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sábado, 24 de maio de 2014

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Triunfos da Castidade

File:Hans-Memling-allegory-chastity.jpg
Hans Memling, Alegoria da Castidade,
1475, (Wikimedia Commons)

(...)

Pudor e Honestidade à dianteira,
nobre par de virtudes divinais
que a fazem ser às damas sobranceira;

Siso e Modéstia vinham laterais,
Prazer e Uso a meio coração,
Perseverança e Glória eram finais;

Belo Agasalho e Inteligência vão,
Cortesia em redor com a Pureza,
Temor do mal, Desejo de honra são.

Cuidar maduro em juvenil presteza
e, concórdia tão rara neste mundo,
lá estava Castidade com Beleza.

Vinha assim contra Amor e em tão fecundo
favor do céu e de almas bem nascidas
que à vista de tal peso me confundo.

(...) 

[Petrarca, Triunfos da Castidade]

Vasco Graça Moura, Os Triunfos de Petrarca. Lisboa: Bertrand, 2004,p. 95

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Ainda VGM



(...) Agora chegou o momento da síntese sábia. E por isso é provável que os poetas digam que o Vasco foi bom poeta mas sobretudo excelso tradutor, e que os tradutores digam exactamente o contrário, e que os romancistas prefiram exaltar-lhe os versos em detrimento da ficção, e os ensaístas a ficção em vez da reflexão. E que os de esquerda falem dele como homem de acção e omitam os seus combates ideológicos concretos, e os de direita lhe sublinhem o talento do pensamento político. Tudo isto faz parte. Eu lembrá-lo-ei sobretudo como homem livre - o que, ao contrário do que pode parecer, é mesmo uma coisa rara. (...)

- Inês Pedrosa, O Vasco, no Sol ( 2 de Maio de 2014 )

domingo, 27 de abril de 2014

Homenagem a Vasco Graça Moura

A minha homenagem a Vasco Graça Moura (1942-2014) através da sua tradução da Divina Comédia

Purgatório



CANTO I

Buscando águas melhores iça as velas
a navicela deste meu engenho
que deixa atrás de si cruéis procelas;
e do segundo reino cantar venho
em que a alma humana purga e se habilite
por digna de ir ao céu no seu empenho.
A morta poesia ressuscite,
ó santas Musas, sendo eu vosso, e então,
já surgindo Calíope, palpite
aquele som seguindo-me a canção,
que fez as Pegas míseras sentir o
golpe a desesperá-las do perdão.
(...)

Dante Alighieri, A Divina Comédia. Lisboa: Bertrand, 2006, p. 171
(trad. Vasco Graça Moura e ilustr. de Júlio Pomar)


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Mini-livros - 8

Estes cinco livrinhos foram editados pelo IPLB, no Dia Mundial do Livro em 1994: As botas do sargento, de Vasco Graça Moura; Vitimas de uma história muito longa e imbricada, de Luísa Costa Gomes; O bicho da escrita, de Rui Zink; A mulher que sonhava, de José Luís Peixoto; e Canção de Outono, de Alice Vieira.
Cada um deles tem 16 p. e 11,5 cm de altura.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entretanto, no CCB...


... sai Mega Ferreira, que lá esteve 5 anos, e entra Vasco Graça Moura. Apesar do meu apreço por Mega, não me parece que o CCB fique a perder.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Lisboa

Há um poema de Tomas Transtroemer sobre Lisboa, traduzido em 21 poetas suecos, uma antologia organizada por Ana Hatherley e Vasco Graça Moura, e com tradução ainda de Almeida Faria, Casimiro de Brito e Teresa Salema (Lisboa: Vega, 1981). É dela que o transcrevo:

Anteiga cadeira do Limoeiro.
Antiga prisão do Aljube

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.
«Mas aqui!», disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
«aqui estão políticos». Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.
Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
«será verdade ou só um sonho meu?»

