alma. Vale a pena assim que ao tocarmos a terra, a água ou o vento toquemos também o coração da vida. Que acordemos a curiosidade e a atenção, que são as formas mais quotidianas, mas também as mais extraordinárias de amor. (...)

- José Tolentino de Mendonça, no Expresso do passado Sábado .

Não há dúvida que o essencial é mesmo o repouso da alma .

sábado, 21 de março de 2015

Um livro de poesia

Cortesia do Google imagens


Associando-me ao Dia Mundial da Poesia comprei na FNAC um livro de poemas de José Tolentino Mendonça.

Embora já tenha lido poesia de JTM não tinha nenhum livro. Eis pois, Estação Central, publicado pela Assírio & Alvim.


A ronda dos eleitos

Como artesãos vivem em suas oficinas
para aperfeiçoar os ofícios
Apanharam pedras e atiram-nas longe
em silêncio sempre na mesma direcção

Os seus cântaros regam o infortúnio
a semente que caiu à beira do caminho
o som vazio do vento
as poças de água onde, às vezes, um peixe se debate

Para si mesmos repetem:
salvam-se apenas os que recusam tudo
até mesmo a salvação

( 2ª edição) p. 34.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

In memoriam Charles Péguy

Expresso, Lisboa, 31 maio 2014 

L'ESPÉRANCE

La foi que j’aime le mieux, dit Dieu, c’est l’ Espérance.

La Foi ça ne m’étonne pas.
Ce n’est pas étonnant.
J’éclate tellement dans ma création.

La Charité, dit Dieu, ça ne m’étonne pas.
Ça n’est pas étonnant. Ces pauvres créatures sont si malheureuses qu’à moins d’avoir un cœur de pierre, comment n’auraient-elles point charité les unes des autres.

Ce qui m’étonne, dit Dieu, c’est l’ Espérance.
Et je n’en reviens pas.

L’Espérance est une toute petite fille de rien du tout.
Qui est venue au monde le jour de Noël de l’année dernière.

C’est cette petite fille de rien du tout.
Elle seule, portant les autres, qui traversa les mondes révolus.

La Foi va de soi.
La Charité va malheureusement de soi.
Mais l’ Espérance ne va pas de soi. L’Espérance ne va pas toute seule.
Pour espérer, mon enfant, il faut être bienheureux, il faut avoir obtenu,
reçu une grande grâce.

La Foi voit ce qui est.
La Charité aime ce qui est.
L’Espérance voit ce qui n’est pas encore et qui sera.
Elle aime ce qui n’est pas encore et qui sera.

Sur le chemin montant, sablonneux, malaisé.
Sur la route montante.
Traînée, pendue aux bras de des grandes sœurs,
qui la tiennent par la main,
La petite espérance s’avance.
Et au milieu de ses deux grandes sœurs elle a l’air de se laisser traîner.
Comme une enfant qui n’aurait pas la force de marcher.
Et qu’on traînerait sur cette route malgré elle.
Et en réalité c’est elle qui fait marcher les deux autres.
Et qui les traîne, et qui fait marcher le monde.
Et qui le traîne.
Car on ne travaille jamais que pour les enfants.

Et les deux grandes ne marchent que pour la petite.

Charles Péguy


terça-feira, 17 de junho de 2014

Pensamento ( s )



(...) A vida é o que permanece, apesar de tudo : a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma : o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.
Não se trata apenas de viver o instante, tarefa inútil, pois a vida é duração. Aquilo que nos é dado dura, e nós dentro dele, com ele, por ele. Não é a flor do instante que nos perfuma, mas o presente eterno do que dura e passa, do que dura e não passa.
E quando é que chega a hora da felicidade?, perguntamo-nos. Chega nesses momentos de graça em que não esperamos nada. Como ensina o magnífico dito de Angelus Silesius, o místico alemão do século XVII : " A rosa é sem porquê, floresce por florescer / Não se preocupa consigo, não pretende nada ser vista ".

- José Tolentino de Mendonça, no Expresso do passado Sábado.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pensamento ( s )

Barnett Newman, Midnight Blue, 1970.

(...) Se perguntarmos hoje a um miúdo que cor tem o céu, o mais plausível é ouvirmos " azul ". Mas nem sempre foi assim. Mestres indiscutíveis do espírito ocidental como Aristóteles, Lucrécio ou Séneca descreviam o céu como sendo vermelho, amarelo, violeta, verde, laranja. Era desse modo que o observavam, aplicando aí o rigor analítico que lhes reconhecemos. O que só adensa o enigma. Nenhum deles menciona o que depois para nós se tornou óbvio. Isso leva o historiador das cores, Michel Pastoreau, a interrogar se os homens e mulheres da Antiguidade chegaram a ver o azul, ou se alguma vez o viram como nós o vemos. Uma coisa parece certa : as cores não são apenas fenómenos naturais, são também fruto de uma construção humana e cultural complexa. O azul que esteve diante dos olhos de Aristóteles e que ele não contemplou faz-nos pensar naquilo que está hoje patente e acessível a nosso lado, sem que nos demos conta. Pela vida fora há, por isso, uma humilde dúvida que temos de conservar : que cor tem o céu que não chegamos a ver ?

- José Tolentino Mendonça, no Expresso do passado sábado.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Citações



(...) Tabacaria é o título do mais belo poema português escrito no século XX, mas confesso que pensava que as tabacarias - esses espaços sem metafísica - eram um ícone mental do passado. No ano da graça do Senhor de 2013 não é assim. À medida que endurece a crise, as tabacarias voltam a apinhar-se de gente, como se fossem o salva-vidas disponível em toda a extensão do naufrágio. Entrar hoje numa tabacaria é arriscar-se ao que diz o verso de Pessoa : " Ver a realidade cair de repente em cima de nós. "

- José Tolentino Mendonça, in O Ano do Pensamento Mágico, no Expresso do passado sábado.