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domingo, 26 de maio de 2013

Poemas - 78


Augusta Ludwig ( 1834-1901 ), O bolo de aniversário, óleo sobre tela.


A idade não nos despoja,
cumula-nos como coisas:

há cada vez
            mais retratos,
cartas e livros por ler,
flores negras, frutos brancos,
sombras em quartos soalheiros,

mais discos e luz insones
a pedir sono e mãos próximas,

mais punhais
         mais insidiosos

contra corações
        mais plenos.


- José Bento ( 1932 ), in Alguns Motetos.


Especialmente para o APS neste seu aniversário, com votos de um dia, e já agora o resto do ano, muito bem passado.

domingo, 22 de agosto de 2010

Praias de Portugal - 6

Hoje estou em Cascais. Há meses que não vinha cá.






Em frente a Av. Federico Ulrich (actual Av. 25 de Abril) que vai para o Guincho.

Hotel Baía.

Praia dos Pescadores.



Câmara Municipal.


Av. Emídio Navarro.

Museu Conde Castro Guimarães.



Boca do Inferno.

«Cascais é o chão em que o Sol encontra o último sabor da Terra, onde jogará sombras arrastadas.
«Posso ainda chamar dia a esta luz que se refugia sobre Cascais? - cercando as casas, estreitando as ruas [...]. Com esta pergunta, vou-me embrenhando em ruelas e becos que desconheço, sem uma resposta: ergo a cabeça e vejo o céu prender ainda um azul meridional que não consente estrelas, a meu lado vão-se acendendo janelas que me mostram interiores calmos [...].
«Nos rochedos vão acordando os faróis: Santa Marta, Guia, Guincho. Ao longe, o do Cabo Espichel.»
José Bento
In: Diário de Lisboa, 29 Dez. 1960

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Fim de tarde


Joaquín Sorolla y Bastida - Instantâneo, Biarritz, 1906


Joaquín Sorolla y Bastida - Paseo a Orillas del Mar, 1909
X
SOLIDÃO

Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!
Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.
És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!
X
Juan Ramón Jimenez
In: Antologia poética / trad. José Bento. Lisboa: Relógio d'Água, 1992, p. 82

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

TARDE


P.S. Krøyer (1851-1909) - Tarde de Verão na praia de Skagen, 1899
A pintura representa o artista e a mulher.
Copenhaga, Den Hirschsprungske Samling
x
TARDE
x
Cada minuto deste ouro
não é toda a eternidade?
x
Embala-o a brisa pura
sem pressa, como se já
fosse todo o ouro que
tivesse que compassar.
x
- Ramos últimos, divinos,
imateriais, em paz;
ondas do mar infinito
de uma tarde sem passar!
x
Cada minuto deste ouro
é pulsação imortal
do meu coração, radiante
por toda a eternidade?
x
Juan Ramón Jimenez
In: Antologia poética / trad. José Bento. Lisboa: Relógio d'Água, 1992, p. 66-67

quinta-feira, 29 de julho de 2010

AMOR!


No claustro da Igreja dos Santo Quattro Coronati
Roma, 2 Jun. 2010

Todas as rosas são a mesma rosa,
amor!, a única rosa;
e tudo está contido nela,
breve imagem do mundo,
amor!, a única rosa.

Juan Jamón Jimenez
In: Antologia poética / trad. José Bento. Lisboa: Relógio d'Água, 1992, p. 124

Porque estou a reler esta antologia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Boa noite!

DEBUSSY

Minha sombra silenciosa
vai pela água da acéquia.

Na minha sombra estão as rãs
privadas das estrelas.

A sombra manda ao meu corpo
reflexos de coisas quietas.

Minha sombra vai como imenso
mosquito cor de violeta.

Cem grilos querem dourar
a luz da cana-brava.

Uma luz nasce em meu peito,
reflectido, da acéquia.

Federico García Lorca
In: Obra poética / trad. José Bento. Lisboa: Relógio d'Água, 2007, p. 169

sábado, 28 de março de 2009

Santa Teresa de Ávila

Santa Teresa de Ávila, ou Santa Teresa de Jesus, nasceu em Gotarrendura (Ávila, Espanha) a 28 de Março de 1515, tendo falecido em Alba de Tormes, a 4 de Outubro de 1582. Ficou famosa pelas suas obras místicas e pela reforma da Ordem do Carmelo.


