Prosimetron
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
Era assim Júlio César?
Uma recente reconstrução 3D do rosto de Júlio César apresenta-o com uma imagem bem diferente da que conhecíamos. Feita com base num busto de mármore do Museu de Antiguidades da Holanda - e de um segundo busto chamado Tusculum, por ter sido encontrado nesta cidade do sul de Itália -, esta reconstrução mostra o Imperador Romano com olhos pretos, pele branca, falta de cabelo e uma peculiar protuberância na cabeça. Uma caraterística que segundo o arqueólogo Tom Buijtendorp, pode ter sido resultado de um parto difícil.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
A História começa na Mesopotâmia
A propósito da exposição L' Histoire commence en Mésopotamie, que se encontra em Lens, lembrei-me deste livro que li no 1.º ano da faculdade e de que gostei imenso:
Lisboa: Europa-América, 1963
A História começa na Suméria porque foi lá que se inventou a escrita. A Suméria ocupava o sul do Iraque e do Kuwait. E vejam a destruição que tem acontecido no Iraque...
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Leituras no Metro - 261
«Num livro recente sobre Itália, ficámos a saber que no início da unificação italiana, em 1861, um total global de 2,5% de italianos falava aquilo que identificamos como italiano; noutro, que para ficarem aprovados nos exames, os burocratas chineses dos século XV e XVI tinham de memorizar 431286 caracteres diferentes. O primeiro facto dá visibilidade à luta da Itália para se tornar numa nação moderna. O segundo recorda-nos a razão por que a China levou tanto tempo a desenvolver uma vasta classe média letrada. Se o houvesse antecipado - se os chineses contassem só com vinte e poucas letras fonéticas - a história da China teria sido muito diferente.»
Andrew Marr - História do mundo. Alfragide: Texto, 2016, vol. 1, p. 24
Estou a gostar bastante deste livro.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
A Duquesa de Mântua, uma leitura
Para a maioria dos que, não tendo formação na área de História, se interessam pelo período da"União Ibérica" (1580-1640) e, sobretudo da conjura que culminaria no heroico 1º de Dezembro de 1640 e na Restauração na pessoa do 8º Duque de Bragança, D. João, nesse dia aclamado como D. João IV, rei de Portugal, a figura da Vice-Rainha em nome de Filipe III (IV de Espanha) Duquesa de Mântua, é quase uma nota de rodapé. Uma figura que é pouco menos do que ridicularizada na invasão do Paço da Ribeira pelos fidalgos conjurados e a quem o relato daquele episódio fundamental da nossa História pouca atenção ou poucas linhas reserva.
No entanto a verdade histórica é bem outra e a figura de Margarida de Sabóia, neta de Filipe I de Portugal e bisneta da Imperatriz Isabel, mulher de Carlos V e filha de D. Manuel I, é de enorme interesse pelo seu papel no desenrolar dos interesses espanhóis em Itália e depois em Portugal, pela sua primorosa educação, pelo seu carácter e determinação política nos cenários em que actuou.
Joana Bouza Serrano que que já nos havia dado “As Avis”, traça agora, com grande rigor científico e recorrendo a fontes italianas, dos países - baixos, espanholas e portuguesas e a uma extensa bibliografia, o retrato dessa princesa - enquadrado na visão das políticas imperiais europeias da dinastia iniciada pelo seu bisavô - que tendo sido Duquesa de Mântua e filha de um duque de Saboia, foi sobretudo uma Habsburgo, orgulhosa da sua ancestralidade espanhola, que a política do Conde-Duque de Olivares empurrou para Portugal por ser de sangue real e entender que o parentesco com o rei Filipe III e ascendência portuguesa ajudaria acalmar o mal-estar pela pouca importância que Madrid dispensava ao reino, ao qual era necessário extorquir pesado contributo para um Tesouro depauperado.Um retrato que não é o de uma princesa timorata que se apaga perante os revoltosos, mas que tenta resistir porque tem uma missão que não aceita a traição.
sábado, 16 de janeiro de 2016
Rua dos Mercadores em Lisboa, no Séc. XVI
Para quem não tenha lido no "Público".
