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domingo, 7 de maio de 2023

À esquina do Rossio...

Devia ser neste local, onde o Grande Hotel Internacional abriu em 1914, que ficava a tabacaria abaixo referido por Fialho. 
Foto de Joshua Benoliel, 1914.

«À esquina do Rossio para a rua Augusta, da banda esquerda, mesmo à ponta da rua, havia uma tabacaria onde das 10 e meia da noite para as 11 aparecia a púrria de João de Deus para o cavaco: Gomes Leal, Fernando Leal, Santos Valente, Francisco d’Almeida; um Loureiro da Alfândega, Raimundo Capela, que morreu cônsul no Rio de Janeiro, Guilherme de Azevedo, o brasileiro Luís de Guimarães, ainda solteiro e secretário de legação, Guimarães Fonseca, poeta eloquente, infeliz, que Sousa bastos definiu uma vez num almanaque «Cápsula de copaíba metida em álcool», e veio a morrer na Outra banda, onde se vendia vinho mais barato…» 
Fialho de Almeida - In: Figuras de destaque. Lisboa: Clássica, 1924, pp. 45-46.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Boninas

Telheiras
Alvalade

Se eu nunca te visse,
bonina do vale,
talvez não sentisse 
nunca amor igual.

João de Deus. In «Lágrima celeste».

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

sábado, 16 de abril de 2011

...gritaram às estrelas - João de Deus


Para o João Mattos e Silva, o Luís e JP da Exposição do Jardim-Escola João de Deus de Coimbra a decorrer na Biblioteca Municipal de Coimbra.


Imagem retirada da Internet


"(...) então gritaram elas [as rãs]

Às estrelas

«Júpiter, pai do céu, envia um rei!

Envia um rei que nos governe, impondo

A ordem, o sossego, a tua lei...»

João de Deus Ramos, Fábulas para gente moça, Livraria Bertrand, sd, p. 26


De uma republicana descontente com esta República.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

"Diga a João de Deus que já sei ler"


Hoje quando abri o site do Prosimetron achei graça ao encontrar brinquedos. E porquê? Porque vinha partilhar umas fotografias que tirei na exposição sobre o Jardim-Escola João de Deus de Coimbra. A exposição está a decorrer na Biblioteca Municipal de Coimbra e é uma justa homenagem.

No seguimento dos brinquedos de MR ficam então dois brinquedos do Jardim-Escola João de Deus, em Coimbra.

De João de Deus não vou falar até porque já foi aqui lembrado por MR, apenas digo que foi através da Cartilha Maternal que aprendi a ler, um pouco antes de entrar na escola.



"Diga a João de Deus que já sei ler"


Último verso de Guilherme de Santa-Rita em homenagem a João de Deus.






terça-feira, 8 de março de 2011

A VIDA

~
Desenho de Pedroso; gravura de Caetano Alberto.
In: O Ocidente, Lisboa, 1878, p. 105

[...]
A vida é o dia de hoje
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é sombra que voa;
[...]

João de Deus
que nasceu há 180 anos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Duas rosas


Lisboa, Set. 2010.

[...]
A ti puseram-te Rosa,
Não te fizeram favor;
A rosa quem há que a veja
Bandeando, sem gostar?
Mas por mais linda que seja
A rosa quando se embala,
Não te ganha nem iguala
A ti em indo a andar!
[...]

João de Deus
In: Campo de flores. Amadora: Bertrand, 1974, t. 1, p. 282

Para o Jad.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Melancolia


Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875) - La Mélancolie, 1860
Copenhague, Ny Carlsberg Glyptotek


Oh doce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que flutua
De engano em desengano!
Oh criação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E à dor que nos oprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céu um lago,
E tu, reflexo vago
Dum sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
Oh luz orfã do dia!
Que mística harmonia
Há nessa luz tão fria,
E a sombra que me guia
Neste areal deserto!

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
Fita-te a gente, estuda,
(Sem medo que se iluda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A órbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
As vítimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as dessas feras brutas...
E as lástimas, as lutas
Da orfã e do pobre!

João de Deus
In: Campo de Flores

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Boa tarde!


