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sábado, 22 de novembro de 2025

Leituras no Metro - 2975


«Vieram alguns amigos. Um trouxe bebida, outros trouxeram bocas. Um trouxe cigarros, outro, apenas seu pulmão. Um deitou-se na rede, e outro telefonava. E Joaquina de mão no queixo, olhando o céu, era quem mais fazia: fazia olhos azuis.» 
Rubem Braga - Desculpem tocar no assunto. Lisboa: Tinta da China, 2013, p. 116.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Leituras no Metro - 2974

Lisboa: Tinta da China, 2023.

É deste modo que Rubem Braga termina a primeira crónica, provavelmente de 1935, recolhida nesta antologia: 
«Amanhã eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso; posso falar bem de todo o mundo, até do governo, até da polícia. Saibam desde já que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.
«Até amanhã. Passem mal.» (p. 13)
Lembrei-me de João Paulo Cotrim que se despedia sempre com um «Portem-se mal!». Mas esta interjeição é bem mais simpática e afetuosa que a de Rubem Braga. 😉

E a despedida da segunda crónica, escrita no «Rio de Janeiro, 1935»: 
«O que é necessário é que chegou o outono. Chegou ás 13:48 horas, na Rua Marquês de Abrantes, e continua em vigor. Em vista do que, ponhamo-nos melancólicos.» (p. 16)

E para terminar, por hoje, o final de outra, de março de 1944:
«E dizer que outro dia eu li um artigo de um cavalheiro, no jornal, dizendo que o nosso povo precisa se fortalecer fazendo ginástica! Ah, ginástica, ginástica! Ginástica para viver, ridícula e patética ginástica que tanta gente faz todo dia simplesmente para isso: para continuar. Ah, ginástica! Isso cansa, meu caro senhor, isso cansa.» (p. 24)

Por hoje, ficamos por aqui, mas Rubem Braga (1913-1990) vai voltar.

domingo, 16 de junho de 2024

O Futebol nas Letras - 36

Lisboa: Dom Quixote, 2006

«De caneta em punho, joguei ao lado de Figo, de Deco, de Rui Costa, de Ronaldo. Defendi, com Ricardo, sem luvas, o último pontapé dos ingleses e, com ele, corri para a bola e marquei o golo que desempatou e mandou os ingleses de volta para a sua ilha. Na final, confesso, senti-me mais no banco do que em campo. Creio que houve um excesso de mobilização, de tensão, de barcos, de motos, de buzinas. Os gregos cantavam a plenos pulmões e os portugueses estavam cansados, tinham a boca seca ou um nó na garganta. E eu no banco, ao lado de Rui Costa e Nuno Gomes que Scolari, inexplicavelmente, não fez alinhar de início. Fartei-me de avisar que era preciso cuidado com os cantos. Em vão. Os gregos marcaram, como já tinham feito à França e aos checos.
«Fosse como fosse, meio século depois dos golos marcados no Largo do Botaréu, em Águeda, eu tinha chegado pela prosa a um campeonato da Europa de futebol.» (Do prefácio)


«[...] a 30 de janeiro de 38, antes de se iniciar um Portugal-Espanha, alguns jogadores da seleção portuguesa recusaram-se a fazer a saudação fascista. Azevedo, do Sporting, encolheu os dedos, Quaresma, do Belenenses, ficou em sentido, Simões e Amaro, também do Belenenses, ergueram os punhos, tendo sido presos pela polícia política para interrogatório. Estava-se em plena guerra civil de Espanha, foi um ato de grande coragem e simbolismo.» (p. 16)

Um livro de crónicas que Manuel Alegre escreveu para os jornais Público e El Pais. Vale a pena lê-las. Não são apenas sobre futebol; são sobre a vida, como o título diz.

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
Futebol se joga na rua,
Futebol se joga na alma.
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Leituras no Metro - 1159

Porto: Porto Ed., 2020.