No século XVI, a Rua Nova dos Mercadores era uma pequena babel. Nos seus
edifícios, moravam italianos, flamengos, andaluzes, portugueses. Enquanto
isso, naquela rua da Baixa de Lisboa, cristãos-novos, judeus estrangeiros,
escravos vindos de 20 nações africanas, escravos árabes passeavam-se, muitos
faziam trocas comerciais. É esta a realidade trazida à superfície no livro
recentemente editado no Reino Unido The global city. On the streets of the
renaissance Lisbon (A Cidade Global – Nas Ruas da Lisboa Renascentista),
editado pelas historiadoras Annemarie Jordan Gschwend, do Centro de História
d’Aquém e d’Além-Mar, a trabalhar na Suíça, e Kate Lowe, da Universidade
Queen Mary de Londres.
A obra tem como ponto de partida dois quadros descobertos em 2009, numa
mansão inglesa, em Oxfordshire, datados entre a década de 1570 e 1620 por
Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe. Foram pintados por um artista
holandês anónimo. Nas duas pinturas, estamos perante mais de uma centena de
figuras humanas, que conversam, montam a cavalo, numa rua com uma fileira de
edifícios em segundo plano. Há homens, mulheres, negros, brancos, cavalos,
movimento e vestimentas apropriadas ao Outono ou ao Inverno.
Quando viram os quadros – que se pensa serem duas telas cortadas a partir de
uma única pintura –, as historiadoras rapidamente determinaram que estavam
perante a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa. É a partir desta malha visual
que o livro é construído, indo buscar documentação oficial, testemunhos da
época e objectos que sobreviveram até hoje para falar sobre a cidade global
que Lisboa era no século XVI, as suas gentes, a sua cultura material em
capítulos escritos por investigadores diferentes.
“É uma vista estranha, que nos mostra uma rua da qual nós realmente não
conhecemos nada. Lisboa foi perdida em 1755. Foi como se tivesse caído uma
bomba nuclear <http://www.publico.pt/1468037 > ”, diz Annemarie Jordan
Gschwend ao PÚBLICO, no início de Dezembro, quando esteve em Lisboa na
apresentação do livro no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).
“Para mim, o que é interessante é a vida na rua. Lisboa tinha uma grande
população negra. E o quadro não mostra apenas a população negra, mostra
também os estrangeiros que ajudaram Lisboa a tornar-se a grande cidade
comercial que era no século XVI. Os quadros também mostram animais. Há um
cão que está a abocanhar uma ave. E é um peru. É uma ave que veio da América
e que os portugueses tornaram numa ave global, levando-a para a Índia e para
outras partes do mundo.”
Esta é apenas uma das imagens simbólicas encontradas entre os pormenores das
pinturas. Para um especialista, há muita informação nos quadros sobre aquela
cidade agora distante de nós, quando Portugal tinha um império construído
durante os Descobrimentos, e um comércio único vindo do Oriente, de África e
da América, passava obrigatoriamente por Lisboa
<http://www.publico.pt/ ciencias/jornal/no-seculo-em- que-elefantes-caminhavam
-por-lisboa-26215752> . As interacções comerciais, a escravatura, o percurso
dos produtos dentro da cidade para o rio Tejo, as relações entre portugueses
e estrangeiros ou a arquitectura da rua são questões que podem começar a ser
descortinadas a partir do que se vê naquelas duas telas, que funcionam como
um díptico.
“Os quadros são espantosos, mas também enigmáticos”, disse Henrique Leitão,
historiador de ciência e Prémio Pessoa 2014, que fez a apresentação do livro
no MNAA. “São completamente diferentes de todas as outras representações de
Lisboa que dispomos, que, com pouquíssimas excepções, são vistas distantes e
panorâmicas, a partir de um ponto de vista afastado.”
Mas os quadros da Rua Nova dos Mercadores não. “Tal como o quadro do
Chafariz d’el Rey [de autor anónimo, datado entre 1570 e 1580, exposto no
Centro Cultural de Belém], as pinturas representam uma cena viva e intensa
que arrasta irreprimivelmente o observador para dentro dela. É impossível
olhar para estes quadros sem que imediatamente se forme na mente uma
torrente imensa de perguntas”, prosseguiu, enunciando-as: “Que rua é esta?
