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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

«Vá de Metro, Satanás!»


«Propus uma vez a alguém (por brincadeira, claro) que oferecesse um slogan ao Metropolitano de Lisboa. O slogan era: "Vá de Metro, Satanás!" Esta brincadeira ia-me custando o emprego.» 
Alexandre O'Neill em entrevista a Fernando Assis Pacheco. JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 6 jul. 1982.

Um trocadinho da expressão  vade retro Satana que se pode traduzir como «Retira-te, Satanás». 🤣🤣🤣
O'Neill fazes cá muita falta!

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Poemas - 103


Carta de amor numa pandemia vírica
Gaitas-de-fole tocadas na Escócia
Tenores cantam das varandas em Itália
Os mortos não os ouvirão
E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio
Quem pretendem animar?
As crianças?
Mas as crianças também estão a morrer

Na minha circunstância
Posso morrer
Perguntando-me se vos irei ver de novo
Mas antes de morrer
Quero que saibam
O quanto gosto de vós
O quanto me preocupo convosco
O quanto recordo os momentos partilhados e
queridos
Momentos então
Eternidades agora
Poesia
Riso
O sol-pôr 
no mar
A pena que a gaivota levou à nossa mesa
Pequeno-almoço
Botões de punho de oiro
A magnólia
O hospital
Meias, pijamas e outras coisas acauteladas
Tudo momentos então
Eternidades agora
Porque posso morrer e vós tereis de viver
Na vossa vida a esperança da minha duração


A despedida de Maria de Sousa aos seus próximos, escrito no hospital, e publicado no JL.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Poemas - 102


Uma mulher ergue-se e resiste
( nos 90 anos de Fernanda Montenegro )


Uma mulher ergue-se e serenamente resiste.

É sua a face da justiça, a guarda dos direitos,

das cinzas dos irmãos,da paga dos humildes

ou da íntegra palavra face aos gritos arrogantes

da estupidez mais vil.


Uma mulher só defende a dignidade

não apenas de um povo, mas de todos

que defendemos a limpidez e a decência

e do mundo queremos a sua grandeza

e não o seu fedor .



Andava há muito tempo para publicar este inédito de Luís Filipe Castro Mendes  ( via JL ), só agora  reencontrei a folha de jornal perdida. Infelizmente continua actual ...


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Leituras na quarentena - 21


Estou a ler, em papel graças aos srs carteiros , mais um número do Jornal de Letras, todo ele dedicado à pandemia que vivemos. Várias perspectivas sobre o impacto na sociedade, especialmente sobre as indústrias culturais.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Citações



(...) Escrever é sempre uma forma de estarmos presentes e de nos sentirmos vivos. Não há melhor terapia. (...)

- Marcelo Duarte Mathias, in entrevista recente ao Jornal de Letras.


Estava nas Canárias quando soube, por uma rede social, do suicídio de um amigo, uns anos mais novo que eu, sem dificuldades económicas nem problemas de saúde . Um choque total, brutal, que ensombrou estes últimos dias de Setembro. Passou a vontade de escrever, daí também a ausência nestas páginas. E, agora, voltou porque pode ser realmente uma terapia como diz o cronista e memorialista citado.

Em memória do B.C.

terça-feira, 12 de março de 2019

Afonso Cruz escreve sobre uma rua de Bagdade

JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 27 fev.-12 mar. 2019, p. 31

Até fiquei com vontade de ir a Bagdade... :)




sexta-feira, 7 de julho de 2017

Haja esperança

Na sua última crónica na coluna «Pretextos», Hélder Macedo, depois de falar nas eleições inglesas e na expressiva votação de muitos jovens, normalmente abtencionistas, refere um facto insólito ocorrido numa escola inglesa:

JL, 5 jul. 2017, p. 35

domingo, 17 de julho de 2016

Passadiços do Paiva

http://www.passadicosdopaiva.pt/ 
(A Volta ao Mundo)

Acho que podia ter pedido o título emprestado ao Luís: «Onde me apetecia estar». Aqui, a fazer este passeio de 7 km nos Passadiços do Paiva. 
Li há uns dias um artigo de Viriato Soromenho Marques sobre este local e o passeio e fiquei cheia de vontade de ir visitar esta zona. Quando estiver menos calor.
Leia mais em: http://www.passadicosdopaiva.pt/