Sam Barber - Hyannis Port Roses
Achei esta pintura engraçada, mas pensei que era de um impressionista no seu tempo. Afinal, Sam Barber é um pintor norte-americano, nascido na Europa, talvez nos anos 50 do século XX.
http://www.sambarber.com/

«A rosa tem linda cor,
Não há flor de cor tão linda»
João de Deus
In: «Duas rosas» - Campo de flores

Logo colocarei outro Samuel Barber - o compositor.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A Paixão na Poesia Portuguesa VI!

Paul Gauguin, Cristo Amarelo, 1889
Óleo sobre tela, 92,1 × 73 cm


JOÃO DE DEUS (século XIX)

Crucifixo

Minha mãe, quem é aquele
pregado naquela cruz?
-Aquele, filho, é Jesus...
É a santa imagem d'Ele.

- E quem é Jesus? - É Deus!
- E quem é Deus? - Quem nos cria,
quem nos manda a luz do dia
e fez a terra e os céus,

e veio ensinar à gente
que todos somos irmãos
e devemos dar a mãos
uns aos outros, irmãmente:

todo amor, todo bondade!
- E morreu? - Para mostrar
que a gente, pela verdade,
se deve deixar matar.

(Campo de Flores)

António Salvado, A Paixão de Cristo na Poesia Portuguesa, Lisboa: Polis, p.78-79.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Poeta e Pedagogo - João de Deus

Esta a minha homenagem a um poeta e sobretudo ao pedagogo que em 1870 escreveu a "Cartilha Matenal", pela qual perto de oitenta anos depois aprendi a ler facilmente e através da qual comecei a gostar de poesia.

Natural de S. Bartolomeu de Messines, onde nasceu em 8 de Março de 1830, João de Deus Ramos fez percurso habitual de muitos rapazes sem recursos mas muitos talentos, da aprendizagem no Seminário até ao ingresso na Universidade de Coimbra onde, apesar de pouco aplicado aos estudos e disperso por outras actividades, jornalísiticas e literárias, se formou em Direito.

O seu percurso de vida foi sobretudo marcado pelo jornalismo, pela poesia, pelas tertúlias onde conviveu com grandes nomes da literatura do século XIX, como Antero e Teófilo Braga, entre outros e nos últimos anos da sua vida, pela pedagogia, a partir do seu método de aprendizagem.
Morreu a 11 de Janeiro de 1896, em Lisboa, sendo o seu enterro acompanhado por muito povo.

Um Poema da Cartilha Maternal
Hymno de Amor
Andava um dia
Em pequeninoNos arredores
De Nazareth,
Em companhia
De San José,
O bom-Jesus,
O Deus-Menino.
Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha attrahido,
Tinha encantado.
Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sae do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe n'um canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma cadencia,
Que commovia
O coração!
Jesus caminha
No seu passeio,
E a avesinha
Continuando
No seu gorgeio
Em quanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
À dianteira
E mal poisava,
Não afrouxava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!
Assim foi indo
E foi seguindo
De tal maneira,
Que noite e dia
N'uma palmeira,
Que havia perto
D'onde morava
Nosso Senhor
Em pequenino,
(Era já certo)
Ella lá estava
A pobre ave
Cantando o hymno
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

CONTO INFANTIL

Elvirinha, diga, diga,
Minha amiga,
Não me quer?!...
Tudo por quanto suspira,
Dou-lhe, Elvira,
Se quiser!

Um beijinho bem saudoso
Bem mimoso,
Não me dá!
Não me mata este desejo?
Dá-me um beijo?
Diga lá!

Não me conta alguma história,
Minha glória,
Minha flor?!
Não me conta algum continho
Meu anjinho,
Meu amor?!

Se não conta, então eu conto
Lindo como
Que aprendi,
Quando eu era dessa idade
Numa herdade
Que há aqui.

E ele é tão lindo, tão lindo!...
Vá ouvindo:
Mete dó!
Pobre galo, morto à faca,
De casaca e paletó!

Lembrou-se ele, esse tal gaio…
(Vou contá-lo,
Há-de ser já:)
Ir um dia de espavento
Ao convento,
Que além está.

Bons sapatos novozinhos
Nos pezinhos
Encaixou;
Vestiu calças de veludo,
Vestiu tudo
Quanto achou.

Lenço bordado de flores
Fruta-cores,
De cetim,
Tão lindo quem nem de seda
Que lhe exceda
Vi assim!

