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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

«Vá de Metro, Satanás!»


«Propus uma vez a alguém (por brincadeira, claro) que oferecesse um slogan ao Metropolitano de Lisboa. O slogan era: "Vá de Metro, Satanás!" Esta brincadeira ia-me custando o emprego.» 
Alexandre O'Neill em entrevista a Fernando Assis Pacheco. JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 6 jul. 1982.

Um trocadinho da expressão  vade retro Satana que se pode traduzir como «Retira-te, Satanás». 🤣🤣🤣
O'Neill fazes cá muita falta!

sexta-feira, 29 de março de 2024

Marcadores de livros - 2980

Respondendo ao desafio de Goretti para postarmos marcadores sobre futebol no mês de março, aqui ficam os que consegui localizar:


Marcadores dos livros da col. Os Indomáveis F. C., de Álvaro Magalhães. Em baixo os reversos: o de cima é igual em todos e do último há uma variante.

Um livro de crónicas. Ler aqui.



Biografia de Ruy Castro, ed, pela Tinta da China.
 Li a ed. brasileira e ofereci esta.



Os clubes portugueses bem podiam fazer uns marcadores de livros com os seus jogadores, pelo menos com as 'glórias' dos clubes. Mas nada...

Ler aqui.







Ver mais marcadores aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


Qual será o tema para abril?

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Boa noite!

Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1954

Manuel Mendes faleceu há 50 anos. Escreveu um belo livro, Pedro: romance de um vagabundo, que foi adaptado ao cinema por Alfredo Tropa em 1972, com António Montês no protagonista. Para a banda sonora do filme, Manuel Freire interpretou um poema de Fernando Assis Pacheco musicado por Manuel Jorge Veloso.


Este 45 r.p.m. também existe cá em casa. Editado pelo ZIP-ZIP que depois de ser programa da RTP - onde estreou há 50 anos - foi etiqueta de discos.

domingo, 17 de maio de 2015

Ievtuchenko em Lisboa

Lisboa: Dom Quixote, 1967
Capa e contracapa da ed. dos «poemas recitados pelo próprio autor no Teatro Capitólio em 17 de maio de 1967». Trad. direta do russo por J. Seabra-Dinis, com a colab. de Fernando Assis Pacheco.
Exerto do poema «Imagem de infância».

Nas arrumações encontrei este livro de que há tempos se falou no Arpose.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Leituras no Metro - 153

Porto: Asa, 2001
€5,00

Retratos falados de Fernando Assis Pacheco reúne um conjunto de entrevistas que o jornalista fez, entre 1988 e 1991, e que foram publicadas em O Jornal. O livro começa com um retrato do Assis feito pelo próprio.
Gostei imenso de reler estes retratos (já o tinha feito quando saíram no semanário): de Amália a Mário Soares, Salgueiro Maia ou Costa Pereira.

«[…] deploro que, tendo nós realizado um ato ímpar – pela primeira vez na História da Humanidade uma força militar realiza uma ação de destruição de um poder sem se apropriar desse poder –, isto que em todos os países é relevante passa aqui pura e simplesmente desapercebido, ou então, ao contrário, serve de base para sermos marginalizados, quando não tratados como traidores à Pátria. Isto dá-me uma sensação de desânimo. Mas tenho outros sentimentos. Tenho um sentimento de gozo em especial nas comemorações do 25 de Abril por ver o comportamento de muita gente que é anti-25 de Abril mas que depois tem que ir lá pelas funções que o 25 de Abril lhe deu, e até tem que dizer coisas a favor do 25 de Abril.»
Salgueiro Maia, p. 266-267

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

4 de Fevereiro - 2

1961: Início da luta armada em Angola. Revolta em Luanda, com ataque à Casa de Reclusão, ao quartel da PSP e à Emissora Nacional. Há 50 anos!...

Adriano Correia de Oliveira musicou e interpretou este poema de Manuel Alegre.


NAMBUANGONGO MEU AMOR


Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo longo
a cabeça cortada
e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo
Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.
Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu.
Tu não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.
Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.
É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo longo
tempo exactamente em cima do nosso tempo.
Ai tempo onde a palavra vida rima com a palavra morte
em Nambuangongo.

Manuel Alegre

DIUTURNITAS EXTERNI MALI

De sorte que se acendiam na mata
as lâmpadas de bolso dos guerrilheiros
estando eu sentado numa pedra, a 500 metros
do referido local, com uma espécie
de cão tristeza enrolado aos pés,
e a noite: o rumor das estrelas
caindo a prumo na vegetação,
enquanto dos lados de Muxaluando
uma brisa aponta aos lábios secos
e morre devagar
pela garganta abaixo.

