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domingo, 26 de maio de 2013

Poemas - 78


Augusta Ludwig ( 1834-1901 ), O bolo de aniversário, óleo sobre tela.


A idade não nos despoja,
cumula-nos como coisas:

há cada vez
            mais retratos,
cartas e livros por ler,
flores negras, frutos brancos,
sombras em quartos soalheiros,

mais discos e luz insones
a pedir sono e mãos próximas,

mais punhais
         mais insidiosos

contra corações
        mais plenos.


- José Bento ( 1932 ), in Alguns Motetos.


Especialmente para o APS neste seu aniversário, com votos de um dia, e já agora o resto do ano, muito bem passado.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

1939 - "O Feiticeiro de Oz"/"The Wizard of Oz" hoje às 19:30 no São Jorge em Lisboa


"When I first saw The Wizard of Oz it made a writer of me", Salman Rushdie

A primeira aventura da MGM em "Glorious Technicolor", imortalizada por uma vasta iconografia desde Judy Garland e "Over the Rainbow" (a canção que esteve eliminada por ser supérflua e veio a ser considerada a melhor canção de sempre do cinema pelo American Film Institute), ao espantalho (que queria um cérebro), ou o homem de lata (que queria um coração), ou o leão cobarde (que queria coragem), a "there's no place like home", passando por sapatos de rubi, a bruxa verde e má, "I think we're not in Kansas anymore", Munchkins, uma "yellow brick road", papoilas soporíferas, tornados, "tigers and lions and bears", ...



Enredo

A jovem Dorothy Gale (Judy Garland) vive com os tios numa quinta no Kansas, sonhando com um lugar "para lá do arco-íris". Um tornado atinge a casa e Dorothy vê-se (juntamente com a casa e o seu cão Toto) transportada para num mundo de fantasia chamado Oz, aterrando literalmente em cima da temível Bruxa Má do Leste. Querendo regressar a casa, é aconselhada pela Bruxa Boa do Norte, Glinda (Billie Burke) a seguir a estrada dos tijolos amarelos para se dirigir à Cidade Esmeralda, onde o Feiticeiro de Oz a poderá ajudar.

Pelo caminho, encontra um Espantalho (Ray Bolger), um Homem de Lata (Jack Haley), e um Leão Cobarde (Bert Lahr), que se lhe juntam com as suas esperanças específicas (respectivamente, obter um cérebro, um coração e coragem). A viagem é atribulada, com Dorothy a ser alvo de perseguição por parte da Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton) que quer recuperar os sapatos de rubi da sua irmã, que Glinda lhe oferecera.

Apesar das dificuldades, Dorothy chega à Cidade Esmeralda, onde se defronta com o poderoso Feiticeiro de Oz (Frank Morgan)...


Notas de Produção

Todas as cenas em Oz foram filmadas em 3-strip Technicolor ("Glorious Technicolor!"; as cenas passadas no Kansas são a preto e branco (sépia). Louis B. Mayer tinha resistido à modernice da cor, apenas cedendo a experimentar o novo meio depois do enorme sucesso financeiro de "A Branca de Neve e os Sete Anões", dois anos antes.

O argumento baseia-se nas aventuras escritas por Frank L. Baum, e contou com inúmeras versões e contribuidores; aliás, é um filme de múltiplas contribuições e substituições: o Homem de Lata originalmente era Ray Bolger, que pediu para ser o Espantalho; o candidato seguinte foi Buddy Ebsen, que sofreu uma violenta alergia ao pó de alumínio e teve que ser hospitalizado, sendo substituído por Jack Haley; a bruxa má era originalmente Gale Sondergaard -- não querendo fazer um papel que exigia que parecesse feia, foi substituída por Margaret Hamilton. Também a realização teve vários timoneiros: Norman Taurog foi o primeiro homem do leme, sendo substituído ao fim de algumas semanas por Richard Thorpe. Também este foi considerado pouco adequado e entra em cena George Cukor, mas apenas por alguns dias: dado o compromisso de que iria filmar "E Tudo o Vento Levou", é substituído por Victor Fleming (que foi quem acabou por filmar o épico sulista) e este é finalmente substituído por King Vidor para filmar as cenas finais de "O Feiticeiro de Oz".

As filmagens decorreram de Outubro de 1938 a Março de 1939, marcadas por múltiplas dificuldades. Para além da dança das cadeiras na realização, encontrar mais de cem actores para interpretarem os diminutos Munchkins não foi fácil, nem aplicar maquilhagem a tão vasto elenco; as cenas perigosas fizeram vítimas, incluindo queimaduras graves em Margaret Hamilton.