Já agora vou colocar o artigo de Viriato Soromenho Marques (JL, 22 jun. 2016):

Arouca sustentável

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Leituras no Metro - 239

Lisboa: INCM, 2016

Estou a terminar este Essencial sobre Montaigne. Clara Rocha faz-nos uma boa introdução à vida, obra e pensamento de Montaigne.
Numa entrevista ao JL (3 fev. 2016), Clara Rocha afirmou que «Para quem estuda a questão da literatura autobiográfica, Montaigne é um autor fundamental, porque muito cedo fez do conhecimento e da representação de si o projeto não apenas de um livro, mas de uma vida: "c’est moy que je peins", diz ele na nota preambular aos Essais. A aventura que lhe preencheu os dias durante cerca de 20 anos e que fez dele um dos grandes espíritos da cultura ocidental é, em parte, a da descoberta do próprio eu. E, através dele, da singularidade irredutível de cada ser. Tão instável e diversa, tão difícil de apreender que nunca se esgota no gesto de a explorar. Montaigne usa a imagem da água que foge por entre as mãos para falar da experiência da fixação do eu na escrita. Esta é uma questão que está no cerne de toda a literatura autobiográfica.»


Hei de voltar a este livro.

domingo, 9 de agosto de 2015

«o poeta octogenário»


«24 de março [de 2015]
Uma estação de rádio acaba de noticiar a morte de Herberto Hélder, referindo-o como "o poeta octogenário". Estejamos atentos. A partir de agora os poetas portugueses deixarão de ser maus, medíocres, razoáveis,bons, muito bons ou geniais, para passarem a ser quadragenários, cinquagenários, sexagenários, septuagenários, octogenários ou, se tiverem sorte, nonagenários. Isto porque não me consta que tenha havido, alguma vez, um poeta centenário a poetar decentemente.»

Mário Cláudio
JL, Paço de Arcos, 5-18 ago. 2015

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Pensamento ( s )



(...) Estamos no grupo dos 30 ou 40 países mais ricos do mundo, com mais história, participação nas grandes evoluções, revoluções, movimentos. Mas atrás de nós existem 150 países nos quais nunca pensamos. Achamos que temos direito à ciência inglesa, à saúde sueca, aos salários holandeses e não temos nada disso ... Isto traduz-se na vida política, nas expectativas dos sindicatos, do patronato, das organizações, das empresas (...)

Fomos uma nação importante, demos novos mundos ao mundo, parecíamos uma grande potência mas na realidade nunca o fomos. É verdade que participamos no concerto das nações desenvolvidas, mas os portugueses fazem uma leitura muito narcisíca desse tempo, transpondo-o para o presente: " Já fomos grandes e agora ... " Este raciocínio tem consequências terríveis para a nossa vida quotidiana. É uma espécie de disfunção permanente.

(... ) A sociedade portuguesa não estava preparada para a crise económica porque viveu inebriada com o crédito fácil, o consumo fácil. Não percebeu que estava a ficar dependente. Mas pior que a dependência é a dívida. E quem tem dívidas que não pode pagar fica escravo.


- Excertos duma notável entrevista concedida por António Barreto ao Jornal de Letras de 1/14 de Outubro.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Futebol nas Letras - 32

Hoje é dia para apresentar os cartazes dos mundiais de futebol.

 
Cartaz de Joe Bridge

Cartaz de Roland Topor
Cartaz de Aldo Luongo
Cartaz de Guy Buffet

«Portugal só será um país habitável quando a monstruosa máquina de aturdimento e manipulação do futebol for reduzida ao que sempre deveria ter sido: um jogo qu pode empolgar alguns, mas que não tem de alienar o pensamento ou a liberdade de decidir.»
Mário de Carvalho

«Acho graça ao jogo, só que ele não pode engolir o nosso espaço cívico, o nosso interesse pela política, pela sociedade, pela leitura... Há uma euforia disparatada, promove-se um entusiasmo desbragado.»
Lídia Jorge

