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quinta-feira, 25 de abril de 2024

Viva o 25 de Abril! Para sempre!


«No decorrer de uma recente entrevista, longa e simpática, em que se falou dos tempos da resistência, houve um aspeto que muito intrigou o jovem operador de câmara. Os encontros. Aqueles tais encontros que tanto trabalho davam a preparar, em sítios previamente escolhidos, no final de percursos calculados ao milímetro, serviam afinal para quê? O que se fazia nesses tais encontros [...]? 
«É reconfortante, para mim, dar nota desta pergunta e assinalar o espanto do moço. Significa que ele vive num mundo para que nós contribuímos - mesmo em modestíssima escala, como foi o meu caso -, no qual práticas normais e inofensivas deixaram de estar proibidas e sancionadas, com risco de prisão.
«Por mais que resmunguemos e protestemos, por desagradáveis e condenáveis que sejam alguns traços do quotidiano de hoje, o facto é que ganhámos.
«Já não temos que nos levantar às seis da madrugada, deslocar-nos de táxi até certo ponto, mudar para um elétrico, depois para um autocarro, andar cem ou duzentos metros desconfiados até á esquina determinada para dar e receber informações, dar ou receber jornais [...].
«Em suma: atividades e práticas em absolutos correntes, abertas e normais, numa sociedade democrática, como aquela em que, felizmente, nos encontramos hoje.
«Sem termos de nos esconder de ninguém e sem que alguém nos peça (pesadas) contas.»
Mário de Carvalho - «Encontros». In: De maneira que é claro. Alfragide: Caminho, 2021, p. 154-155.

sábado, 30 de setembro de 2023

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Leituras no Metro - 1159

Porto: Porto Ed., 2020.

Este livro fez-me sorrir muitas vezes sentada no banco do metro. Uma crónica sobre taxistas. Há duas classes de trabalhadores com quem não falo: taxistas e polícias. Com os taxistas: cumprimento quando entro no carro, digo o local para onde quero ir e no final pago e cumprimento. Só em dois casos, falei qualquer coisa. Uma há muitos anos com um taxista-pregador. Lá o deixei pregar, pregar, até que ele levanta do banco do pendura uma bíblia e queria-ma impingir. Aí, disse-lhe para parar, paguei e saí. Não seis e foi o mesmo da crónica de Mário de Carvalho.
Há umas semanas apanhei um que vociferava contra umas medidas do Governo que visam combater o abandono escolar precoce por parte da comunidade cigana. E que aquele apoio devia ser dado aos «coitadinhos» dos reformados. Só uns é que eram «coitadinhos».
Quando o homem parou para eu sair só lhe perguntei: 
- O senhor é católico?
- Sou.
- Então, somos todos irmãos, não é?

Há outra crónica de 1996 sobre conversas de autocarro. Realmente não há como conversas de autocarro ou elétrico em que as pessoas muitas vezes já se conhecem e dizem as coisas mais despudoradas.
«Um popular que não queria que na escola lhe misturassem os filhos com os dos ciganos explicou à televisão: "Eles são duma raça, nós somos doutra.» Era um homem bastante mais novo do que eu. Não teve nenhum pejo em proferir aquilo. Nem sonha, com certeza, que a declaração possa causar vergonha. Pelo menos a quem o ouça. Como é que isto me aconteceu, chegar aos cinquenta anos e ouvir dizer e reproduzir estas falas na minha terra? [...]
«Eu circulo pelas ruas, ando de autocarro, vou a supermercados. Ouço-os ao vivo. Há pouca coisa mais repugnante que a chamada "conversa de autocarro": "Eles querem é poleiro!"; "Vai pra tua terra"; "Eles andam é todos a abotoar-se"; "Não 'tava fora de jogo, não senhor". Grotesco. Sórdido. Primitivo.» (p. 81-82)

Acerca da pena de morte:
Laborinho Lúcio, quando era ministro da Justiça, disse, «com extrema dignidade, a uma jornalista tonta, de insistente microfone em riste, que se recusava absolutamente a discutir, sequer, a questão da pena de morte.
«Então em democracia não se pode discutir tudo? Não, não pode, há limites: os do bom gosto, os do respeito pelos outros, os do respeito por si próprio. E também os do respeito pelas pouquíssimas e preciosas aquisições civilizacionais, inseguras e fragilíssimas, que nos separam da barbárie.» (p. 86)

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Leituras no Metro - 1156


Sei que não há muitos leitores de crónicas, mas eu gosto de crónicas. Poucos são os escritores capazes de escrever crónicas. É difícil narrar um facto ou uma historieta (normalmente do quotidiano) em poucas palavras.
José Cardoso Pires, Maria Judite de Carvalho, Fernando Assis Pacheco, António Lobo Antunes e Mário de Carvalho têm em mim uma (re)leitora fiel. 