Que cidade é esta? Que casas são estas? Mas, acima de tudo, quem é esta
gente? E o que é que eles estão a fazer?”
A Rua Nova dos Mercadores ficava atrás do que hoje é o Terreiro do Paço,
entre o início da Rua do Ouro e da dos Fanqueiros, e onde hoje é
sensivelmente a Rua do Comércio. O que se vê no díptico é a fileira de
edifícios que estão do lado do Tejo. Por isso, atrás destes prédios estaria
na altura a Rua da Confeitaria e, mais atrás, o Terreiro do Paço e o rio
Tejo. No extremo esquerdo da primeira pintura nestas páginas vê-se ainda o
largo do Pelourinho o Velho.
A rua media 286 metros de comprimento e 8,8 metros de largura.
“Aproximadamente, 45 edifícios estavam distribuídos de cada lado. A maioria
dos edifícios tinham uma ocupação múltipla, consistindo de três, cinco e
seis andares”, lê-se num dos capítulos do livro, assinado por Annemarie
Jordan Gschwend, que reconstitui a vida daquela rua.
A cerca de ferro que se observa na pintura dá nome à Rua Nova dos Ferros,
que é a parte oriental da Rua Nova dos Mercadores. Era dentro desta cerca
que os comerciantes, lojistas e banqueiros tinham um espaço semiprivado para
conduzirem os negócios. “O artista mostra a sua percepção da interacção
social que testemunhou na Rua Nova – a concentração de mercadores ricos
vestidos ao estilo espanhol, com capas pretas na moda, dentro da cerca de
ferro e separados dos habitantes menos afortunados, que ficam fora desta
fronteira”, explica o livro.
Era no rés-do-chão dos edifícios que estava uma multitude de lojas. Em 1552,
existiam 11 livrarias, onde também se encontravam livros de matemática, e 20
lojas de roupa e têxteis, onde se vendiam tecidos de veludo, sedas, tecido
adamascado, tafetás vindos da Europa, da Índia e do Extremo Oriente. Em
1581, um ano após o início da dinastia filipina, existiam seis lojas
especializadas na venda de porcelana Ming chinesa, nove boticas – as
“farmácias” que na altura vendiam “produtos medicinais”, alguns importados
da Ásia, como pedras bezoares, que se formam no sistema digestivo dos
ruminantes, ou cornos de rinoceronte – além de artesãos, como alfaiates,
calceteiros, barreteiros ou sirgueiros.
Era esta a dinâmica de uma cidade vibrante que estava a receber os frutos da
rede comercial que tinha sido criada (só entre 1500 e 1521, o rei D. Manuel
I enviou 237 naus para a Índia) e da crescente população cada vez mais
misturada. De 1551 há um testemunho de que 10% dos 100.000 lisboetas eram
negros. Dezassete anos depois, Lisboa tinha 150.000 habitantes, onde as
minorias mais representadas eram escravos negros e índios. Em 1578, cerca de
20% dos 250.000 habitantes eram negros.
“Os quadros confirmam que Lisboa era muito misturada racialmente, que havia
gente de muitos povos, muitos negros, que havia produtos exóticos”, diz
Henrique Leitão ao PÚBLICO, acrescentando que uma das surpresas do livro
provém da informação sobre o que existia dentro de algumas das casas da Rua
Nova dos Mercadores. “[Os investigadores para este livro] descobriram
documentação fantástica. Sobretudo inventários pessoais. E isto é muito
importante, porque ficamos a ver o que é que as pessoas tinham mesmo dentro
de casa. A grande surpresa é que estavam cheias de produtos exóticos. Dantes
pensávamos que os produtos exóticos eram a marca de gente muito rica. Mas
acabámos por ver que eram banalíssimos. A louça chinesa estava por todo o
lado, os tecidos indianos estavam por todo o lado.”
Pela documentação, sabe-se hoje que era permitido aos comandantes e aos
marinheiros das naus trazerem o chamado “comércio miúdo” nas suas viagens à
Índia, podendo fazer um pouco dinheiro. Esta invasão de bens vindos do
Oriente é ainda demonstrada pelo historiador de arte Hugo Miguel Crespo, do
Centro de História da Universidade de Lisboa, que, no capítulo sobre o
recheio dos interiores das casas da Rua Nova dos Mercadores, nota que
clientes ricos como Teodósio I, duque de Bragança, adquiriam muitos mais
produtos de luxo europeus, que eram mais raros, do que produtos asiáticos.