Cit. in JL, 11-24 jun. 2014, p. 8

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Futebol nas Letras - 31

Portinari - Futebol, 1935
Portinari - Futebol, 1958

«O futebol é o ideal de uma sociedade perfeita: poucas regras claras, simples, que garantem a liberdade e a igualdade dentro do campo, com a garantia do espaço para a competência individual.»
Mario Vargas Llosa
Cit. in JL, 11-24 jun. 2014, p. 7

sábado, 24 de maio de 2014

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Leituras no Metro - 132

O último JL, publica o prefácio que Eduardo Lourenço escreveu para a nova edição das Cartas de amor entre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós. O volume, que traz 155 novas cartas, foi organizado por Richard Zenith e vai ser publicado até final de maio pela Capivara, do Rio de Janeiro, com o título Fernando Pessoa & Ofélia Queiroz: correspondência amorosa completa (1919-1935)
Só para abrir o apetite, aqui fica o início do texto do nosso aniversariante de hoje: 
«Para os admiradores incondicionais de Pessoa, a leitura da sua correspondência com a predestinada jovem com o nome fatídico de Ofélia não é um texto como qualquer outro de Pessoa. Podemos imaginar que na sua perspetiva este episódio único do poeta da "Tabacaria" como pastor amoroso era, ou foi, tão ficcional como todos os outros que subscreveu com o seu nome ou com o dos famosos heterónimos. A esta última comédia que lhe conferiu uma aura universal designou-a ele como "drama em gente". Mais sofisticado labirinto literário não se conhece. Há mais do que a sombra dele ao menos do seu lado, nas cartas que trocou com Ofélia, vítima propiciatória da alma múltipla apostada em imitar Deus e ser como ele "tudo de todas as maneiras".
«Só que Ofélia não era um seu heterónimo mas uma jovem burguesa de Lisboa dos anos 20, que talvez nunca tenha imaginado que chamou a atenção de Pessoa por ter aquele nome mítico como destino. [...]»
Um texto luminoso! A não perder.
O livro também vai ter edição em Portugal. É desta vez que eu vou comprar uma nova edição das cartas....

Marc Chagall - Amoureux de Vence

Parabéns, Eduardo Lourenço!


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O francês


«É uma pena que atualmente em Portugal se despreze o francês e já quase ninguém o fale ou leia. Foi e é a língua de uma grande cultura, ainda hoje com um movimento editorial de um enorme vigor, em muitas áreas superior ao inglês. Agora corremos atrás da língua inglesa e de tudo o que tenha um ar de Inglaterra ou de América sem nos darmos conta d quanto nos encontramos longe da mente anglo-saxónica. Não os compreendemos plenamente e eles não nos compreendem a nós e, na verdade, tendem a tratar-nos com alguma condescendência. Os franceses não são certamente perfeitos, mas são mais "a nossa gente".»
Paulo Castilho
In: JL, 12 dez. 2012, p. 40 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Richard Zenith ao JL

Foto Jorge Simão (Expresso)

«Quando sairá a sua biografia de Pessoa?
«A verdade é que a data prevista já passou. Estou a  escrevê-la em inglês para ser publicada por uma editora americana, a Norton. Depois haverá certamente uma edição portuguesa, mas ainda não está definida.

«Já a está a escrever há algum tempo. É assim tão complicado?
«[...] Agora, estou a dizer não a todas as propostas. Já fiz muita pesquisa. Uma parte importante é contar os seus passos e tempos, onde, quando e como viveu, entre Lisboa e Durban. Interessa também a sua vida imaginativa. Ele tem um riquíssimo universo interior. Com todos os seus heterónimos, podemos ver o seu mundo como um sistema solar. E além da heteronímia, há todos os seus interesses dentro da Literatura, os géneros em que escreve, mas também a sua incessante busca espiritual ou os interesses políticos. Há um fazer constante em Pessoa. Insatisfeito com a vida tal como ela é, está sempre a projetar-se noutras realidades. O seu amor por Ofélia, por exemplo, e talvez outros, vive-os num plano literário. Transmitir isso numa biografia é difícil. Escrever a sua vida é contar a história de um homem que não parava. Mas como descobrir o seu fio narrativo?