Este livro fez-me sorrir muitas vezes sentada no banco do metro. Uma crónica sobre taxistas. Há duas classes de trabalhadores com quem não falo: taxistas e polícias. Com os taxistas: cumprimento quando entro no carro, digo o local para onde quero ir e no final pago e cumprimento. Só em dois casos, falei qualquer coisa. Uma há muitos anos com um taxista-pregador. Lá o deixei pregar, pregar, até que ele levanta do banco do pendura uma bíblia e queria-ma impingir. Aí, disse-lhe para parar, paguei e saí. Não seis e foi o mesmo da crónica de Mário de Carvalho.
Há umas semanas apanhei um que vociferava contra umas medidas do Governo que visam combater o abandono escolar precoce por parte da comunidade cigana. E que aquele apoio devia ser dado aos «coitadinhos» dos reformados. Só uns é que eram «coitadinhos».
Quando o homem parou para eu sair só lhe perguntei: 
- O senhor é católico?
- Sou.
- Então, somos todos irmãos, não é?

Há outra crónica de 1996 sobre conversas de autocarro. Realmente não há como conversas de autocarro ou elétrico em que as pessoas muitas vezes já se conhecem e dizem as coisas mais despudoradas.
«Um popular que não queria que na escola lhe misturassem os filhos com os dos ciganos explicou à televisão: "Eles são duma raça, nós somos doutra.» Era um homem bastante mais novo do que eu. Não teve nenhum pejo em proferir aquilo. Nem sonha, com certeza, que a declaração possa causar vergonha. Pelo menos a quem o ouça. Como é que isto me aconteceu, chegar aos cinquenta anos e ouvir dizer e reproduzir estas falas na minha terra? [...]
«Eu circulo pelas ruas, ando de autocarro, vou a supermercados. Ouço-os ao vivo. Há pouca coisa mais repugnante que a chamada "conversa de autocarro": "Eles querem é poleiro!"; "Vai pra tua terra"; "Eles andam é todos a abotoar-se"; "Não 'tava fora de jogo, não senhor". Grotesco. Sórdido. Primitivo.» (p. 81-82)

Acerca da pena de morte:
Laborinho Lúcio, quando era ministro da Justiça, disse, «com extrema dignidade, a uma jornalista tonta, de insistente microfone em riste, que se recusava absolutamente a discutir, sequer, a questão da pena de morte.
«Então em democracia não se pode discutir tudo? Não, não pode, há limites: os do bom gosto, os do respeito pelos outros, os do respeito por si próprio. E também os do respeito pelas pouquíssimas e preciosas aquisições civilizacionais, inseguras e fragilíssimas, que nos separam da barbárie.» (p. 86)

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Leituras no Metro - 1156


Sei que não há muitos leitores de crónicas, mas eu gosto de crónicas. Poucos são os escritores capazes de escrever crónicas. É difícil narrar um facto ou uma historieta (normalmente do quotidiano) em poucas palavras.
José Cardoso Pires, Maria Judite de Carvalho, Fernando Assis Pacheco, António Lobo Antunes e Mário de Carvalho têm em mim uma (re)leitora fiel. 

«Domingo sem piqueniques não era domingo não era nada. Tudo ia preparado minuciosamente pelas nossas mães, o pão, os frangos, os enchidos, arrozes múltiplos, panados, filetes. Havia quem trouxesse caixas mais sofisticadas com copos e pratos apropriados. Mas de uma forma geral improvisava-se com panelas, tachos e o aparato das cozinhas. [...] O pastel de bacalhau era absolutamente indispensável. Mas também podia haver algum marisco. Foi num desses piqueniques no Guincho que, pela primeira vez na vida, comi lavagante, e o bem que aquilo me soube.» (p. 77)
Também participei de alguns piqueniques no Guincho, mas sem lavagante.

Parlatório do Aljube. Simplificado...

«Revolta-me mais a prisão do meu pai do que a minha própria. [...]
«Ora, o meu pai e os seus amigos, em 1959, na altura das suas prisões, integrariam, segundo a PIDE, um "organismo das cooperativas" a mando do Partido Comunista Português.
«Organismo das cooperativas, imaginem. Que prática clandestina seria a duma célula deste jaez? Encontrava-se, reuniam-se e promoviam o cooperativismo. Ademais, intervinham nas associações populares. Candidatavam-se. Davam opiniões. Recebiam "orientações" do PCP e difundiam-nas. Calculem o impacto revolucionário e alarmante desta militância, que, no fundo, pouco diferia do mero passar dos dias.
«Eram [... um] guarda-livros, [... um] contabilista, [... um] sócio duma luxuosa ourivesaria, o meu pai, agente comercial, outro, caixeiro-viajante e tudo... tudo assim.
«Estou a vê-los atrás da rede dupla, na lúgubre sala de visitas do Aljube: homens pacatos, de óculos, gente de família a enfrentar entre grades indiciações gravíssimas de subversão. Obrigaram-nos a noites sem dormir, e foram ameaçados e desconsiderados.
«O seu ar composto e  atento no julgamento... Até os juízes do Plenário - sendo o que se sabe -, não obstante toda a "prova" produzida, devem ter entendido entre si que aqueles revolucionários comerciantes convenciam pouco.» (p. 84-85)

