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quinta-feira, 3 de outubro de 2019
Pensamento ( s )
(...) Victor Hugo, Les Misérables . Esta frase ( este verso ? ) :
" Qu'importe que la terre soit rouge, la lune reste blanche . "
( depois da descrição da batalha de Waterloo, o campo de batalha está cheio de feridos, mortos e amputados. A noite de batalha é de lua cheia )
" Que importa que a terra seja vermelha, a lua continua branca ".
Uma lua que se mantém impávida, neutra.
A sua fraqueza não se envolve, não muda de cor. A sua força está sempre intacta.
É ela, pois, que prepara o recomeço.
- Gonçalo M.Tavares, in Jornal de Letras.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Pensamento ( s )
... E sobre a importância da leitura
As pegadas e os vestígios anunciam o grande perigo ou a possível salvação . Podes ser devorado, podes comer.
Sejamos então claros: um animal que é bom leitor de vestígios, o bom leitor em geral, aquele que interpreta bem os sinais, sobrevive. Ler é interpretar. Nós somos, então, herdeiros dos animais que sobreviveram; nós somos filhos de filhos de filhos de bons leitores; leitores que leram bem os vestígios, os sinais. Que conseguiram compreender o que o visível - as pegadas, os vestígios - anunciava. Pelo visível leram, interpretaram, adivinharam o invisível, o que não estava ali - o animal anunciado - o predador ou a presa. (...)
- Gonçalo M.Tavares, na Visão da semana passada .
sexta-feira, 13 de março de 2015
Pensamento ( s )
(...) Leitura das nuvens : vem aí bom tempo, mau tempo, sol, chuva grande, pequena chuva. A leitura das nuvens que ainda hoje em qualquer cidade moderníssima se executa é apenas uma forma antiquíssima de ler e interpretar os rumos organizados daquilo que a natureza produz .
Nós repetimos o que faziam os velhíssimos leitores.
De facto, antes os homens liam com a cabeça virada para cima. Uma leitura respeitosa. Estavam sempre a interpretar o que acontecia acima da terra, no céu - esse lugar potencial dos deuses. A natureza pode matar-te, aquele traço/texto pode matar-te ( porque vem de cima - vem do ponto mais alto para o ponto mais baixo ).
Agora não. As pessoas leem de cima para baixo, o texto está abaixo do pescoço e isso transforma-o logo num texto inofensivo. Recuperar o tamanho certo do humano : voltar a ler de baixo para cima. (...)
- Gonçalo M.Tavares, in Olhar para cima, na VISÃO desta semana .
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Pensamento ( s )
Sempre a frase de São Tomás de Aquino, que Maria Filomena Molder comenta num ensaio : « É preferível um anjo e uma pedra que dois anjos. »
Uma interpretação : entre a variedade e o homogénio, a variedade.
No limite, poder-se-ia dizer que é preferível existirem no mundo um anjo e um demónio do que existirem dois anjos.
O que é estranho é que todos os fundamentalistas poderiam dizer a frase : é preferível dois anjos!
Os fundamentalistas querem converter todos os seres humanos em anjos; e são eles que definem o que é um anjo. O desejo de uma sociedade uniforme, eis o que devemos recear. (...)
- Gonçalo M.Tavares, na Visão da passada semana .
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Pensamento ( s )
LISTAS
E, de repente, lembro-me disto : como pode alguém amputado de braços rezar com as duas mãos juntas?, como manter certos rituais se algo no corpo já não está e as regras dizem com precisão o que essas partes ausentes deveriam fazer? Sem mão não podes : segurar, agarrar, puxar, empurrar, suster.
Fazer uma lista : os verbos que são eliminados, que se tornam inúteis, quando um homem perde as mãos; depois, os verbos que se tornam inúteis quando os homens perdem os pés; depois os verbos que se tornam inúteis quando um homem perde órgãos essenciais como o coração; os verbos que ficam inúteis quando o homem perde a cabeça ( o homem sem cabeça não pode pensar, conjeturar, planear, calcular, etc ). Enfim, há ainda muitas listas a fazer ( terríveis, tremendas ).
- Gonçalo M. Tavares, na Visão.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Pensamento (s)
Consumir, usar
A diferença entre consumir e usar : consumir destrói o objecto, faz com que aquele objeto desapareça; usar mantém o objecto de tal maneira que ele pode voltar a ser usado mais tarde. Talvez em piores condições, sim, mas ainda vivo.
Um frigorífico quase a durar tanto quanto um produto da terra que exija ser consumido de imediato, antes que se estrague.
O frigorífico já não se aproxima da duração resistente de uma árvore, aproxima-se da duração de um só fruto.
Projeto ( avançar até ao limite ) : transformar tudo em objeto de consumo. Nada ser estável. Os livros, as estátuas e os edifícios : tudo ter no máximo a duração de uma semana. Depois, a estátua deixa-se cair, apodrecer - como acontece com as laranjas.
(...)