Tomas Tranströmer
Trad. Vasco Graça Moura

terça-feira, 8 de junho de 2010

vita brevis!

vita brevis

a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,

é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou

pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,

nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.

Vasco Graça Moura, Uma Carta no Inverno,Lisboa: Quetzal, 1999, p.15.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Dia Mundial da Criança: as meninas, Vasco Graça Moura!

Jessie Wilcox Smith foi educadora de infância e ilustrou livros para crianças.

Jessie Wilcox Smith (1863-1935), Little Drops
as meninas

as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,
a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:

entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.

a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.

e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos", Asa Editores, 2002.

domingo, 14 de março de 2010

talvez não amanheça


soneto destruído

talvez logo na berma de uma estrada
um par se beije transtornadamente
e o destino os separe de repente
entre as duas e as três da madrugada

talvez a lua fria os desinvente
e só lhes traga sombras e mais nada
e por saída só lhes dê a entrada
para o túnel da noite à sua frente

talvez então as faces se desolem
talvez depois em cinza solidão
a aurora ponha luto, talvez colem
as nuvens o seu dorso rente ao chão

talvez por não ousar ninguém mereça
o que viveu. talvez não amanheça.

Vasco Graça Moura
(Sombras com Aquiles e Pentesileia, Lisboa, Quetzal, 1999, p. 35-36)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Dante ... 2 retratos e um excerto!

Giotto (c. 1267 – 1337), Dante Alighieri, na capela do palácio Bargello, Florença


Luca Signorelli, (c. 1445 – 1523) Dante Alighieri, detalhe "affresco della cappella di San Brizio, Duomo, Orvieto".

Canto X (excerto da Divina Comédia - II Purgatorio)


(...)

«Aqui convém que a gente use alguma arte»,
começou o meu guia, «ao encostar-se
aqui e ali, ao lado que se aparte».
E isto fez nossos passos retardar-se
e, tanto que, antes o minguar da lua
o seu leito alcançou por aninhar-se,
que a saída da fenda se conclua:
mas quando fomos no ar livre libertos,
lá o monte unido atrás recua,
eu já cansado e nós os dois incertos
da nossa via, fomos ter um plano
mais só do que as estradas por desertos.


Dante Alighieri, A Divina Comédia, Lisboa: Bertrand, 2006, p.217 (Trad. Vasco Graça Moura, O Purgatório: 33 desenhos de Júlio Pomar e 10 retratos de Dante)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Melhor crer do que ler?

Saltério Glosado
Paris: Bibliothèque nationale de France,
f. 1r, Cenas do Antigo Testamento: a Criação

Arrumava alguns recortes de jornais e re-encontrei o artigo que Vasco Graça Moura publicou no Diário de Notícias, no dia 28 de Outubro de 2009, na página 54.
Devo confessar que fiquei surpreendido com o artigo. Não pela lúcidez de Vasco Graça Moura mas pela coragem que demonstrou ao publicar este artigo agora, embora já o tivesse indiciado em Outubro de 2001, na Revista Egoísta , ao escrever:
O Jeová da Bíblia é um ser caprichoso e muitas vezes iniquamente absurdo. O Deus dos Católicos (já agora, e por razões óbvias, é-me mais difícil falar do austero Deus dos protestantes...) é um ser em que o princípio da crueldade é transferido para a paixão de Cristo e que, no que respeita ao sem sentido do sofrimento do mundo, transpõe para uma dimensão escatológica a correcção de todas as injustiças e a abolição desse sofrimento. Em minha opinião, é preciso realmente ter muita fé para se acreditar e para se esperar que seja assim. Sem contar que se trata, no ensinamento eclesial ao longo de séculos e séculos, de um ser castrador e profundamente misógino, obstinado contra o que em nome dele se estigmatizava como 'pecado da carne', e redutor da filosofia (e portanto do próprio pensamento) à condição de serva da teologia (philosophia ancilla theologiae). A cultura, que para os Gregos era antropocêntrica, tende a tornar-se teocêntrica e cristocêntrica a partir dos primórdios do Cristianismo.
A lógica passou a ser substituída pela aceitação passiva dos chamados mistérios da fé. Deus, e não o homem, passa a ser a medida dogmática de todas as coisas. O Cristianismo instaurou uma cultura do arrependimento, na expectativa da misericórdia de um Deus cujos desígnios são imprescrutáveis."