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Leituras no Metro - 1130

Lisboa: Tinta da China, 2021

Diverti-me imenso (o que já antevia) a ler este livro de crónicas de FAP que foram inicialmente publicadas no jornal Record, em 1972.
O craque-autor, na sua juventude em Coimbra, jogou aos botões (dois dos quais retirados do casaco comprido da mãe), à bola, hóquei em patins (com uma trave arrancada da capoeira a servir de stick), com a fisga (uma «super-fisga», feita com um pau, uns esticadores do Joãozinho e um bocado de tecido de um pouf marroquino), matrecos (no primeiro jogo enfiaram uma «chapa» do «Bigodes», moeda de D. Carlos surrupiada à coleção numismática do irmão de um dos companheiros do craque, em vez de dez tostões), etc.
Abriu bocas nos ténis, ao que o pai lhe disse que não lhe compraria outros tão cedo porque «O futebol quer-se com maneiras.»

quinta-feira, 4 de março de 2021

Leituras na pandemia - 50

Lisboa: Arranha-céus: CEUS, 2018

De volta às crónicas, desta vez a ler o volume 2 desta magnífica antologia.                                                                           
«Mar, tu és nosso irmão. Mas não tenhas vergonha de ser apenas mar. Nós também nos resignamos a ser apenas homens.»
Chianca de Garcia, cit. p. 51

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Leituras na pandemia - 47

Lisboa: Arranha-Céus, 2018

Acabei ontem de ler o 1.º volume (446 p.) desta antologia, organizada por Carina Infante do Carmo. Uma boa ideia fazer algo sobre a «crónica autobiográfica portuguesa». Dentro deste critério eu teria substituído dois ou três textos por outros, mas como se costuma dizer «cada cabeça, sua sentença».

«[...] O que é a poesia? O transferir o ideal no real - o aproximar o céu da terra, e elevar esta até as céu. [...] »
Alexandre Herculano, cit. p. 61

«[...] Quem é que vai para a Granja?... Toda a gente conhecida. Toda a gente conhecida é a fórmula provinciana que substitui em Lisboa a expressão Le tout Paris.
«Le tout Paris consta, como se sabe, de uma pequena roda de pessoas, que vão a toda a parte onde a gente se diverte, mas que não somente não são Paris inteiro mas quase nem sequer são Paris.
«oda a gente conhecida é em Lisboa um estreito círculo de senhoras, assinantes de São Carlos, que se vestem na mesma costureira, que mandam vir os chapéus da mesma modista, que usam o mesmo perfume e concorrem de combinação nos mesmos sítios, nas matinées umas das outras, nos respetivos chás das 5 horas da tarde, nos bailes do Paço, no tiro aos pombos, etc.
«Todo o janota que não conhece estas senhoras não é um janota garantido e autêntico. [...]»
Ramalho Ortigão, cit. p. 170.

«[...]  Para o campo é  um modo de dizer, um delicado  e gracioso eufemismo, destinado a significar tudo quanto há de menos campestre no mundo. 
«Os ricos e elegantes foram para Sintra, ou para uma praia qualquer, continuar a vida de Lisboa: as carruagens conhecidas cruzam-se no passeio da tarde, como se cruzavam durante o Inverno na Avenida,; e à noite às mesmas soirées reúnem  as mesmas pessoas, com os mesmos flirts, e a mesma ponta de má-língua - que no fim de contas, sempre é uma consolacãozita na vida. [...]» 
Conde de Ficalho, cit. p. 177

Ainda vão aqui aparecer, oportunamente, mais dois trechos desta antologia.
Uma leitura deliciosa para quem gosta de crónicas, como eu. 

sábado, 14 de novembro de 2015

Livros de cozinha - 87

Lisboa: Oficina do Livro, 2014

Coletânea de crónicas que Maria de Lourdes Modesto escreveu para o Diário de Notícias, estas ou outras já coligidas anteriormente em Palavra puxa receita.

Lisboa: Verbo, 2005