Fernando Assis Pacheco

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A.S.: Escolha Pessoal XVII

Fernando Assis Pacheco



Jornalista de mérito e acaso, quase fundador de “O Jornal”, entrevistador nato e arguto (ver entrevista a Salgueiro Maia em “Retratos Falados”- Ed. Asa), Fernando Assis Pacheco (1937-1995), como poeta, pertence à honrosa linhagem que, tendo origem nos colaboradores das “Cantigas de Escárnio e Maldizer”, passa por alguns poetas do “Cancioneiro Geral”, se prolonga no século XVIII por Tolentino e Bocage, e vem desaguar em Alexandre O’Neill. Uma das suas referências foi também Drummond de Andrade. Assis Pacheco é, talvez, menos “aristocrático” que O’Neill. Mas ambos são portadores de uma discreta ternura ou uma compassiva atenção às pequenas coisas do mundo ou aos “Enjeitados da Fortuna”, para lembrar José Daniel Rodrigues da Costa, outro dos parentes mais afastados, e com muito menos talento.
Fernando Assis Pacheco estreia-se, em 1963, com “Cuidar dos Vivos”, em plena maturidade de estilo e arte, glosa o Vietname – por defesa prudente contra a censura – em “Câu Kiên: um Resumo”(1972), para falar da sua experiência de guerra em Angola. O seu último livro de poesia “Respiração Assistida” sai já, postumamente, em 2003. Nestes seus últimos poemas, Eros e Thanatos entrelaçam-se e fundem-se virulentos e extremos, num estertor final pressentido que, por vezes, raia o fescenino e lembra a “dança da morte “ medieval, num frenético amor à vida que lhe foge.
A arte da indignação também sempre fez parte do seu credo:

Não Posso

Nasce
em torpes corações a Primavera.
Tempo, astros, alegria nunca escolhem
sobre quem derramar-se.
Para exemplo deste imponderável
Goering amava os animais
e vem a Lisboa David Oistrakh
tocar para estudantes e rameiras.
Quando colho uma flor, sei
que ela mudará as minhas noites.
Mas é também conhecido
que a certas horas os carcereiros
despem a farda
e vão às Mercês e à Rinchoa
comprar cestos à beira da estrada
com morangos ou cravos. Não posso
com tanta ironia.

Através de edições de autor, ou editoras menos consagradas, ou marginais, Assis Pacheco procurou afastar-se sempre das mundanidades literárias, dos holofotes da fama e das “vernissages do croquete” que o seu nome, por demais conhecido nos “media”, lhe teria disponibilizado, Truculento e imaginativo, era certeiro e natural nos versos, com a candura e rudeza das palavras sinceras e do seu grande amor à vida.


Desenho de Hans Hartung

Dá Lá a Mão

Herói das noites insones
Coração não me abandones
neste Outono derramado
não me godas coração
dá-me lá a tua mão
coração tu não me enroles
carcaça foi que está gasta
o check-up diz que basta
tem paciência coração
não me godas não me trames
que estou preso por arames
coração dá lá a mão

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

As putas da Avenida


Lisboa: Assírio & Alvim, 2006

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena

Fernando Assis Pacheco
Morreu há 15 anos. Agradeço a APS o ter-mo recordado.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

[Um soneto de amor]



La Chascona, uma das casas de Pablo Neruda

Quando morrer quero essas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais em mim sua frescura:
sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, dormindo, te espero,
quero que os teus ouvidos fiquem ouvindo o vento,
que cheires o aroma do mar que amamos ambos
e fiques pisando a areia que pisamos.

Quero que tudo o que eu amo fique vivo,
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso fica tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que este amor te ordena,
para que esta sombra corra o teu cabelo,
para que assim conheçam a razão do meu canto.

Pablo Neruda
In: Antologia breve / trad. Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Dom Quixote, 1974

sábado, 6 de dezembro de 2008

Os meus poemas - 10

TAMBÉM ESTE CREPÚSCULO Também este crepúsculo nós perdemos. Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas enquanto a noite azul caía sobre o mundo. Olhei da minha janela a festa do poente nas encostas ao longe. Ás vezes como uma moeda acendia-se um pedaço de sol na minha mão. Eu recordava-te com a alma apertada por essa tristeza que tu me conheces. Onde estavas então? Entre que gente? Dizendo que palavras? Porque vem até mim todo o amor de repente quando me sinto trste, e te sinto tão longe? Caiu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo e como um cão ferido rodou a minha capa aos pés. Sempre,sempre te afastas pela tarde para onde o crepúsculo corre apagando as estátuas. Pablo Neruda tradução de Fernando Assis Pacheco (1904 -1973)