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quinta-feira, 7 de maio de 2020

Poemas - 103


Carta de amor numa pandemia vírica
Gaitas-de-fole tocadas na Escócia
Tenores cantam das varandas em Itália
Os mortos não os ouvirão
E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio
Quem pretendem animar?
As crianças?
Mas as crianças também estão a morrer

Na minha circunstância
Posso morrer
Perguntando-me se vos irei ver de novo
Mas antes de morrer
Quero que saibam
O quanto gosto de vós
O quanto me preocupo convosco
O quanto recordo os momentos partilhados e
queridos
Momentos então
Eternidades agora
Poesia
Riso
O sol-pôr 
no mar
A pena que a gaivota levou à nossa mesa
Pequeno-almoço
Botões de punho de oiro
A magnólia
O hospital
Meias, pijamas e outras coisas acauteladas
Tudo momentos então
Eternidades agora
Porque posso morrer e vós tereis de viver
Na vossa vida a esperança da minha duração


A despedida de Maria de Sousa aos seus próximos, escrito no hospital, e publicado no JL.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Poemas - 102


Uma mulher ergue-se e resiste
( nos 90 anos de Fernanda Montenegro )


Uma mulher ergue-se e serenamente resiste.

É sua a face da justiça, a guarda dos direitos,

das cinzas dos irmãos,da paga dos humildes

ou da íntegra palavra face aos gritos arrogantes

da estupidez mais vil.


Uma mulher só defende a dignidade

não apenas de um povo, mas de todos

que defendemos a limpidez e a decência

e do mundo queremos a sua grandeza

e não o seu fedor .



Andava há muito tempo para publicar este inédito de Luís Filipe Castro Mendes  ( via JL ), só agora  reencontrei a folha de jornal perdida. Infelizmente continua actual ...


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Poemas - 101



Procuras um país no teu país
que não existe nem existiu nunca.
O rosto com que fita o teu país
é uma face feita rocha adunca

a tirar-nos da terra, não esqueças:
" o meu país é o que o mar não quis ";
e vê a aridez, que pede meças
à meseta deserta de Madrid !

Pois da Europa assim fomos dizendo:
" o rosto com que fita é Portugal".
Mas o mar, por temível e tremendo,
era mesmo assim o nosso igual.

Agora fita a Boca do Inferno,
vem meditar no Portugal moderno!


- Luís Filipe de Castro Mendes, Boca do Inferno ( com versos de Ruy Belo e Fernando Pessoa ), in Outro Ulisses Regressa a Casa, Assírio&Alvim, fevereiro de 2016.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Poemas - 99


Ser português é como ser aborígene ou americano
Posso comer bacalhau com batatas a murro em qualquer lugar
Camões e Pessoa em todas as línguas tal como Rilke e Confúcio
O Português só me une aos mortos da literatura

Vou neste canto por uma questão de inércia climática
Nunca estou cá - Isto já não é a cidade das igrejas e quartéis
É um cenário intermitente onde vivo separadamente - vou ao super
comprar chocolate belga e vinho chileno

Já não tenho inimigos nem sarracenos nem chinos como o Pinto
Nem os Portugueses me incomodam mas classes de comportamentos
grosseiros em que não são os piores - Por isso vivo aqui
com os livros e discos iguais em toda a parte


- Nuno Féliz da Costa, a cultura é um marcador turístico, in O desfazer das coisas e as coisas já desfeitas, Companhia das Ilhas, 2015.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Poemas



Os homens aos quarenta
aprendem a fechar muito devagar
as portas dos quartos a que
não regressam.

Descansam no patamar das escadas
e sentem que elas se movem
como o convés de um navio,
embora quase não sopre um vento.

Vislumbram
ao fundo de um espelho
o rosto do rapaz que em segredo tenta
fazer a gravata do pai.

E o rosto desse pai
ainda quente com o mistério da espuma.
Agora eles mesmos já são mais pais do que
filhos.
Alguma coisa os preenche, algo

que se parece com o som dos grilos
ao crepúsculo, imenso,
enchendo os bosques que ficam aos pés da 
ladeira
e detrás das casas hipotecadas.

- Pedro Mexia , Os homens aos quarenta , in Uma vez que tudo se perdeu, Tinta da China, 2015 .


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Poemas

La main tenant la rampe
et le soleil d'hiver dorant les murs

le soleil froid dorant les chambres fermées

la gratitude envers l'herbe des tombes
envers les rares gestes de bonté

et toutes les roses éparses des nuages
les braises laineuses des nuages
éparpillées avant que la nuit ne tombe

- Philippe Jaccottet ( 1925 - ), in Ce peu de bruits, 2008 .


O terceiro poeta a entrar ainda vivo na Bibliothèque de La Pléiade, depois de Saint-John Perse e René Char.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Poemas - 89



Não recebo correspondência meu amor
o meu amor não é correspondido
ao contrário do âmbar e do benjoim

- Adília Lopes, in Dobra/ Poesia Reunida - 1985-2007.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Poemas - 88


Denis van Alsloot, Paisagem de Inverno, óleo sobre madeira.


Elegia

Regressa neste inverno o tempo exausto
de outros invernos. Rostos submersos
sorriem e emergem devagar
do frio rio dos versos

Olha bem para eles Reconheces
o que resta de ti
nos seus olhos intactos flutuando
no espelho desse rio A tua vida
reflui nessas imagens
nos seus reflexos líquidos que movem
as tuas ilusões  Respira fundo
absorve a luz do sol
nesta manhã " de inúteis agonias "
e vê que meio século é muito pouco
desde o primeiro dia

Rompe de novo a sombra desses anos
a membrana translúcida do tempo

Talvez ainda saibas mergulhar
no mesmo rio de sempre
e no entanto é cada vez mais fria
a água do passado

- Fernando Pinto do Amaral, in Relâmpago # 27, Outubro de 2010.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Poemas - 86


MEMENTO MORI

                                        Death is not in life
                                         ( Wittgenstein )

Eu vi morrer três pessoas:
a uma acompanhei até ao fim,
no que seria talvez o que lhe restava da vida
ou porventura o que lhe sobrava de morte;
outra morreu quando eu dormia,
longe do hospital:
e tive que atravessar pela madrugada
uma cidade estrangeira
para chegar à sua morte;
e meu Pai, enquanto eu ia
comprar-lhe uma garrafa de oxigénio;
que nunca soube a quem serviu depois.

