«Tenho andado entusiasmada e muito interessada, a ler Cartas de Vila do Conde de Antero de Quental. «O volume reúne muitas das cartas que o autor açoriano escreveu, durante os quase dez anos em que viveu em Vila do Conde. Ou seja, os últimos anos da sua vida: 1881 a 1891.
«Os destinatários são muitos e variados, como Joaquim de Araújo, Ana Quental, João de Deus, Oliveira Martins, Tommaso Cannizaro, Maria Amália Vaz de Carvalho, Carolina Michaëlis, Bulhão Pato, Jaime de Magalhães Lima, Wilhelm Storck, entre muitos outros.
« Como se pode ler na p. 17, "esta correspondência representa como que um diário do escritor, pois o homem está inteiro nelas, confiando-nos o seu coração, as suas preocupações filosóficas e pessoais...".
«Antero de Quental veio para Vila do Conde, à procura de sossego e para melhorar a sua saúde. Numa carta a João Machado Faria e Maia, poeta e escritor nascido em 1846 em Ponta Delgada, pode ler-se: "vivo aqui, como verdadeiro eremita..." (p. 40)
«Exemplar rico em notas de rodapé, sobre os destinatários das cartas e não só.
Depois de terminar de ler o livro, pretendo ir a Vila do Conde, visitar a casa em questão, pois desconheço-a.»
«O Socialismo não é de hoje nem de ontem. Todos os grandes pensadores, desde Pitágoras e Platão, e Cristo e os Gracos, e os santos da primitiva Igreja e os fundadores das ordens monásticas, todos reclamaram contra a miséria e a desigualdade, em nome do direito natural e inalienável que todo o homem tem à vida, ao bem-estar, aos meios de desenvolver a sua atividade, trabalhando, á família, à instrução. A todos eles fez o espetáculo da injustiça saltar palavras de amargura e de indignação.»
Antero de Quental. In O que é a Internacional, 1871 [i. é 1872]
«Socialista para mim, não é economia política, nem "estatística que sabe fazer qualquer caixeiro". Para mim, Socialismo é ciência e filosofia social: inclui pois, com a economia, direito, história e moral, mas tudo isto fundido e filosofado de uma maneira sui generis, maneira positiva, prática, de organização, de governo, se quiser: alta política e não ciência pura. Este temperamento, que é o do verdadeiro político e do verdadeiro historiador, chamo-lhe eu Socialista.»
Antero de Quental, numa carta a Oliveira Martins, 26 fev. 1877
Antero de Quental, um dos fundadores do primeiro Partido Socialista Português (criado a 10 de janeiro de 1875, em Lisboa), nasceu fez ontem 181 anos.
O atual Partido Socialista foi fundado faz hoje 50 anos em Bad-Munstereifel (na então República Federal da Alemanha).
«Ao contacto do amor, qualquer homem torna-se poeta.»
Platão
Por pensamentos destes é que Antero escreveu a Oliveira Martins: «Os versos são a praga da literatura portuguesa pelo caráter
banal que a versalhada imprime a todos os jornais literários».
«[...] se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido ato de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito da verdade, o ato de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar. [...]
Já o disse há dias, inaugurando e explicando o pensamento destas Conferências [do Casino]: não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão: essa discussão longe de nos assustar, é o que mais desejamos; porque, ainda que dela resultasse a condenação das nossas ideias, contanto que essa condenação fosse justa e inteligente, ficaríamos contentes, tendo contribuído, posto que indiretamente, para a publicação de algumas verdades. São prova da sinceridade deste desejo aqueles lugares e aquelas mesas, destinadas particularmente aos jornalistas, aonde podem tomar nota das nossas palavras, tornando.lhes nós assim franca e fácil a contradição.» (p. 35-38)
Marcador deste livro, que acabei de ler há dias. Na verdade, já conheço o texto de Antero desde o liceu, mas reli-o com enorme prazer, nesta edição com prefácio de Ana Maria Almeida Martins.
Lisboa: Tinta da China, 2021
«Costuma apontar-se o Eça de Queirós como o modernizador da prosa portuguesa. Basta, porém, a carta 'Bom senso e bom gosto' para se provar que se houve reforma da prosa portuguesa ela já estava evidente no famoso escrito de Antero.»
Filipa Pais interpreta «O Palácio da Ventura» de Antero de Quental, um dos fundadores do primeiro Partido Socialista, em 1875, e um dos escritores que Mário Soares mais amava,
O Palácio da Ventura
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
O texto Veneza saiu inicialmente, em 1881, em A Europa Pitoresca, publicação editada em Paris por Salomão Sáragga, amigo de Antero de Quental desde o tempo das Conferências Democráticas. O texto é uma tradução - de Venice, de Thomas George Bonney, e de Voyage en Italie, de Hippolyte Taine -, a que Antero juntou trechos de sua autoria.
A presente edição, preparada e prefaciada por Andrea Ragusa, além da versão portuguesa realizada por Antero de Quental, contém ainda as ilustrações originais, e o texto inglês de Thomas George Bonney.
Um livro que devia ser de leitura obrigatória no nosso Ensino. Para ver se compreendemos onde começa e por que permanece esta mentalidade inquisitorial que não despega deste nosso povo.
Inesperado, para mim, este realce dado a Antero de Quental pelo Google.
No Circo A João de Deus
Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...
Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando...
Caí e achei-me, de repente, envolto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.
Senti um monstro em mim nascer nessa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
É assim que rujo entre leões agora!