Pediu a sege ao vizinho,
Seu padrinho
E seu patrão,
Tão galante, tão bonita,
Tão catita,
Que mais não.

Salta nela e vai trotando
Suspirando
Por ver já
Certa franga seus maores
De mil cores,
Que lá está.

Chega à porta canta o galo,
Vem escutá-lo
Do quintal
Mui contente a franguinha:
Bonitinha
Que era a tal.

Confessou-lhe a prisioneira
Mui lampeira
O seu amor,
Ouve o galo, e na loucura
Vai, procura
O confessor.

Diz o galo: -Meu compadre,
Senhor padre,
Quer ouvir?
Tenho aqui um casamento
No convento
Que pedir.

«Pois filho, que demoramos?
Vamos, vamos,
Se lhe apraz;
Que sem falar à rodeira
Faz asneira,
E nada faz.»

Foram ambos e bateram
Responderam
Mas então?!
Responderam que em conventos
Casamentos
Nunca estão!

Pede o galo em segredinho,
De mansinho
Diz e diz…
Toma-o ela à sua conta
Pela ponta
Do nariz.

Tira uma faca do bolso
E o pescoço
Tal lhe fez,
Que os dois quartos da casaca
Pôs-lhe a faca
Em mais de três.

Veja agora, minha Elvira,
Se admira
E faz chorar!
Perder assim um fadista
Vida e crista por casar!

Diga, pois, se foi ouvindo,
Não é lindo?...
Mete dó!
Pobre galo morto à faca
De casaca
E paletó!

João de Deus

sexta-feira, 8 de maio de 2009

MODINHA

Ah! se eu fosse borboleta,
Violeta!
Por quem ao sol derretera
As minhas asas de cera
E ouro em pó?

Ah! se eu fosse borboleta,
Violeta!
Deixaria a rosa e a dália,
Nuvens, bosques, céu de Itália,
Por ti só.

João de Deus
In: Campo de flores. Lisboa: Bertrand, 1974, vol. 1, p. 61

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Poesia e prosa de Natal - 17

Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.
Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração!
Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
A dianteira
E mal poisava,
Não afroixava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo)
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!

João de Deus, Cartilha Maternal

quinta-feira, 10 de julho de 2008

São só mais um

Dia de Anos

Com que então, caiu na asneira
De fazer, na quinta-feira,
****** e **** annos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas…fazê-los…não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o anno passado…
Agora, o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo! Coitado!
Não faça tal…porque os annos…
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho.
Faça outra coisa, que, em summa,
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho,
Mas…annos…! Não caia nessa!
Olhe…que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois, se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los…queira ou não queira!

João de Deus
[Campo de flores]

sábado, 28 de junho de 2008

crónicas do mundo

Véspera de São Pedro.

M., na impossibilidade de me dar um manjerico - só por causa do peso e do volume - deixou-me um saco com dois livros e um cravo com um poema, em vez de uma quadra popular!
Os livros são para ler em Itália, enquanto ando nas minhas (nossas) viagens; a saber:
- Corrado Augias, I segreti di Roma (Os segredos de Roma) © 2006, que ocupou grande parte das montras das Livrarias romanas e continua a ser uma presença.
- Enzo Striano, Il Resto di Niente (publicado em Portugal com o título: A Portuguesa de Nápoles) © 2005.
O cravo e o seu poema foram-me deixados certamente para recordar os Santos Populares; e dado que hoje é dia 28 de Junho [vigília de S. Pedro e de S. Paulo] espera-se uma longa noite... Algumas cidades, como Roma, não vão adormecer, dado que 29 de Junho é feriado em todo o perímetro de Roma; festejam-se os seus padroeiros (Roma - dia de S. Paulo; Vaticano - dia de S. Pedro).
Em Turim tentei declamar a M. um poema de João de Deus... saíram apenas alguns versos soltos. M. aproveitou a oportunidade para mos enviar na sua totalidade, presos num cravo.

Beijo

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!

*

Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor!
A vida foge
A vida é hoje,
Amor!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...

*

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!

Três é a conta
Certinha e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três.

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?

Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três!

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês!
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três!


João de Deus.
[Campo de Flores (1896)]

Boa noite de S. Pedro! Que custa um beijo? Aproveite a oportunidade e Dê!