E Vasco da Graça Moura escreve:

O Deus do Velho Testamento é um ser intolerante, insatisfeito e vingativo. A terribilità da voz dos profetas tem qualquer coisa de deriva totalitária, existindo para o anúncio reiterado da catástrofe, se à rigidez da norma divina não for sacrificado, sem dó nem piedade, tudo e mais alguma coisa. A Bíblia é um texto compósito, de múltipla autoria, com passagens que podem ser extremamente interessantes e outras que são uma maçada insuportável, e também só um crente muito crente é que pode pretender ver no texto uma unidade que a Bíblia não tem e dar tantas voltas ao torno da interpretação que acabe por ler nela o que ela não diz.
A esta minha opinião pode, evidentemente, ser contraposta qualquer outra. Por isso mesmo é que há liberdade de pensamento e de expressão. ...

Um artigo que vale a pena ler na integra. vou publicar o resto em comentário, para não alongar este post.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

praias

1
na praia lá do guincho as velas
de windsurf saltam sobre as ondas
e o meu olhar, equestre,
pula nos peitos das banhistas, enquanto
um cachorro tenta agarrar a cauda.

nos feriados tudo é insuportável
menos o sol e o mar
apesar das famílias.
e sustendo as gaivotas na mais alta
imaginação, porque hoje não vi nenhuma,

o vento traz de tudo
e antónio nobre e lorca às pandas roupas
que modelam os corpos em míticas figuras
com o seu drapejado esvoaçante,
entre dunas e lixo e vendedores de gelados.

restaria o campo, mas
«no campo não há bicas nem paperbacks»
diz uma amiga minha e tem razão.
que seria de nós, bucólicos, sem esses indicadores da alma? dou

lume a uma italiana e enquanto
ela agradece ocorre-me que despi-la já não é
cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão
o algarve é a continuação
da política por outros meios. antes
a nortada, os surfistas,
na crista da onda, a areia que entra no poema,
e o regresso mais cedo, quando já não se
aguenta.

2

agora que passaste muito queimada do sol
o vento vem pela estrada até à duna
com uma folha de jornal desdobrada
aos baldões e as vozes dos piqueniques.

tu desceste da moto e foste
comprar um gelado, afastando impaciente
algumas crianças. era a impostura
para a sede, avivada pelos guarda-sóis

de cor berrante. nas rochas havia
alguns pares esfregando-se
mais ou menos à vista. penduraste
os óculos de sol no decote da blusa

e o gelado avançou para os teus dentes muito brancos.
tudo isto dava uma fotografia
com o teu peito em grande plano
e a cena reflectida nos óculos escuros.

Vasco Graça Moura, Antologia de Convívios, Lisboa: Edições Asa, 2002

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dante Alighieri e a Divina Comédia!

Um/a comentador/a colocou-me uma questão a partir das litogravuras de Gustave Doré sobre a Divina Comédia:
"Você gosta de ocultismo?"
O meu espírito racionalista ficou logo a matutar. Resolvi então passar um excerto da introdução de Vasco Graça Moura da tradução que fez da obra.
Aqui está em parte a resposta. Não queria nada ser maçadora mas se calhar, por me alongar, irei sê-lo, as minhas desculpas. Gostava de colocar muito mais mas é um abuso ser tão extensiva.


