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sábado, 18 de outubro de 2025

Sou barco


Sou barco abandonado 
Na praia ao pé do mar 
E os pensamentos são 
Meninos a brincar. 

Ei-lo que salta bravo 
E a onda verde-escura 
Desfaz-se em trigo 
De raiva e amargura. 

Ouço o fragor da vaga 
Sempre a bater no fundo, 
Escrevo, leio, penso, 
Passeio neste mundo 
De seis passos 
E o mar a bater ao fundo. 

Agora é todo azul, 
Com barras de cinzento, 
E logo é verde, verde, 
Seu brando chamamento. 

Ó mar, venha a onde forte 
Por cima do areal 
E os barcos abandonados 
Voltarão a Portugal.

António Borges Coelho

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Marcadores de livros - 3516

Parabéns a António Borges Coelho que faz hoje 97 anos. 

Este livro trazia um postal e um marcador dos 50 anos da Caminho:

Alfragide: Caminho, 2025.

Trago o peito molhado 
Das chuvas das torrentes
que a vida sobre nós tem derramado
Cerro os punhos digo /por mais que sofras
fica sempre o mar

quinta-feira, 25 de abril de 2019

«Foram-te longe encerrar»



Abre hoje, finalmente, a primeira parte do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade na Fortaleza de Peniche. Às 18h00 será descerrado, na entrada interior da antiga prisão, um grande memorial onde estão inscritos os nomes dos 2510 presos políticos que, entre 1934 e 1974, estiveram aqui encarcerados. 



quinta-feira, 13 de março de 2014

Citações


(...) A história não é o que se viveu. É um discurso sobre o que se viveu e, por muita objectividade que se pretenda, é sempre subjetivo. É do homem que escreve, das suas ideias, da sua experiência.
Estamos sempre a fazer escolhas, e eu sempre escolhi temas de que ninguém queria falar. Por exemplo, os mouros. Herculano já tinha dado atenção ao passado muçulmano, mas em geral deparei-me com um problema : onde estavam os mouros? Estiveram cá 500 anos, porque é que não se falava deles? Essa foi a primeira minoria que estudei. Depois, aprofundei a dos judeus e dos cristãos-novos, que em certos períodos se aproximou dos 5% da população portuguesa. (...)

- António Borges Coelho, em entrevista no Expresso do passado sábado.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Homens e Árvores

Associando-me ao Luís na homenagem às árvores

HOMENS E ÁRVORES
Árvore despida, Outono
Irmanam-se os homens como as árvores.
A ambos a morte espreita
com o seu "flasch": Mary magra e direita
que parando o Pontiac
metesse o Marquês no seu kodak.

Estão mais verdes as árvores
do que os homens.

Não há rostos como figos velhos
pêssegos em passa?
Debaixo da pele mirrada
quanta polpa rica se disfarça.

E pernas jovens sem cuidados
tremem de seiva
pernas como sobreiros descascados
a arderem enterrados em oculta leiva.

António Borges Coelho, Ponte Submersa. Lisboa: Jogral, 1969, p.12

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Roseira Verde

Edward Burne-Jones, O príncipe entra no bosque (roseiral silvestre)

Museu de Arte de Ponce, Porto Rico


Roseira Verde

Tenho uma roseira verde
que dá rosas todo o ano.
A cada rosa que nasce
o meu rosto sofre dano.
No canto da minha cela
tenho uma roseira verde.

E sou eu próprio que rego
essa roseira mortal.
Nos passos da minha vida
ela sobe cresce cresce
da roseira é roseiral.

À medida que ela sobe
sou eu que me vou murchando.
Primeiro contava as rosas
de lindas rosas vermelhas
ia o meu corpo enfeitando.

Agora passo por elas
fujo ao seu aroma forte.
E se às vezes rio brinco
outras diviso entre as rosas
a própria face da morte.

Roseira Dona Roseira
não me contes os meus anos.
A cada rosa que nasce
brotam pétalas de esperança
murcham os meus desenganos.

Escrito em 1962. [Obrigada MR]

António Borges Coelho, no mar oceano. Lisboa: Editorial Caminho, 1981, p. 22.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Um livro de António Borges Coelho


Um dos primeiros estudos deste historiador de uma época que levou muita gente à fogueira por apenas possuir livros considerados proibidos, ou por  pensarem ou viverem de modo diferente ao estabelecido pela Igreja Católica, foi sobre A Revolução de 1383, livro que se encontra no «índice» de que falei ontem. O que ele se deve estar a rir.
Publicado em 1965, o livro esteve proibido até 1974. Esta mania de certa gente querer formatar as consciências...

Lisboa: Portugália, 1965
Capa de João da Câmara Leme.
5.ª ed. Lisboa: Caminho, 1984

Jad, para já, foi o único livro de história de Portugal que encontrei na lista. Devem andar um bocado desatentos. :)