«Domingo sem piqueniques não era domingo não era nada. Tudo ia preparado minuciosamente pelas nossas mães, o pão, os frangos, os enchidos, arrozes múltiplos, panados, filetes. Havia quem trouxesse caixas mais sofisticadas com copos e pratos apropriados. Mas de uma forma geral improvisava-se com panelas, tachos e o aparato das cozinhas. [...] O pastel de bacalhau era absolutamente indispensável. Mas também podia haver algum marisco. Foi num desses piqueniques no Guincho que, pela primeira vez na vida, comi lavagante, e o bem que aquilo me soube.» (p. 77)
Também participei de alguns piqueniques no Guincho, mas sem lavagante.

Parlatório do Aljube. Simplificado...

«Revolta-me mais a prisão do meu pai do que a minha própria. [...]
«Ora, o meu pai e os seus amigos, em 1959, na altura das suas prisões, integrariam, segundo a PIDE, um "organismo das cooperativas" a mando do Partido Comunista Português.
«Organismo das cooperativas, imaginem. Que prática clandestina seria a duma célula deste jaez? Encontrava-se, reuniam-se e promoviam o cooperativismo. Ademais, intervinham nas associações populares. Candidatavam-se. Davam opiniões. Recebiam "orientações" do PCP e difundiam-nas. Calculem o impacto revolucionário e alarmante desta militância, que, no fundo, pouco diferia do mero passar dos dias.
«Eram [... um] guarda-livros, [... um] contabilista, [... um] sócio duma luxuosa ourivesaria, o meu pai, agente comercial, outro, caixeiro-viajante e tudo... tudo assim.
«Estou a vê-los atrás da rede dupla, na lúgubre sala de visitas do Aljube: homens pacatos, de óculos, gente de família a enfrentar entre grades indiciações gravíssimas de subversão. Obrigaram-nos a noites sem dormir, e foram ameaçados e desconsiderados.
«O seu ar composto e  atento no julgamento... Até os juízes do Plenário - sendo o que se sabe -, não obstante toda a "prova" produzida, devem ter entendido entre si que aqueles revolucionários comerciantes convenciam pouco.» (p. 84-85)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Leituras no Metro - 1094

Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2017
Capa de João Fazenda.

Mega Ferreira afirma que «hoje há pessoas que vivem, intelectualmente falando, das intervenções que fazem na televisão.»
«Mário de Carvalho não tem dúvidas em relação a este assunto e recusa ser brendo na sua a+reciação, sublinhando "a desvalorização que se promove hoje, especialmente através da comunicação social, de tudo o que tenha a ver com o saber, com a arte, com a literatura, com a dança, enfim, com tudo aquilo que há de mais elevado na condição humana e na atividade dos homens. Tudo isso é secundarizado. Qualquer chefe cozinheiro ou qualquer modista ou coisa parecida é mais importante do que m professor, e os professores são um dos aspetos da representação social do saber, o professor tem saber, mas é desvalorizado. E não são só os professores a serem desvalorizados; são desvalorizados os escritores, os cientistas, os pintores, os artistas das mais diversas áreas..."» (p. 17-18)
Até concordo com Mário de Carvalho, mas há cada professor... Quanto aos médicos e cientistas hoje são mais ouvidos, fruto das circunstâncias. Veremos até quando.
Este livro voltará aqui.
Postal-marcador.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Futebol nas Letras - 32

Hoje é dia para apresentar os cartazes dos mundiais de futebol.

 
Cartaz de Joe Bridge

Cartaz de Roland Topor
Cartaz de Aldo Luongo
Cartaz de Guy Buffet

«Portugal só será um país habitável quando a monstruosa máquina de aturdimento e manipulação do futebol for reduzida ao que sempre deveria ter sido: um jogo qu pode empolgar alguns, mas que não tem de alienar o pensamento ou a liberdade de decidir.»
Mário de Carvalho

«Acho graça ao jogo, só que ele não pode engolir o nosso espaço cívico, o nosso interesse pela política, pela sociedade, pela leitura... Há uma euforia disparatada, promove-se um entusiasmo desbragado.»
Lídia Jorge

Cit. in JL, 11-24 jun. 2014, p. 8

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Folhetim

A propósito do Paraíso que anda por aqui...