Mas toda esta riqueza também transparece nos edifícios que se observam no
díptico. Os sucessivos reis, começando com D. João II, foram financiando
obras para alterar aquela famosa rua. “D. Manuel I tentou construir uma
cidade mais regular. Por isso, ordenou que os balcões de madeira medievais
fossem retirados. A rua passou a ser mais larga e foi pavimentada. Era uma
rua que estava a tentar passar uma mensagem. Tinha apoio real e civil. Era
importante que Lisboa tivesse uma rua comercial. Trazia dinheiro, impostos,
comércio”, explica Annemarie Jordan Gschwend.
Depois, a história seguiu em frente: a dinastia filipina retirou alguma
importância a Lisboa, as rotas comerciais alteraram-se e o terramoto de 1755
mudou para sempre a cartografia da cidade. “O Marquês de Pombal construiu
tudo do zero e impôs uma nova ordem arquitectónica”, explica a historiadora,
acrescentando que a Rua Nova dos Mercadores foi “substituída” por outras
ruas com comércio. Desses tempos, ficaram documentos, objectos e este
díptico da rua que era a “Quinta Avenida do seu tempo”, considera Annemarie
Jordan Gschwend. E que agora é uma rara memória visual daquela Lisboa
global.
Pré-visualizar anexo ATT00007.jpg
edifícios, moravam italianos, flamengos, andaluzes, portugueses. Enquanto
isso, naquela rua da Baixa de Lisboa, cristãos-novos, judeus estrangeiros,
escravos vindos de 20 nações africanas, escravos árabes passeavam-se, muitos
faziam trocas comerciais. É esta a realidade trazida à superfície no livro
recentemente editado no Reino Unido The global city. On the streets of the
renaissance Lisbon (A Cidade Global – Nas Ruas da Lisboa Renascentista),
editado pelas historiadoras Annemarie Jordan Gschwend, do Centro de História
d’Aquém e d’Além-Mar, a trabalhar na Suíça, e Kate Lowe, da Universidade
Queen Mary de Londres.
A obra tem como ponto de partida dois quadros descobertos em 2009, numa
mansão inglesa, em Oxfordshire, datados entre a década de 1570 e 1620 por
Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe. Foram pintados por um artista
holandês anónimo. Nas duas pinturas, estamos perante mais de uma centena de
figuras humanas, que conversam, montam a cavalo, numa rua com uma fileira de
edifícios em segundo plano. Há homens, mulheres, negros, brancos, cavalos,
movimento e vestimentas apropriadas ao Outono ou ao Inverno.
Quando viram os quadros – que se pensa serem duas telas cortadas a partir de
uma única pintura –, as historiadoras rapidamente determinaram que estavam
perante a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa. É a partir desta malha visual
que o livro é construído, indo buscar documentação oficial, testemunhos da
época e objectos que sobreviveram até hoje para falar sobre a cidade global
que Lisboa era no século XVI, as suas gentes, a sua cultura material em
capítulos escritos por investigadores diferentes.
“É uma vista estranha, que nos mostra uma rua da qual nós realmente não
conhecemos nada. Lisboa foi perdida em 1755. Foi como se tivesse caído uma
bomba nuclear <http://www.publico.pt/1468037
Gschwend ao PÚBLICO, no início de Dezembro, quando esteve em Lisboa na
apresentação do livro no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).
“Para mim, o que é interessante é a vida na rua. Lisboa tinha uma grande
população negra. E o quadro não mostra apenas a população negra, mostra
também os estrangeiros que ajudaram Lisboa a tornar-se a grande cidade
comercial que era no século XVI. Os quadros também mostram animais. Há um
cão que está a abocanhar uma ave. E é um peru. É uma ave que veio da América
e que os portugueses tornaram numa ave global, levando-a para a Índia e para
outras partes do mundo.”