Nós nunca vemos ninguém morrer,
porque morrer é por dentro de cada um,
como talvez tudo o que tenha algum sentido,
como talvez o amor.

O que verdadeiramente importa
é opaco ao nosso olhar
e cada prova que vivemos
é só e única:
morrer ou ver morrer

e o amor também.


- Luís Filipe de Castro Mendes, na Relâmpago # 27, Outubro de 2010


( Na morte de Doris Lessing )

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Poemas - 85



" Como se explica, Hípias, que os antigos sábios
Todos se tenham afastado dos negócios públicos? "
Perguntei, porque também eu calei
A minha voz pública de outrora. Cidade,
Perdoa-me a ausência e o rancor,
Perdoa que a minha voz agora
Não nomeie  os teus cais de embarque,
A dor, a miséria, a cúpida opressão.
Ainda amo, neste exílio de paz, a mesma Paz .
Sábia, não sou. Calei-me porque
as memórias minhas e a voz sozinha
também pertencem ao Todo, em harmonia.
Ainda amo a pátria, feita de lugares, parentes,
dos próximos, e do vento, meu semelhante.

- Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Poemas - 84

   ( Bernardo Strozzi, O tocador de alaúde, 1635, Kunsthistorisches Museum, Viena )


Trahison fidèle

Tu as écrit : " Me voici, fidèle à l' écho de ta voix,
taciturne, inexprimé. " Je sais ton âme tendue
juste au gré des soies chantantes de mon luth:

C'est pour toi seul que je joue.

Écoute en abandon et le son et l'ombre du son dans
la conque de la mer où tout plonge. Ne dis pas qu' il se
pourrait qu'un jour tu entendisses moins délicatement!

Ne le dis pas. Car j'affirme alors, détourné de toi,
chercher ailleurs qu' en toi-même le repons révélé
par toi. Et j'irai, criant aux quatre espaces:

Tu m'as entendu, tu m'as connu, je ne puis pas
vivre dans le silence. Même auprès de cet autre
que voici, c'est encore,

C est pour toi seul que je joue.


- Victor Segalen, in Stéles, 1912.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Poemas - 83



         O mar já não é o mar.
         O azul já não é tão azul.
         Os olhos têm mais sede de ternura.

         O corpo já não é o meu corpo.
         O rosto já só é o teu rosto.
         A ilha, essa escrevo-a só para ti.


       - Maria Carlos Loureiro, in Acasos e Mistérios, Quetzal Editores, Lisboa, 1998.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Poemas - 82


Nas docas

Estacionámos o carro junto às docas
e percorremos a pé os poucos metros
que nos separavam do conjunto de mesas
e guarda-sóis dos cafés.

Era a terceira vez que ali estávamos os dois.

Por acaso, foi a última.
O nosso caso acabou meses depois.
O mistério desaparecera, porque tudo
o que é rotineiro tem a particularidade da evidência.
« Agora vais dizer isto; depois, certamente dirás aquilo ».

Rotina por rotina, cada um prefere a sua.


- Maria Carlos Loureiro, in Acasos e Mistérios, Quetzal Editores, Lisboa, 1998, p.35.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Poemas - 80



Somos o mesmo sangue, querias tu dizer,
e bebias o sumo sem uma palavra.
Um sangue que devia revoltar-se contra o tempo
e escorria das ampolas bebíveis,
ampulhetas sinistras,
quebradas pelos meus dedos.

- Armando Silva Carvalho ( 1938 ) , in De Amore.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Poemas - 79



Princípio

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só é preciso saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
de amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

- Nuno Júdice, in 366 poemas que falam de amor.

domingo, 26 de maio de 2013

Poemas - 78


Augusta Ludwig ( 1834-1901 ), O bolo de aniversário, óleo sobre tela.


A idade não nos despoja,
cumula-nos como coisas:

há cada vez
            mais retratos,
cartas e livros por ler,
flores negras, frutos brancos,
sombras em quartos soalheiros,

mais discos e luz insones
a pedir sono e mãos próximas,

mais punhais
         mais insidiosos

contra corações
        mais plenos.


- José Bento ( 1932 ), in Alguns Motetos.


Especialmente para o APS neste seu aniversário, com votos de um dia, e já agora o resto do ano, muito bem passado.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Poemas - 77


Rosa dentro da rosa dentro da rosa
azulejo iluminura filigrana
joelhos nuca sovacos unhas
não quero quebrar
o dom de estar viva
a doçura dos mistérios
o dom do teu corpo
o teu cheiro a tua voz
o teu olhar o teu sorriso
as minhas lembranças de ti
beijo repetidas vezes
a tua boca fechada
estás debruçado sobre mim
e sorris-me
somos bons um para o outro
posso ter filhos de ti
sabemos isso

- Adília Lopes ( 1960 ), Dobra ( Poesia Reunida 1983-2007 )

domingo, 19 de maio de 2013

Poemas - 76



Teatro da Boneca de Carlos Queiroz, por Nuno Miguel Henriques. Queiroz, poeta injustamente esquecido, é hoje homenageado no CCB com a apresentação de um livro e a inauguração de uma exposição.