Prosimetron

Prosimetron
Mostrar mensagens com a etiqueta Maurice Maeterlinck (1862-1949). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maurice Maeterlinck (1862-1949). Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Bom passeio, Jad!


Charles-Louis Girault (1851–1932) - Arco triunfal do Palácio do Cinquentenário, 1906 (Bruxelas, Parque do Cinquentenário)

BÉLGICA

Bélgica dos canais de labor perseverante,
Que a usura das cousas, tempo afora,
Tempo adiante,
Fez para agora e para jamais
Canais de infinita, enternecida poesia…

Bélgica dos canais, Bélgica de cujos canais
Saiu ao mar mais de uma ingénua vela branca…
Mais de uma vela nova… mais de uma vela virgem…

Bélgica das velas brancas e virgens!

Bélgica dos velhos paços municipais,
Húmidos da nostalgia
De um nobre passado irrevocável.

Bélgica dos pintores flamengos.
Bélgica onde Verlaine escreveu Sagesse.

Bélgica das beguines,
Das humildes beguines de mãos postas, em prece,
Sob os toucados de linho simbólicos.
Bélgica de Malines.
Bélgica de Bruges-a-morta…
Bélgica dos carrilhões católicos.

Bélgica dos poetas iniciadores.
Bélgica de Maeterlinck
(La Mort de Tintagiles, Pelléas et Mélisande.)
Bélgica de Verhaeren e dos campos alucinados da Flandres.

Bélgica das velas ingénuas e virgens.

Manuel Bandeira
In: Poesias completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1940, p. 86-87

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A vida das formigas - 3

«No mundo das formigas, os voos nupciais, em que os machos encontram e fecundam duma vez para sempre as fêmeas, têm menos aparato e são mais económicos [do que nas abelhas]. Como convém ao aspecto humilde do insecto, assemelham-se a casamentos de aldeãos. No entanto, sendo muitas vezes realizadas no mesmo dia por todos os formigueiros dum cantão – no intuito da fecundação cruzada – provocam uma certa efervescência, sobretudo à superfície dos formigueiros, onde as obreiras, inquietas e excitadas, conduzem para fora do ninho e acompanham – como para encorajá-las ou despedir-se delas, e tão longe quanto podem – as fêmeas que vão cumprir o seu perigoso dever, e que nunca mais verão; porque para as formigas […] o amor tem quase o mesmo rosto de que a morte. Nenhum dos machos sobreviverá, e entre mil virgens que abriram voo para o céu, duas ou três, no máximo, realizarão o seu destino e conhecerão as misérias que vamos descrever.
«Aliás, uma polícia previdente e bem organizada vigia as entradas e proximidades do ninho e não consente que todas as fêmeas partam definitivamente. A cidade não deve ficar privada de mais jovens e vazia de possibilidades de porvir. Agarrando-lhes as patas, o guarda do formigueiro retém à força aquelas que se encontram no tecto da colónia e que um fado misterioso assinalara, arrancando-lhes as asas e recondu-las para os subterrâneos onde ficarão prisioneiras até ao fim da vida.»
Maurice Maeterlinck – A vida das formigas. 4.ª ed. Lisboa: Clássica Ed., 1950, p. 47-48

Aqui termina esta rúbrica. Para mais, ler o livro.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A vida das formigas - 2