Esta é apenas uma das imagens simbólicas encontradas entre os pormenores das
pinturas. Para um especialista, há muita informação nos quadros sobre aquela
cidade agora distante de nós, quando Portugal tinha um império construído
durante os Descobrimentos, e um comércio único vindo do Oriente, de África e
da América, passava obrigatoriamente por Lisboa
<http://www.publico.pt/
-por-lisboa-26215752> . As interacções comerciais, a escravatura, o percurso
dos produtos dentro da cidade para o rio Tejo, as relações entre portugueses
e estrangeiros ou a arquitectura da rua são questões que podem começar a ser
descortinadas a partir do que se vê naquelas duas telas, que funcionam como
um díptico.
“Os quadros são espantosos, mas também enigmáticos”, disse Henrique Leitão,
historiador de ciência e Prémio Pessoa 2014, que fez a apresentação do livro
no MNAA. “São completamente diferentes de todas as outras representações de
Lisboa que dispomos, que, com pouquíssimas excepções, são vistas distantes e
panorâmicas, a partir de um ponto de vista afastado.”
Mas os quadros da Rua Nova dos Mercadores não. “Tal como o quadro do
Chafariz d’el Rey [de autor anónimo, datado entre 1570 e 1580, exposto no
Centro Cultural de Belém], as pinturas representam uma cena viva e intensa
que arrasta irreprimivelmente o observador para dentro dela. É impossível
olhar para estes quadros sem que imediatamente se forme na mente uma
torrente imensa de perguntas”, prosseguiu, enunciando-as: “Que rua é esta?
Que cidade é esta? Que casas são estas? Mas, acima de tudo, quem é esta
gente? E o que é que eles estão a fazer?”
A Rua Nova dos Mercadores ficava atrás do que hoje é o Terreiro do Paço,
entre o início da Rua do Ouro e da dos Fanqueiros, e onde hoje é
sensivelmente a Rua do Comércio. O que se vê no díptico é a fileira de
edifícios que estão do lado do Tejo. Por isso, atrás destes prédios estaria
na altura a Rua da Confeitaria e, mais atrás, o Terreiro do Paço e o rio
Tejo. No extremo esquerdo da primeira pintura nestas páginas vê-se ainda o
largo do Pelourinho o Velho.
A rua media 286 metros de comprimento e 8,8 metros de largura.
“Aproximadamente, 45 edifícios estavam distribuídos de cada lado. A maioria
dos edifícios tinham uma ocupação múltipla, consistindo de três, cinco e
seis andares”, lê-se num dos capítulos do livro, assinado por Annemarie
Jordan Gschwend, que reconstitui a vida daquela rua.
A cerca de ferro que se observa na pintura dá nome à Rua Nova dos Ferros,
que é a parte oriental da Rua Nova dos Mercadores. Era dentro desta cerca
que os comerciantes, lojistas e banqueiros tinham um espaço semiprivado para
conduzirem os negócios. “O artista mostra a sua percepção da interacção
social que testemunhou na Rua Nova – a concentração de mercadores ricos
vestidos ao estilo espanhol, com capas pretas na moda, dentro da cerca de
ferro e separados dos habitantes menos afortunados, que ficam fora desta
fronteira”, explica o livro.
Era no rés-do-chão dos edifícios que estava uma multitude de lojas. Em 1552,
existiam 11 livrarias, onde também se encontravam livros de matemática, e 20
lojas de roupa e têxteis, onde se vendiam tecidos de veludo, sedas, tecido
adamascado, tafetás vindos da Europa, da Índia e do Extremo Oriente. Em
1581, um ano após o início da dinastia filipina, existiam seis lojas
especializadas na venda de porcelana Ming chinesa, nove boticas – as
“farmácias” que na altura vendiam “produtos medicinais”, alguns importados
da Ásia, como pedras bezoares, que se formam no sistema digestivo dos
ruminantes, ou cornos de rinoceronte – além de artesãos, como alfaiates,
calceteiros, barreteiros ou sirgueiros.
Era esta a dinâmica de uma cidade vibrante que estava a receber os frutos da
rede comercial que tinha sido criada (só entre 1500 e 1521, o rei D. Manuel
I enviou 237 naus para a Índia) e da crescente população cada vez mais
misturada. De 1551 há um testemunho de que 10% dos 100.000 lisboetas eram
negros. Dezassete anos depois, Lisboa tinha 150.000 habitantes, onde as
minorias mais representadas eram escravos negros e índios. Em 1578, cerca de
20% dos 250.000 habitantes eram negros.