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Júlio César Machado (1835-1890), um dos grandes folhetinistas portugueses.

O folhetim nasceu em França, no tempo do Consulado, com o padre Julien-Louis Geoffroy (1743-1814), que publicava as suas críticas dramáticas na parte inferior da página do Journal des Débats. Durante o século XIX, na coluna folhetim saiam críticas literárias, musicais e teatrais, bem como poesias e romances, sem do que, no século XX, o folhetim passou a publicar quase exclusivamente romances. Cultivaram o folhetim em Portugal, entre centenas de outros, A. P. Lopes de Mendonça, Júlio César Machado, Visconde de Benalcanfor, Alberto Pimentel, Camilo, Luís Augusto Palmeirim, etc.
Um dos últimos casos, que me recordo, de um folhetim, em Portugal, foi a publicação em O Jornal de E se tivesse a bondade de me dizer porquê?, de Clara Pinto Correia e Mário de Carvalho.
Ernesto Rodrigues dedicou ao assunto um estudo: Mágico folhetim (Lisboa: Ed. Notícias, 1998).
(Bibl.: GEPB)

terça-feira, 21 de julho de 2009

Uma sugestão de leitura ou releitura

Gosto dos romances de Mário de Carvalho, e em particular deste Fantasia para dois coronéis e uma piscina, que é dos mais hilariantes romances escritos em português nas últimas décadas. É impossível resistir ao riso, mas às vezes o riso é amargo, porque este livro é também uma demolidora radiografia do nosso país. Excelente para ler na praia, na esplanada ou evidentemente à beira da piscina como o título sugere. Aqui ficam dois trechos- o primeiro são logo as linhas iniciais do livro e é tão válido o diagnóstico nelas contido como há 6 anos atrás quando o livro saíu, o segundo é um perfeito exemplo do humor que atravessa a obra e também ele exemplar da nossa vida contemporânea, que em tantas coisas ainda sofre as "ressacas de África" :

" Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro até ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.
Falam os médicos, os notários, os empreiteiros, os varredores, os motoristas, os professores e toda a lista de profissões da estatística e não há corporação que fique de fora neste zunzunar do paleio, vendedores de automóveis, mediadores de seguros, sapateiros que passam a vida a cantar, empregados de mesa, agentes da autoridade, doentes dos hospitais, operadores imobiliários, empregados forenses, e também engenheiros, sem abrigo, vagabundos, telefonistas, padeiros, patinadores, engraxadores e vândalos. Imigrantes provindos de países sombrios aprendem aqui a soltar as línguas, aderem ao velho ofício de dar à taramela, por isto e por aquilo, por tudo, nada. Passam-se dias, meses, anos, remoem as depressões, adejam os perigos e o país a falajar, falajar, falajar. "



" ( ... ) Como é sabido, os militares oficiais superiores são, entre os cidadãos que compõem uma vasta classe média, os mais ampla e diversificadamente relacionados. É preciso um tipo que faça um pão especial? Lá se desencanta em Trás-os-Montes alguém que foi cabo na segunda companhia em 1969 e que terá muito prazer em fazer um jeito ao nosso coronel. É preciso um advogado por causa de uma questão de partilhas? Ocorre logo aquele rapazito enfezado, de óculos, muito medroso, que era alferes de Intendência e que agora advoga em Lisboa e que até vai à televisão. Um coronel quer instalar uma piscina? Há uma multidão de capitães, majores, brigadeiros, engenheiros, médicos, professores que estão ávidos por ajudar. Todos têm experiência, todos têm informação, todos têm opiniões, todos sem atropelam. E as recomendações que o coronel Bernardes foi recebendo, pelo telefone, acabaram por dar naquilo a que chama, nas comunicações da tropa, « empastelamento » da informação. Uns recomendaram outros, não poucos intrigaram contra terceiros. As opiniões eram todas diferentes. Mas havia uma universal vontade de ajudar. Tanta, que um major chegou a telefonar de Nova Iorque, às quatro da manhã, provocando um reflexo automático do coronel, de atarantada pistola-metralhadora na mão, enquanto Maria das Dores rogava pragas. (...) pg. 64-65
- Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, Caminho, 2003.