Em 2006 ofereceram-me a Divina Comédia traduzida por Vasco Graça Moura e ilustrada por Júlio Pomar. Já tinha lido, mais que uma vez, numa versão de divulgação e é uma das obras que mais me toca devido à sua temática: a procura do Ser.
x
"(...) «como todas as grandes obras canónicas destrói a distinção entre a escrita sagrada e secular» (Harold Bloom, The Western Canon), é também, entre muitas outras coisas, essa tensão vertiginosa entre micro e macrocosmos, esse confronto do indivíduo concreto com o universo dos seus saberes integrados, numa epopeia do conhecimento humano apostado na busca obsessiva de uma verdade do Ser, busca essa que, aqui, culmina na visão de Deus, termo do arco sustentado que vai do desespero humano e da miséria humana a uma absoluta serenidade final. Numa ontologia do Bem e do Mal, as modalidades visíveis do Ser dispõem-se como outros tantos graus que tendem para uma totalidade necessariamente abrangente. Espaço e tempo não passam então de categorias precárias para a própria tentativa de um percurso e de um discurso que confluem no infinito e na etrnidade. (...)

«A Comédia é, entre outras coisas, um poema didáctico de dimensões enciclopédicas que expõe a ordem físico-cosmológica, ética e histórico-política do universo; é, além disso uma obra de arte que imita a realidade e na qual aparecem todas as esferas imagináveis do real: passado e presente, grandeza e abjecção, história e fábula, trágico e cómico, homem e paisagem; é, enfim, a história do desenvolvimento e da salvação de um indivíduo particular, Dante, e, enquanto tal, uma alegoria da redenção de toda a espécie humana». (Mimésis, p.198. Já Hegel escrevia:« o poema [A Divina Comédia] abrange assima totalidade da vida objectiva (Estética e Poesia, Lisboa:Guimarães Editores, 1964, p.275)

Dante Alighieri, A Divina Comédia, Lisboa: Bertrand Editora, 2006, p.12 (tradução e introdução de Vasco Graça Moura)

Prometo que hoje não volto! Terá o simbolismo ligação com o ocultismo?

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Amanhã na Fnac do Colombo

Realiza-se amanhã à noite. pelas 21h, na Fnac do Colombo o debate O papel do Estado na Cultura, com Vasco Graça Moura e António Pinto Ribeiro. É uma iniciativa conjunta da Fnac e do blogue Psicolaranja, e parece-me ser um debate a que vale pena assistir.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Amanhã na Gulbenkian

Ainda no ciclo de conferências associado à exposição Weltliteratur, é amanhã o dia da conferência de Vasco Graça Moura.

Auditório 3, 18h.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

a rosa, timbres

e outro silêncio enquanto o som repousa:
desfez-se o rebordo numa espuma.
de que sombra dos sons se faz a rosa?
da matéria das sombras? de nenhuma?

de que fosco murmúrio, cristal, bruma?
de que espirais da noite vagorosa?
do coração desfeito? ou não costuma
a luz gravar-se em sombras numa lousa?

coração rouco, o coração. falhada,
a voz vinda do vento se desate
num ramo de penumbras, descontínuo

o mundo passe a ser feito de nada,
só de efémeras rosas a rebate,
como gritos de sangue no destino.


- Vasco Graça Moura, SONETOS FAMILIARES, 2ªed, Quetzal Editores, 1999.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

os poderes da imagem

junto aos calhaus, de azul intenso, um cardo.
vem do velino de uma iluminura
e cresce agora sobre a cercadura
desenhada nas pedras sem resguardo.

heráldica, aguçada, erecta, tardo-
-medieval, assim se desnatura
a simetria agreste da figura
que o vento copiou neste chão pardo

quando virou as folhas ao acaso
de um livro de horas, entre ceptro e esfera
e trabalhos e dias, e deu azo

à reversão estranha que se opera:
a imagem sai do seu suporte raso
e surge no caminho à minha espera


- Vasco Graça Moura, SONETOS FAMILIARES, 2ªEd., Quetzal Editores, 1999.