“Os quadros confirmam que Lisboa era muito misturada racialmente, que havia
gente de muitos povos, muitos negros, que havia produtos exóticos”, diz
Henrique Leitão ao PÚBLICO, acrescentando que uma das surpresas do livro
provém da informação sobre o que existia dentro de algumas das casas da Rua
Nova dos Mercadores. “[Os investigadores para este livro] descobriram
documentação fantástica. Sobretudo inventários pessoais. E isto é muito
importante, porque ficamos a ver o que é que as pessoas tinham mesmo dentro
de casa. A grande surpresa é que estavam cheias de produtos exóticos. Dantes
pensávamos que os produtos exóticos eram a marca de gente muito rica. Mas
acabámos por ver que eram banalíssimos. A louça chinesa estava por todo o
lado, os tecidos indianos estavam por todo o lado.”
Pela documentação, sabe-se hoje que era permitido aos comandantes e aos
marinheiros das naus trazerem o chamado “comércio miúdo” nas suas viagens à
Índia, podendo fazer um pouco dinheiro. Esta invasão de bens vindos do
Oriente é ainda demonstrada pelo historiador de arte Hugo Miguel Crespo, do
Centro de História da Universidade de Lisboa, que, no capítulo sobre o
recheio dos interiores das casas da Rua Nova dos Mercadores, nota que
clientes ricos como Teodósio I, duque de Bragança, adquiriam muitos mais
produtos de luxo europeus, que eram mais raros, do que produtos asiáticos.
Mas toda esta riqueza também transparece nos edifícios que se observam no
díptico. Os sucessivos reis, começando com D. João II, foram financiando
obras para alterar aquela famosa rua. “D. Manuel I tentou construir uma
cidade mais regular. Por isso, ordenou que os balcões de madeira medievais
fossem retirados. A rua passou a ser mais larga e foi pavimentada. Era uma
rua que estava a tentar passar uma mensagem. Tinha apoio real e civil. Era
importante que Lisboa tivesse uma rua comercial. Trazia dinheiro, impostos,
comércio”, explica Annemarie Jordan Gschwend.
Depois, a história seguiu em frente: a dinastia filipina retirou alguma
importância a Lisboa, as rotas comerciais alteraram-se e o terramoto de 1755
mudou para sempre a cartografia da cidade. “O Marquês de Pombal construiu
tudo do zero e impôs uma nova ordem arquitectónica”, explica a historiadora,
acrescentando que a Rua Nova dos Mercadores foi “substituída” por outras
ruas com comércio. Desses tempos, ficaram documentos, objectos e este
díptico da rua que era a “Quinta Avenida do seu tempo”, considera Annemarie
Jordan Gschwend. E que agora é uma rara memória visual daquela Lisboa
global.
Pré-visualizar anexo ATT00007.jpg
segunda-feira, 27 de abril de 2015
O duque de Morny - fofoca biográfica
Um post de Luís Barata, dava conta da transformação de um
palácio parisiense que pertenceu aos duques de Morny num hotel de luxo,
mostrando-nos, a propósito do Dia do Livro, a bonita biblioteca que se manterá
intacta.
![]() |
| Duque Charles Auguste de Morny |
Mas quem foi o primeiro duque de Morny? O primeiro conde
(com Luís Filipe) e depois duque de Morny (com Napoleão III) foi Charles Auguste
De Morny (1811-1865), financeiro e político, filho ilegítimo da rainha Hortense
e de Charles Flahaut de la Billarderie, conde e general do Império, mas a troco
de grossa quantia figurou como pai um tal senhor Demorny que rapidamente
desapareceu. O pai biológico era, por sua vez, filho bastardo do célebre Talleyrand
e da mulher do Conde de Flahaut, suposto pai. E esta senhora, filha de uma
amante de Luís XV. Daí que De Morny dissesse que “na minha linhagem somos
bastardos de mãe a filho desde há três gerações. Sou bisneto de um rei, neto de
um bispo, filho de uma rainha e irmão de um imperador”. Era, de facto, meio -
irmão de Napoleão III, que ajudou a transformar de presidente da república em
soberano. Foi educado pela avó paterna, condessa de Flahaut, curiosamente
casada em segundas núpcias com um diplomata português de apelido Souza. Também
curiosamente, de uma relação extraconjugal do duque, descende o príncipe Miguel
Poniatowsky, que foi ministro do Interior de Raymond Barre, na década de
setenta.