A pós-produção foi lenta e obteve um produto final com cerca de duas horas -- depois de vários testes de audiência, cortaram-se números de dança e reprises musicais. Uma das canções que esteve quase a não constar do filme foi "Over the Rainbow". Os produtores consideravam que as cenas no Kansas já estavam muito longas e o que interessava era manter as cenas a cores (além de que era degradante ter Judy Garland a cantar... num celeiro). No final, a intervenção de Victor Fleming e dos produtores Mervyn LeRoy e Arthur Freed fez com que a canção permanecesse.



Reacções

O filme foi um sucesso moderado, conseguindo um pequeno lucro face aos custos de produção (na altura, USD 3 milhões de receitas contra USD 2.8 milhões de custos). Só quando se fez a reedição em 1949 é que os lucros dispararam.

O filme passou a integrar grande número de Top 10 Best Movies, tendo a sua iconografia entrado no dia-a-dia.

O filme foi considerado "culturally significant" pela Biblioteca do Congresso dos EUA, que o seleccionou para preservação no National Film Registry em 1989. Em 1998, o AFI considerou-o o 6º melhor filme americano de sempre. Em Junho de 2007, a UNESCO seleccionou o fime para integrar o Memory of the World Register. Em Junho de 2008, o AFI considerou-o o melhor filme americano na categoria de Fantasy.

A canção "Over the Rainbow" conquistou o Óscar para Melhor Canção, tendo sido considerada em 2004 a melhor canção de sempre do cinema pelo American Film Institute. A banda sonora também conquistou o Óscar de 1939. A banda sonora foi considerada a melhor de sempre pelo "The Observer".

O recipiente do prémio Booker of Bookers, Salman Rushdie, escreveu para o British Film Institute um ensaio sobre o filme e a sua influência na cultura popular em que interpreta a força das crianças na resolução de problemas face à incapacidade dos adultos que me pareceu muito inteligente.

Judy Garland conquistou o Óscar para Melhor Actriz ou Actor Juvenil.

Três citações mereceram eleição no "AFI's 100 Years…100 Movie Quotes" em 2005:
- "Toto, I have a feeling we're not in Kansas anymore" (4ª)
- "There's no place like home" (23ª)
- "I'll get you, my pretty, and your little dog, too" (99ª)

Os sapatos de rubi também fizeram história: em 1970, num leilão da MGM, um par vendeu-se por USD 15.000. Outro leilão, em 2000, obteve USD 666.000. Mais recentemente, um par foi furtado do Judy Garland Museum, em Minnesota.

A 23 de Setembro de 2009, vários cinemas nos EUA exibiram o filme em homenagem ao seu 70º aniversário, numa versão de alta definição. O Cinema São Jorge, em Lisboa, exibe hoje o filme às 19:30 -- desconheço a versão.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

1939 – “Vitória Negra” / “Dark Victory”

Bette Davis afirmou em tempos que o seu papel em “Vitória Negra” foi o que mais gostou de interpretar.

Enredo

Judith Traherne (Bette Davis), uma herdeira norte-americana mimada de Long Island, divide o seu tempo entre os seus cavalos (Humphrey Bogart é o mestre dos estábulos) e festas sociais (um dos seus amigos é interpretado por um jovem Ronald Reagan). Começa a ter dores de cabeça fortes e tonturas, que a levam a consultar um médico, o Dr. Frederick Steele (George Brent), em vias de se dedicar exclusivamente à investigação. O veredicto é negro: Judith tem um tumor no cérebro, e terá que ser operada.

No decurso da operação, Frederick percebe que o tumor é intratável e Judith tem uma esperança de vida de menos de um ano. O fim, no entanto, será abrupto: ocorrerá rapidamente após uma perda total da visão.

Para lhe permitir mais alguns meses de felicidade, esconde os resultados: anuncia que a operação foi um sucesso. Apenas a melhor amiga de Judith, Ann (Geraldine Fitzgerald) descobre a verdade, mas aceita manter-se em silêncio. A relação entre médico e paciente evolui para o campo amoroso, e Judith e Frederick decidem casar, com este último numa busca incessante de novos tratamentos para o tumor. Arrumando papéis, Judith descobre múltiplas cartas de especialistas de todo o mundo, dando o caso como perdido. Revoltada por pensar que a decisão de casamento de Frederick se devia a piedade, cancela tudo. Reflectindo, apercebe-se de que deverá tentar passar os seus últimos meses de forma digna e ao lado do homem que ama. Pedindo desculpas a Frederick pelo seu comportamento, os dois casam e vão viver para Vermont.