- Gonçalo M.Tavares, na Visão desta semana.
domingo, 29 de dezembro de 2013
Pensamento ( s )
Ideias e peso
É preciso materializar as ideias. Colocar comprimento, largura e volume numa ideia. Se dizemos que o mundo nos pesa, avancemos de imediato para um peso concreto, por exemplo: 40 quilos.
Agir ao mesmo tempo que se carrega às costas um peso de quarenta quilos. Eis o que é o mundo ser pesado. Nada de abstrato. Pelo contrário: é o exacto contrário do abstrato. É o peso.
Avancemos com um lema. Toda a ideia terá peso concreto ou nada terá. Só o peso concreto dá peso espiritual; só o peso concreto dá peso potencial. Quanto pesa a tua ideia?
- Gonçalo M.Tavares, na Visão.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Pensamento ( s )
(...) No calor o nosso corpo afasta-se de nós, afasta-se do centro. Está para ali à minha frente ou ao meu lado. No frio, pelo contrário, o corpo torna-se aquilo que eu quero proteger e aquilo que me protege. Por isso é que nos apertamos muito no inverno, no exterior. Temos de fazer duas ações opostas ao mesmo tempo. Proteger e ser protegido. No inverno, o corpo ocupa menos espaço.
De facto, é impossível exigir reflexão a um povo que viva debaixo do sol e do calor permanentes. Acima de trinta graus de temperatura, filosofar é perder a vida e o exterior. Abaixo de oito graus, não pensar é não ter cabeça.
É assim mesmo, como se fosse uma fórmula meio química meio existencial : o homem só pensa em determinados assuntos e com certa profundidade quando avança pela cidade com temperaturas abaixo de oito, sete, seis graus.
Cada cidadão, enrolado no seu casaco, caminha com o rosto de quem reflete longamente sobre o essencial. Em Lisboa, em dezembro, pensa-se mais - isso é evidente.
- Gonçalo M.Tavares, na VISÃO desta semana.
sábado, 30 de novembro de 2013
Citações
sensação
Isto não é um país, é um negócio.
- Gonçalo M.Tavares, na VISÃO, p.10.
Dou por mim muitos dias a pensar o mesmo, e não só acerca dos governantes em sentido estrito.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Novidades
Lisboa na colecção Bouquins, uma obra muito completa ( em 1174 páginas ) sobre a capital portuguesa, sob a forma de antologia organizada por Luísa Braz de Oliveira e com prefácio de Gonçalo M.Tavares.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Pensamento ( s )
A quem dar ouvidos ?
Só se deve passar a palavra a quem está em plena posse do delírio, pelo menos. Eis a democracia elevada e afetiva. Ou Vossa Excelência fala a partir do entusiasmo - ou se cala. O longo discurso que parte de uma situação de indiferença é uma espécie de mudez que se prolonga, mudez que exibe a sua incapacidade para comunicar verbalmente, essa impossibilidade de chegar em voz excitada ao ouvido recetivo do outro.
Escreve Adélia Prado:
« À voz apaixonada mais inclino os ouvidos. » Síntese.
- Gonçalo M.Tavares, na VISÃO.
domingo, 25 de agosto de 2013
Pensamento ( s )
Cada vez, diga-se, pensamos em menos espaços. Os espaços do pensamento estão a desaparecer. No teatro diz-se ( já o ouvimos muitas vezes ) : o teatro não é para pensar. No cinema diz-se: o cinema não é para pensar. Na literatura diz-se : a literatura não é para pensar. Nos jornais: os jornais não são para pensar e etc, e etc. A questão que fica é : então, onde é que se pensa? No quarto, sozinhos? Fechados na casa de banho? Num submarino?
Pensar tornou-se quase sinónimo de incomodar os outros. Como se pensar fosse uma falta de educação. Pensar à frente dos outros, que indiscrição, que falta de pudor! Pensar começa a ser uma actividade que se tolera apenas quando um homem está só e a muitos metros abaixo do solo. Pensar sim, mas no subterrâneo. (...)
- Gonçalo M.Tavares, Onde se pensa?, na VISÃO.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Um livro que nunca li
Se tivesse pachorra devia ir porque comecei várias vezes a ler este livro, mas nunca passei das primeiras 30 páginas.
«A História é um pesadelo do qual tentamos acordar.»
(James Joyce)
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
PENSAMENTO(S) - 215
Se tratares bem a tua memória ( se souberes que metade do que passou ainda pode ser inventado pela tua cabeça ) ainda vais a tempo de ser feliz no passado. Mas tens de te apressar, claro.
(...)
Quando te pedem esforço, esforça-te para não ouvir, para fingir que estás distraído, etc.
Mas presta atenção, claro, quando te pedirem para estares desatento.
- Gonçalo M. Tavares, in Recomendações 2012 ( horóscopo ), na Visão.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O fogo terá um mistério,certamente.