«”A formiga não gosta de emprestar”, dizia o fabulista [La Fontaine]. É certo, ela não empresta, porque emprestar não é senão um gesto de avarento; dá sem contar e nunca mais reclama. Nada possui, nem sequer aquilo que no seu corpo se encontra. Quase não pensa em comer. Vive não se sabe de quê, do ar do tempo, da electricidade esparsa, de vapores ou de eflúvios. Façam-na jejuar durante muitas semanas sobre o gesso dum formigueiro artificial – e verão se, tendo o cuidado de ali manter um pouco de humidade, ela de facto sofre. Continuará na sua lida, tão esperta, tão activa, como se estivesse os celeiros cheios. Uma gota de orvalho farta o seu estômago privativo. Tudo o que ela busca e acumula sem descanso, através de perigos mortais, é destinado ao odre social, ao insaciável saco da comunidade; aos ovos, às larvas, às ninfas, às companheiras e até às inimigas. A formiga é, em tudo e por tudo, um órgão de caridade. Trabalhadeira tenaz, ascética, casta, virgem, neutra, isto é, sem sexo, o seu prazer é ofertar a quem o queira o produto inteiro dos seus esforços. A regurgitação deve ser para ela um acto tão deleitoso como, para nós, saborear manjares e vinhos raros. Parece evidente que a natureza incorporou na regurgitação volúpias análogas às doa mor, que lhe é interdito. A formiga que regurgita deitando as antenas para trás, como acentua Augusto Torel, toma um ar extasiado e, visivelmente, experimenta mais prazer do que a sua semelhante que se farta de mel. Aliás, na maioria dos formigueiros, a regurgitação é por assim dizer incessante e interrompe-se apenas para o trabalho, para os cuidados da progenitura, para o repouso e a guerra.»
Maurice Maeterlinck – A vida das formigas. 4.ª ed. Lisboa: Clássica Ed., 1950, p. 38-39

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A vida das formigas - 1

«[…] a formiga é incontestavelmente um dos entes mais nobres, mais corajosos, mais caridosos, mais delicados, mais generosos, mais altruístas que anda na terra.»
Maurice Maeterlinck – A vida das formigas. 4.ª ed. Lisboa: Clássica Ed., 1950, p. 36

Depois de A inteligência das flores, resolvi atacar A vida das formigas. Também cativante.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A inteligência das flores - 4

  
Numa visita ao Horto do Campo Grande 

É nas Orquídeas que nos encontraremos as manifestações mais perfeitas e mais harmoniosas da inteligência vegetal. Naquelas flores tortuosas e excêntricas, o engenho da planta atinge o mais alto grau e rasga com uma chama estranha o muro que separa os reinos. […] Não é fácil explicar, sem figuras, o mecanismo, extraordinariamente complexo, da Orquídea […]. Tomemos uma das Orquídeas mais conhecidas em nossas regiões, a Orchis maculata por exemplo, ou a Orchis latifolia, a Orquídea de folhas largas […]. A flor tipo das nossas orquídeas representa uma goela fantástica e escancarada de dragão chinês. O lábio inferior, muito estendido e pendente, em forma de avental recortado, serve para poisada ao insecto. O lábio superior arredonda-se numa espécie de capuz, que abriga os órgãos essenciais; ao passo que no dorso da flor, ao lado de pedúnculo, se abaixa uma espécie de esporão ou de longa corneta pontiaguda, que encerra o néctar. Na maior das flores, o estigma ou órgão feminino é uma pequena bola, mais ou menos viscosa, que, na extremidade de uma frágil haste, espera pacientemente a vinda do pólen. Na Orquídea essa instalação clássica é quase despercebida. No fundo da goela, no lugar que o gorgomilo ocupa na garganta, há dois estigmas, estreitamente soldados, por cima dos quais se eleva outro estigma, convertido num órgão extraordinário. […] Vejamos agora o que sucede, quando um insecto penetra na flor. Poisa no lábio inferior, desdobrado para o receber, e, atraído pelo cheiro do néctar, procura atingir, no fundo, a corneta que o contém. […] Maurice Maeterlinck
A inteligência das flores. Lisboa: Clássica Ed., 1918, p. 54-57 Se quiserem saber o resto, leiam o livro que é fascinante. Darwin já havia escrito um livro sobre estas flores: Da fecundação das orquídeas pelos insectos. Dei uma vista de olhos à tradução francesa e achei interessante. E eu não sou muito dada a estas leituras…