Uns meses depois, Judith está no jardim a plantar flores com Ann quando comenta a estranheza de o sol estar tão quente e o céu a escurecer tão depressa… Dentro de casa, Frederick está a fazer as malas para um simpósio médico, nova tentativa de encontrar uma cura. Judith ajuda-o a fazer as malas e despede-se dele; reentra em casa, despede-se da amiga, da governanta e dos cães e sobe as escadas para o quarto.

Notas de produção

Realizado por Edmond Goulding e produzido por Hal B. Wallis, o gigante da Warner Bros., o filme é o que os americanos chamam um “tear-jerker”, ou seja, de sacar dos lenços do princípio ao fim; Graças à música de Max Steiner, podemos inclui-lo na categoria dos melodramas.

O argumento, de Casey Robinson, é baseado numa peça homónima de George Brewer e Bertram Bloch, de 1934, que fora um fracasso. David O. Selznick, havia adquirido os direitos e tentou realizar o filme com Greta Garbo em 1935, mas esta preferiu fazer “Anna Karenina”. Com a atenção completamente devotada a “E Tudo o Vento Levou”, o produtor acabou por abandonar o projecto.

Entretanto, Bette Davis insistia com Jack L. Warner para comprar os direitos do filme; o produtor resistia, achando que não havia público para ver uma mulher a cegar. As bilheteiras provaram o seu engano – veio a ser o melhor resultado de bilheteira de Bette Davis até à data. O filme marca a segunda de quatro colaborações entre Bette Davis e Edmond Goulding; marca igualmente a oitava colaboração com George Brent.

Nos bastidores, Davis sofria uma depressão pelo colapso do seu casamento, tendo pedido a Hal B. Wallis para sair do projecto alegando estar doente. O produtor terá respondido: “Já vi os rushes; continue doente!”. Em paralelo, George Brent acabava de se divorciar de Ruth Chatterton; as estrelas do filme encontraram refúgio nos braços um do outro, começando um romance que duraria mais um ano.

Reacções

O filme foi nomeado para três Óscares da Academia, nomeadamente Melhor Filme, Melhor Actriz (Bette Davis) e Melhor Banda Sonora (Max Steiner), não tendo conquistado nenhuma das estatuetas. Para Davis, foi a terceira nomeação para os Óscares em cinco anos; foi a segunda do que viriam a ser cinco nomeações consecutivas.

A crítica de cinema Pauline Kael chamou ao filme “um clássico kitsch”. O site “Rotten Tomatoes” utilizou o epíteto “Soberbo”. A “TimeOut” de Londres presenteou-o com “[Bette Davis] e [o realizador Edmund] Goulding quase transformam o novelesco em estilo; um Rolls-Royce do mundo lacrimejante.” A “Variety” chamou-lhe “drama intenso” e “uma oferta bem produzida [com] Bette Davis num papel poderoso e impressionante.”

Frank S. Nugent no “New York Times” apresentou a crítica porventura mais redonda: “Uma visão completamente cínica descartaria tudo como um desvario emocional, uma peça sem alma destinada a simplórios por um dramaturgo e afins bem versados nos usos da cegueira e outras improvisações sobre ‘A Dama das Camélias’. Mas é impossível ser-se assim tão cínico. O ambiente é demasiado pungente, os desempenhos demasiado honestos e os artesãos do filme demasiado hábeis. Miss Davis, naturalmente, dominou – e bem – o seu filme, mas Miss Fitzgerald acrescenta um retrato sensível e tocante da amiga e George Brent, como o cirurgião é – atrevemo-nos? – surpreendentemente contido e maduro. Desta vez temos de correr o risco de nos chamarem "softy": não despacharemos “Vitória Negra” com um esgar auto-defensivo”.

70 anos do “Annus Mirabilis” de Hollywood


No meio cinéfilo (e porventura cinematográfico), 1939 é conhecido não como o ano que marcou o início da Segunda Guerra Mundial, mas como o “Annus Mirabilis” do cinema: os filmes desse ano ficaram na história e granjearam um prestígio para a indústria que não se repetiu até hoje.