«De todas as edições de Pessoa, qual prefere?
«Livro do Desassossego foi muito estimulante, por ser como sempre digo um não livro. Pessoa não chegou a organizá-lo e era preciso fazê-lo. Não deixa de ser um trabalho criativo tentar chegar a uma ordem possível, coerente e literária, respeitando-o. Porque tenho sempre essa preocupação. Evidentemente, não podemos acabar o que ele não acabou e temos de conservar o que é fragmentário. Mas Pessoa jamais teria publicado textos cheios de notas, pouco legíveis. Isso pode tirar o gosto da leitura, porque entre tantas notas, a poesia já não se vê. Na edição da Assírio & Alvim sempre houve essa preocupação de rigor e também a ideia do prazer da leitura. Também gostei muito de fazer Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal. É que foi um trabalho de detetive, percorrendo todo o espólio. Não havia quase nada publicado desses textos e foi preciso também fazer uma pesquisa dos factos biográficos. Cada livro que publiquei teve o seu fascínio.»

Extrato de uma entrevista de Richard Zenith a Maria Leonor Nunes (JL, 26 dez. 2012, p. 7)

sábado, 28 de julho de 2012

«um modesto 59.º lugar»

Esta crónica de Manuel Halpern no JL (25 jul. 2012, p. 39) irritou-me bastante. Começa assim: «No ranking de medalhas da história dos jogos olímpicos, Portugal ocupa um modesto 59.º lugar. Sem contar com os países recentes, na Europa, apenas a Islândia e o Luxemburgo apresentam uma classificação inferior.» 
Portugal tem cerca de dez milhões de habitantes, é um dos países mais pequenos da Europa e há 35 anos a actividade desportiva era quase inexistente. 
A Islândia tem 319 000 habitantes e o Luxemburgo 517 000. 
Ontem desfilaram em Londres mais de 200 delegações olímpicas. Um 59.º lugar é desonroso?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parabéns, Eduardo Lourenço!

«Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos.»
Eduardo Lourenço

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

20 de Outubro de 1996 - Londres

«Felizmente o meu regresso definitivo a Londres, depois de cerca de 30 anos na América. Sinto-me felicíssimo. [...] Eu tinha toneladas de malas - paguei quatrocentos e tal dólares, em Boston, de excesso de bagagem. [...] Havia de tudo: livros, manuscritos, copiosa correspondência, milhõse de fotografias, livros meus inéditos, so quatetos e quintetos completos de Mozart, vidros contemporâneos comprados em Veneza por uma tuta e meia - formas elegantíssimas, cores sublimes, sobretudo os azuis -, pequenas jarras, copos - recordações ad minha primeira visita a Veneza em 1970. (Estou agora a ouvir o disco de Bill Evans You must believe in Spring). No aeroporto de Boston descobri que não tinha à mão a chaves de toda aquela variegada bagagem. Tê-las-ia deixado no flat em Boston - não sei. A Kathi Aguero e o amrido, que me levaram ao aeroporto de Boston, vasculharam comigo a bagagem de mão e nada. O problema era se a Alfândega em Londres queria verificar segmentos daquele cortejo inverosímil. Ah, já me esquecia, entre as coisas que eu trazia encontrava-se uma pochade - emoldurada - da Sonia Delauney, desenhos, colagens, guaches dsete e daquele, incluindo onze obras do Eddie Arning. Felizmente, através do Nothing to declare havia apenas um oficial, não do Santo Ofício mas da Alfândega, a torturar uma criatura; nem sequer deu por mim. Miracolo, miracolo. Dei conco libras ao porteiro que colocou as milhentas coisas na carruagem indicada. E em Victoria como é que ia ser? Um indiano com bigodaças e olho luzidio levou aquilo tudo até à bicha dos táxis. E como é que ia ser depois - será que o chaffeur ascenderia até ao meu segundo andar? Ascendeu e depositou aquela babilónia no corredor, na sala e no quarto. Exausto, ofegante, o pobre homem - cheguei a assustar-me - "Portuguese professor kills taxi-driver" - sobreviveu e aceitou a sorte grande sob a forma de uma gorgeta. Estatelei-me na cama completamente arrasado - dormitei umas quatro horas - apanhei um táxi até ao Dino's em South Kensington - ovos, presunto, torrada, café - e eu cada vez mais em órbita. Londres - recuperada - até ao fim dos meus dias.»
Alberto de Lacerda
In: JL, Lisboa, 24 Ago. 2011, p. 32

Fundação Mário Soares, por favor publique o diário de Alberto de Lacerda!