Então, aí vai: acabado, recentemente, "Imagens Imaginadas" (capa interessante com base numa pintura de Pedro Chorão), de Pedro Mexia, tenho alternado entre "O Coração Aventuroso", de Ernst Jünger, e de George Steiner: "Tolstoi e Dostoievski". Um bom Domingo.
(...) No prefácio a " Je me suis beaucoup promené " ( 1995 ), que inclui duas jubilosas visitas a Portugal, Déon sugere que a viagem é a ocupação natural de um céptico. Um céptico não tem de ser um eremita : se anda pelo mundo é para o conhecer bem, para o gozar enquanto pode e depois para lhe escrever um obituário memorável. - Pedro Mexia, no Expresso do passado Sábado.
Os homens aos quarenta aprendem a fechar muito devagar as portas dos quartos a que não regressam. Descansam no patamar das escadas e sentem que elas se movem como o convés de um navio, embora quase não sopre um vento. Vislumbram ao fundo de um espelho o rosto do rapaz que em segredo tenta fazer a gravata do pai. E o rosto desse pai ainda quente com o mistério da espuma. Agora eles mesmos já são mais pais do que filhos. Alguma coisa os preenche, algo que se parece com o som dos grilos ao crepúsculo, imenso, enchendo os bosques que ficam aos pés da ladeira e detrás das casas hipotecadas. - Pedro Mexia , Os homens aos quarenta , in Uma vez que tudo se perdeu, Tinta da China, 2015 .
(...) a amizade, mesmo entre iguais, aceita a diferença, a dissensão e a liberdade do outro. Não sou menos amigo das pessoas de quem discordo. E algumas manifestações de amizade mais consistentes que conheço consistem em deixar alguém em paz, deixá-lo ser quem é, às vezes sozinho, em solidão temporária e benéfica. Não ter amigos, não ter amigos nunca, leva ao fechamento, à incivilidade, à insanidade . Mas há amizades que são também formas de solidão. Amizades sem empatia, isto é, sem a tentativa de entendermos aquilo que nunca experimentámos. Amizades sem confidencialidade, que são formas de perfídia. Amizades inclementes como julgamentos sumaríssimos. Ou um amigo que diz mal de nós em público, ou fica calado quando nos ofendem. Um amigo que é um inimigo. Creio que a sensatez demasiado optimista de Aristóteles pode ser completada por quatro observações. Uma é do próprio Estagirita : " Ó amigos, não há amigo ", exclamação que entendo como uma profissão de fé nominalista. A segunda é de Cícero, que garante que a amizade " nunca é extemporânea, nunca é um obstáculo ", definição absolutamente exacta e espantosa. A seguinte de Montaigne, que explicou a sua amizade por La Boétie com um sucinto e não-intelectual " porque era ele, porque era eu " . E a quarta é um apontamento de Grayling, que também me ocorreu com frequência : o facto de dizermos sempre " um amigo meu ", em vez de " um amigo ". Esse " meu ", que parece desnecessário, é na verdade indispensável . Tenho amigos ou sou amigo quando a redundância é evidente : eu sou amigo deles, e eles meus amigos. - É do Pedro Mexia, publicado no Expresso do passado Sábado, este texto que é um dos mais belos sobre a amizade que li nos últimos tempos. Tinha de o trazer aqui :)
( Foto da abdicação de ontem, por Juan Medina / Reuters )
(...) Conhecemos o que se passou recentemente, os escândalos financeiros, as sucessivas operações, os casos amorosos, as caçadas, o pedido de desculpa. Mas o rei, durante décadas, foi útil ao seu país e enfrentou adversários perigosos, como o terrorismo ou o nacionalismo. Mesmo os não-espanhóis e os não-monárquicos devem estar " agradecidos " ( a expressão é de Javier Cercas ), porque o rei demonstrou coragem e prestou um serviço; tal como prestou um serviço agora, abdicando, quando percebeu enfim que tinha perdido a estima do seu povo. Uma monarquia ou tem legitimidade popular ou é um arcaísmo imprestável. Juan Carlos salvou a Espanha e tornou os espanhóis em " juan-carlistas "; se agora salvou a monarquia, veremos. Javier Cercas, republicano e de esquerda, lembrou que isso não é o essencial : mais vale viver numa monarquia como a sueca do que numa república como a síria. - Pedro Mexia, no Expresso do passado Sábado.
(...) O doutor Guillotin distinguiu-se no combate à raiva e à varíola, na defesa da higiene e salubridade, nos planos de saúde pública e na criação de hospitais e faculdades. E quis também tornar a morte mais " doce " e " equitativa ". Amigo de Benjamin Franklin e de Lavoisier, era um homem estudioso, tímido, moderado, cerimonioso, culto, leitor dos Enciclopedistas. Tentou ser um benemérito. Mas ficou associado a um invento macabro, que matou gente até 1977. As boas intenções são muitas vezes uma tragédia. - Pedro Mexia, no Expresso do passado sábado.