![]() |
| Rainha Hortense |
O primeiro duque de Morny foi um homem notável a vários
títulos. Como político, de deputado a presidente da Assembleia, ministro do Interior,
embaixador em São Petersburgo (onde conheceu uma princesa russa com quem casou),
como financeiro e até como protector do escritor e dramaturgo Daudet e de Sarah
Bernhardt, a quem lançou a carreira.
![]() |
| Princesa Sofia Trubtzkaya, duquesa de Morny |
Napoleão III fez-lhe funerais nacionais e jaz no Pére
Lachaise num túmulo armoriado digno da sua grandeza.
![]() |
| Túmulo no Pére Lachaise |
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Celebrar 950 anos do Tempo de D. Sesnando
Celebrar 950 anos do Tempo de D. Sesnando - Congresso Internacional, "Coimbra, Cidade Aberta"
O Professor Doutor Jorge Alarcão apresentou a sua comunicação intitulada:
"Coimbra e a sua Região no Tempo de D. Sesnando"
É sempre um prazer ouvi-lo.
A voz do "Mestre" encheu e iluminou a sala
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Pensamento ( s )
I am too old not to know that error is just as important a factor in history - and scholarship - as truth.
- Escreveu em 1957 o grande historiador de arte Erwin Panofsky .
terça-feira, 1 de julho de 2014
Novidades
Não sei se leram a notável entrevista a Francisco Bethencourt no Público da passada Sexta-Feira, mas se não o fizeram recomendo vivamente. À volta desta sua nova obra, que é uma verdadeira história geral do racismo.
A seguir à entrevista, é Diogo Ramada Curto quem assina a recensão, que não é acrítica, que termina assim :
(...) trata-se de uma obra que ficará na história da historiografia portuguesa e da nossa cultura como um marco. De leitura obrigatória, para ser lido e criticado pelas futuras gerações.
terça-feira, 10 de junho de 2014
As vozes
Após a MR ter colocado o livro A Dama e o Unicórnio de Teresa Horta que tinha uma vontade imensa de o ler, ver e ouvir. Só hoje vi e li a beleza que guarda o livro.
Agora compro livros de forma mais controlada mas este provocou a compra impulsiva. Agradeço a MR.
Tornou-se uma recordação deste dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
A História coloca este problema dos que são invisíveis.
A posse ou o espírito de posse talvez seja horrível
mas há livros que despertam este sentimento.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Novidades
Até a frivolidade nos faz falta de vez em quando ... Este novo livro, e é um belo livro, da historiadora Sabine Melchior-Bonnet ( História dos Espelhos e também é dela outro grande sucesso - História do Casamento ) foi lançado no final do ano passado mas é sério candidato aos habituais prémios que serão anunciados brevemente.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
A nossa vinheta
Pormenor da alegoria à outorga da Carta Constitucional de 1826
D. Pedro, Imperador do Brasil, Imperatriz D. Amélia e D. Maria II, Rainha de Portugal
A outorga da Carta Constitucional de 29 de Abril de 1926, por D. Pedro, Imperador do Brasil, depois da morte de seu pai, D. João VI, rei de de Portugal, em 10 de Março desse mesmo ano, em nome de sua filha D. Maria da Glória, deu início ao período constitucional mais duradouro da História de Portugal, apesar de ter estado suspensa de 1828 a 1834 e de 1838 a 1842, ano a partir da qual vigorou até 1910. Com a outorga da Carta de 1826 consolidaram-se os caminhos da Liberdade, que a efémera Constituição de 1822 haviam iniciado.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Citações
(...) A história não é o que se viveu. É um discurso sobre o que se viveu e, por muita objectividade que se pretenda, é sempre subjetivo. É do homem que escreve, das suas ideias, da sua experiência.