Em Nova Iorque, a Academia (Academy of Motion Picture Arts and Sciences) tem em exibição “Hollywood’s Greatest Year: The Best Picture Nominees of 1939”. Nesse ano, como aliás vai voltar a acontecer em 2010, houve 10 nomeados para o Óscar de Melhor Filme.

O objectivo é recordar alguns desses grandes filmes, uns nomeados para prémios outros não, umas duas dúzias, como se de ovos se tratasse:
1. “E Tudo o Vento Levou”, de David O. Selznick (se houve filme de produtor e não de realizador, foi este), baseado no romance épico de Margaret Mitchell;
2. “Mulheres” / “The Women”, de George Cukor, o realizador de mulheres – por definição e excelência neste filme;
3. “O Feiticeiro de Oz”, a primeira extravagância Technicolor da MGM, com Judy Garland;
4. “Cavalgada Heróica” / “Stagecoach”, de John Ford, com John Wayne;
5. “Vitória Negra” / “Dark Victory”, com Bette Davis num dos seus maiores sucessos de bilheteira;
6. “Ninotchka” – “Garbo laughs!
7. “O Patinho Feio”, de Walt Disney, Óscar de Melhor Filme de Animação;
8. “O Monte dos Vendavais” / “Wuthering Heights”, de William Wyler (outra obra de produtor, desta feita Samuel Goldwyn);
9. “O Bailado da Saudade” / “The Story of Vernon and Irene Castle”, a última aparição de Fred Astaire e Ginger Rogers em “glorious black & white”;
10. “Peço a Palavra” / “Mr. Smith Goes to Washington”, com Jimmy Stewart sob a batuta de Frank Capra;
11. “A Pousada da Jamaica”, de Alfred Hitchcock, baseado no romance de Daphne du Maurier;
12. “Intermezzo”, o primeiro filme de Ingrid Bergman na América;
13. “Gunga Din”, com Cary Grant;
14. “Adeus Mr. Chips” / “Goodbye Mr. Chips”, com Robert Donat (que venceu o Óscar de Melhor Actor);
15. “Paixão Mais Forte” / “Golden Boy”, que introduziu William Holden, ao lado de Barbara Stanwyck;
16. “Vida Nova” / “Dodge City”, o western com Errol Flynn e Olivia de Havilland;
17. “A Cidade Turbulenta” / “Destry Rides Again”, com Marlene Dietrich e James Stewart;
18. “Beau Geste”, Gary Cooper
19. “De Braço Dado” / “Babes in Arms”, de Busby Berkeley e com Mickey Rooney e Judy Garland;
20. “A Ama Velha” / “The Old Maid”, com as rivais Bette Davis e Miriam Hopkins;
21. “Paraíso Infernal” / “Only Angels Have Wings”, de Howard Hawks;
22. “Heróis Esquecidos” / “The Roaring Twenties”, com James Cagney e Humphrey Bogart;
23. “Sons of Liberty”, um short com Claude Rains e Gale Sondergaard, que venceria o Óscar para Melhor Curta-Metragem (duas bobines);
24. “União de Aço” / “Union Pacific”, de Cecil B. De Mille.

Excessivo? Para quem pensou “bem, esta lista deve incluir todos os filmes feitos em Hollywood neste ano”, ficam a faltar vários filmes de grande êxito neste ano: “Jesse James”, com Tyrone Power e Henry Fonda, novamente Fonda em “A Grande Esperança”, de John Ford, fazendo de Abraham Lincoln, “The Rains Came”, com Charles Laughton e Myrna Loy, “Juarez”, com Paul Muni e Bette Davis, “Isabel de Inglaterra”/“The Private Lives of Elizabeth and Essex”, novamente Davis, desta vez com Errol Flynn, “Tarzan Finds a Son”, com Johnny Weissmuller, “Another Thin Man”, nova deliciosa comédia de Nick & Nora, com William Powell e Myrna Loy, “Old Glory”, da Warner, dois dos nomeados para Melhor Filme (“Of Mice and Men” e “Love Affair”)… enfim, “a dream factory” esteve em plena utilização!

Além disso, esta lista restringe-se apenas a Hollywood ; se incluísse os filmes do resto do mundo, haveria que acrescentar os filmes de “O Santo” com George Sanders, “A História dos Crisântemos Tardios”, de Mizoguchi, “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir, “O Espia Negro”, de Michael Powell com Conrad Veidt, …