sábado, 31 de janeiro de 2009

A inteligência das flores - 3


Salva


fotos.sapo.pt/hPQJjcIZekR47HQ6dtPj/

«Eis aqui a maravilhosa cilada de amor, imaginada pela Salva: muito ao fundo da sua tenda de seda cor de violeta, destila algumas gotas de néctar; é a isca. Mas, impedindo o acesso ao líquido açucarado, erguem-se duas hastes paralelas, muito semelhantes aos madeiros giratórios de uma ponte levadiça, na Holanda. No cimo de cada haste, há uma grande empola, a antena, em que transborda o pólen; em baixo, duas empolas mais pequenas servem de contrapeso. Quando a abelha penetra na flor, para atingir o néctar tem de empurrar com a cabeça as pequeninas empolas. As duas hastes, que giram sobre o eixo, oscilam imediatamente, e as antenas superiores vão tocar no ventre do insecto, cobrindo-o de pó fecundante.
Assim que a abelha saiu, os eixos, convertidos em molas, repõem o mecanismo na sua posição primitiva, e tudo fica pronto a funcionar, para quando se dê nova visita.»
Maurice Maeterlinck
In: A inteligência das flores. Lisboa: Clássica Ed., 1918, p. 43-44

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A inteligência das flores - 2

Lírio, Tulipa e Arruda


maiacarvalho.blogs.sapo.pt/arquivo/Lirio.jpg




olhares.aeiou.pt

«[…] na Primavera, as fêmeas são alternadamente mais compridas ou mais curtas do que os machos. No Lírio, na Tulipa, etc., a esposa, muito alongada, faz o que pode para recolher e fixar o pólen. Mas o sistema mais original e mais fantasista é o da Arruda (Ruta graveolens), erva medicinal, bastante mal cheirosa, […]. Os estames, tranquilos e dóceis na corola amarela, esperam, dispostos em círculo, à roda do grosso pistilo. Na hora conjugal, obedecendo à ordem da mulher, que, aparentemente, faz uma espécie de apelo nominal, um dos machos aproxima-se e toca no estigma; depois, vem o terceiro, o quinto, o sétimo, o nono macho, até ao último que pertença à série ímpar. Em seguida, na série par, é a vez do segundo, do quarto, do sexto, etc. É deveras o amor à disciplina. Aquela flor, que sabe contar, parecia-me tão extraordinária, que eu, primeiro, não acreditei nos botânicos, e desejei verificar mais de uma vez o apego dela aos números antes de ousar confirmá-lo. Verifiquei que ela rarissimamente se engana.»
Maurice Maeterlinck
In: A inteligência das flôres. Lisboa: Clássica Ed., 1918, p. 37

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A inteligência das flores – 1

Papoila

http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/noticias_ver.asp?noticia=22514

«Não deixeis de examinar oportunamente a cabeça vulgar da Papoila, que se encontra em casa de todos os ervanários. Naquela grande cabeça, depara-se-nos uma prudência, uma previdência, dignas dos maiores elogios. Sabe-se que ela encerra milhares de grãos negros, extremamente pequeninos. Trata-se de espalhar aquelas sementes com a maior destreza e para tão longe quanto possível, caísse ou se abrisse por baixo, o precioso pó negro não formaria senão uma pasta inútil, junto da haste. As sementes, porém, só podem sair por aberturas, feitas no cimo do invólucro. Este, quando maduro, inclina-se no seu pedúnculo, oscila com a menor brisa, e espalha as sementes no espaço, com o mesmo gesto, de que se servem os semeadores.»
Maurice Maeterlinck
In: A inteligência das flores. Lisboa: Clássica Ed., 1918, p. 16

Maurice Maeterlinck, dramaturgo, ensaísta belga de língua francesa e principal expoente do teatro simbolista, recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1911. A sua obra L'intelligence des fleurs foi publicada em 1907. Durante uma breve estada em Portugal, escreveu o prefácio do discurso de Salazar, traduzido por Fernanda de Castro, Une revolution dans la paix (Paris: Flammarion, 1937).