Bernini - O êxtase de Santa Teresa, 1647-1652
Roma, Igreja Santa Maria da Vitória


VIVO SEM VIVER EM MIM

Vivo sem viver em mim
e tão alta vida espero,
que morro por não morrer
.

Vivo já fora de mim,
depois que morro de amor,
porque vivo no Senhor,
que me quis só para si.
Meu coração lhe ofereci
pondo nele este dizer:
Que morro por não morrer.
Esta divina prisão
do amor em que hoje vivo,
tornou Deus o meu cativo
e livre meu coração.
E causa em mim tal paixão
Deus meu prisioneiro ver,
que morro por não morrer.
Ai, que longa é esta vida!,
que duros estes desterros!,
esta prisão, estes ferros
em que a alma está metida!
Só esperar a saída
causa em mim tanto sofrer,
que morro por não morrer.
Ai, que vida tão amarga,
Sem se gozar o Senhor!,
Porque, se é doce o amor,
Não é a esperança larga.
tire-me Deus esta carga,
pesada a mais não poder,
que morro por não morrer.
Somente com a confiança
vivo de que hei-de morrer,
porque, morrendo, o viver
me assegura minha esp’rança.
Oh morte que a vida alcança,
não tardes em me aparecer,
que morro por não morrer.
Olha que o amor é forte:
vida, não sejas molesta;
pra ganhar-te só te resta
perder-te, sem que me importe.
Venha já a doce morte,
venha já ela a correr,
que morro por não morrer.
A vida no alto activa,
que é a vida verdadeira,
até que seta não nos queira,
não se goza estando viva.
Não me sejas, morte, esquiva;
Só pla morte hei-de viver,
que morro por não morrer.
Como, vida, presenteá-lo,
o meu Deus que vive em mim,
se não perdendo-te a ti,
pra melhor poder gozá-lo?
Quero, morrendo, alcançá-lo,
pois só dele é meu querer:
que morro por não morrer.

Santa Teresa d’Ávila
In: Antologia da poesia espanhola do Siglo de Oro / trad. José Bento. Lisboa: Assírio & Alvim, 1993, vol. 1, p. 123-124

quinta-feira, 5 de março de 2009

Casa-Museu Lope de Vega, em Madrid


Traseiras da casa e pequena horta.
(Foto folheto da Casa Museo Lope de Vega)

A casa situa-se na Calle Cervantes 11, em pleno Bairro das Musas ou das Letras, de que falarei um dia destes.
Lope de Vega viveu nesta casa os últimos 25 anos da sua vida, a qual abriu ao público como Casa-Museu em 1935. O inventário do testamento do escritor e o legado de uma das suas filhas foram algumas das fontes, para além das referências existentes na sua obra, que possibilitaram dotar a casa de objectos relacionados com Lope de Vega.
Achei-a interessante. As visitas são guiadas para apenas 10 pessoas. No primeiro dia que lá fui, já não havia vaga para todo o dia.
Por caá vamos destruindo (ou deixando destruir) as que ainda restam. Mas estamos sempre a dizer: Somos um país de poetas.



O local de trabalho. Lope de Vega tinha uma biblioteca com 400 volumes.
Os que se encontram, presentemente, na sua casa não lhe pertenceram,
são da colecção da Biblioteca Nacional de Espanha.
(Foto folheto da Casa Museo Lope de Vega)

Um poema das Rimas:

Ir e ficar e com ficar partir,
partir sem alma e ir com alma alheia,
ouvir a doce voz de uma sereia
e da árvore não se poder cindir;
como uma vela atder, se consumir
erguendo torres na frágil areia;
cair de um céu, ser demo na cadeia,
e de o ser contrição jamais sentir;
falar por entre as mudas soledades,
emprestada pedir fé, mais paciência,
e a quanto é temporal chamar eterno;
crer em suspeitas e negar verdades,
é o que chamam neste mundo ausência,
fogo na alma e nesta vida inferno.

Lope de Vega
In: Antologia da poesia espanhola do «Siglo de Oro» / trad. José Bento. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, vol. 2, p. 157-158