Estamos sempre a fazer escolhas, e eu sempre escolhi temas de que ninguém queria falar. Por exemplo, os mouros. Herculano já tinha dado atenção ao passado muçulmano, mas em geral deparei-me com um problema : onde estavam os mouros? Estiveram cá 500 anos, porque é que não se falava deles? Essa foi a primeira minoria que estudei. Depois, aprofundei a dos judeus e dos cristãos-novos, que em certos períodos se aproximou dos 5% da população portuguesa. (...)
- António Borges Coelho, em entrevista no Expresso do passado sábado.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Carta de Pêro Vaz de Caminha no Público
Carta de Pêro Vaz de Caminha no Público, 5 de Março 2014
Adriana Calcanhotto, directora por um dia, quis que a carta de Pêro Vaz de Caminha fosse publicada nesta edição de aniversário, por esse documento ser a prova de os portugueses acharem que descobriram o Brasil.
Público, 5/o3/2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 17 de abril de 2013
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Para a História
"Pela primeira vez em quase 180 anos, os restos mortais de Dom Pedro I, o primeiro imperador brasileiro, foram exumados para estudos. Também foram abertas as urnas funerárias das duas mulheres de Dom Pedro I: as imperatrizes Dona Leopoldina e Dona Amélia. Os corpos estavam no Parque da Independência, na zona sul da capital, desde 1972.
Os exames – realizados em sigilo entre fevereiro e setembro de 2012 pela historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, com o apoio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) – revelam fatos desconhecidos sobre a família imperial brasileira, agora comprovados pela ciência, e compõem um retrato jamais visto dos personagens históricos.
Agora se sabe que o imperador tinha quatro costelas fraturadas do lado esquerdo, o que praticamente inutilizou um de seus pulmões – fato que pode ter agravado a tuberculose que o matou, aos 36 anos, em 1834. Os ferimentos constatados foram resultado de dois acidentes a cavalo (queda e quebra de carruagem), ambos no Rio, em 1823 e em 1829.
Ao realizar o inventário do caixão de Dom Pedro, nova surpresa: não havia nenhuma comenda ou insígnia brasileira entre as cinco medalhas encontradas em seu esqueleto. O primeiro imperador do Brasil foi enterrado como general português, vestido com botas de cavalaria, medalha que reproduzia a constituição de Portugal e galões com formato da coroa do país ibérico. A única referência ao período em que governou o Brasil está na tampa de chumbo de um de seus caixões (ele estava dentro de três urnas), na qual foi gravado “Primeiro Imperador do Brasil” ao lado de “Rei de Portugal e Algarves”...
O estudo também desmente a versão histórica – já próxima da categoria de “lenda” – de que a primeira mulher, Dona Leopoldina, teria caído ou sido derrubada por Dom Pedro de uma escada no palácio da Quinta da Boa Vista, então residência da família real. Segundo a versão, propalada por historiadores como Paulo Setúbal, ela teria fraturado o fêmur. Nas análises no Instituto de Radiologia da USP, porém, não foi constatada nenhuma fratura nos ossos da imperatriz."
Notícia de 18 de Fevereiro de 2013
jornal "Estado de S. Paulo"
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Ó fascista...
Pensava eu que tinha já sido eliminada a velha táctica de chamar " fascista " por tudo e por nada, ou sem o mínimo suporte na realidade, e eis que afinal é uma prática bem viva como pudemos ver na recente polémica ocorrida nas páginas do Público entre dois historiadores da nossa praça, Rui Ramos e Manuel Loff.
Podemos não concordar com algumas das interpretações do Prof.Ramos, mas daí a considerá-lo um historiador fascista vai um passo tão grande que apenas cobre de ridículo Manuel Loff. De aplaudir a resposta serena, objectiva, factual de Rui Ramos.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Pensamento(s)
Qu'y a-t-il donc dans l'histoire qui ne soit l'appel ou la peur de la révolution?
- Michel Foucault, no curso de 28 de Janeiro de 1976 no Collège de France.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





_Countess_of_Morny%2C_1863S.jpg)

.jpg)




.jpg)