Li no Público que Gonçalo M. Tavares é o vencedor do Prémio Literário Fernando Namora/Estoril Sol 2011 com a obra “Uma viagem à Índia”.
O júri que atribuiu o prémio era constituído por:
«Guilherme d' Oliveira Martins, em representação do Centro Nacional de Cultura; José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores; Manuel Frias Martins, pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários; Maria Carlos Gil Loureiro, pela Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas; Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, pela Estoril-Sol; e ainda, Vasco Graça Moura (presidente), Maria Alzira Seixo e Liberto Cruz, convidados a título individual».
Foi o último livro de poesia que li.

125
Os homens e as suas indústrias poluem os rios,
o mar, o ar que já escurece por cima das cidades
e a terra, as montanhas, a grande floresta.
Dos quatro elementos antigos - não sei se já reparou -,
o homem só é incapaz de poluir o fogo.
O fogo terá um mistério, certamente.
Gonçalo M. Tavares, Canto III, estrofe 125
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Lisboa:, Caminho, 2010,p. 159.
Foi o último livro de poesia que li.
Jardim da Sereia, Coimbra
125
Os homens e as suas indústrias poluem os rios,
o mar, o ar que já escurece por cima das cidades
e a terra, as montanhas, a grande floresta.
Dos quatro elementos antigos - não sei se já reparou -,
o homem só é incapaz de poluir o fogo.
O fogo terá um mistério, certamente.
Gonçalo M. Tavares, Canto III, estrofe 125
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Lisboa:, Caminho, 2010,p. 159.
sábado, 24 de setembro de 2011
Citações - 189
(...) E eis um projeto possível: não apenas atuar na natureza para impedir que algumas espécies animais em vias de extinção desapareçam, mas atuar também na cidade, nos cafés, nos passeios, nos edifícios, nas casas, para impedir que certas palavras-em vias de extinção ou quase desaparecimento-desapareçam por completo.
É que poderemos dizer -deixei de ouvir aquela palavra- como alguém que diz que, num certo bosque, se deixou de ver esquilos. E estaremos diante de dois factos a lamentar.
Em suma, exclamar, por exemplo: - Estamos a passar uns dias metuendos!- não melhora os dias, mas torna mais requintada a nossa frase sobre os dias. E a elegância, mesmo em tempos metuendos, é qualidade que não deve ser ignorada.
- Assim termina a deliciosa crónica - Sobre os dias metuendos - de Gonçalo M.Tavares na Visão. Metuendo ( que mete medo; terrível; medonho ) é uma das palavras em desuso que o autor nos revela. Também gostei de mata-sãos que quer dizer um médico incompetente...
quinta-feira, 21 de julho de 2011
"Da janela altíssima"
Janelas, Lisboa, Chiado
7
O mar pode parecer um ponto
para o teu poderoso olho distante,
mas se é apenas um ponto é um ponto imortal
e os teus olhos, grandes e essenciais,
são afinal apenas um pouco efémeros
que a sensação de satisfação do estômago, depois da
...........................................................................[refeição.
e só é só. No entanto, Bloom prossegue a olhar da janela
altíssima, percebendo então o que falta
aos mapas: o cheiro; o cheiro, isso mesmo.
Gonçalo M. Tavares, Viagem à Índia, Lisboa: Caminho, 2010, Canto V, p. 209
segunda-feira, 6 de junho de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
"O jardim não mudou, o silêncio está intacto"
Um livro que ando a ler e estou a gostar.

O jardim não mudou, o silêncio está intacto
«No fundo, este verso afirma que tudo continua na mesma, o que, diga-se, não é propriamente uma novidade. O jardim não mudou, o silêncio está intacto, o pássaro canta, o homem negoceia e todos, de uma maneira ou de outra, mantêm os seus problemas e soluções.
No fundo este verso é uma tradução (em jardim) da célebre frase do profeta Isaías: nada de novo sob o sol. (...)»
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Eliot e as conferências, Lisboa: Editorial Caminho, 2010, p.55

5ª CONFERÊNCIA DO SENHOR ELIOT
EXPLICAÇÃO DE UM VERSO DE W.H. AUDENO jardim não mudou, o silêncio está intacto
«No fundo, este verso afirma que tudo continua na mesma, o que, diga-se, não é propriamente uma novidade. O jardim não mudou, o silêncio está intacto, o pássaro canta, o homem negoceia e todos, de uma maneira ou de outra, mantêm os seus problemas e soluções.
No fundo este verso é uma tradução (em jardim) da célebre frase do profeta Isaías: nada de novo sob o sol. (...)»
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Eliot e as conferências, Lisboa: Editorial Caminho, 2010, p.55
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
A Minha Religião é o Novo
A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol,
estas invenções habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante único.
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto.
Gonçalo M. Tavares, Investigações. Novalis, Lisboa DIFEL, 2002
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol,
estas invenções habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante único.
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto.
Gonçalo M. Tavares, Investigações. Novalis, Lisboa DIFEL, 2002
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