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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Olavo Bilac

Praça do Brasil, Setúbal.
Foto ago. 2020.

«A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos económicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo
Olavo Bilac

Parece que Pessoa teve um antecessor a pensar o mesmo.

sábado, 24 de setembro de 2016

Em uma tarde de Outono

Gustave Caillebotte - Barcos à vela em Argenteuil, 1888

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Velhas Árvores

Boa semana!

As árvores morrem, no entanto, podem continuar vivas como esta que agora é um canteiro.





Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac, in "Poesias" [cortesia do Google]

sábado, 30 de maio de 2015

Para acompanhar o café

algumas sugestões: as mais belas poesias de Olavo Bilac escolhidas por José Régio; Contos de Anne Frank, um livro com ilustrações curiosas (ambos comprados na Livraria Lumière) e Hotel Locarno de António Mega Ferreira, comprado na FNAC. Um livro de contos (13) em que se contam desencontros e incompreensões, * como os quartos fechados, sem portas de comunicação uns com os outros, à sombra do Hotel Locarno. Não sei se este último livro já andou por aqui. 


Capa de Infante do Carmo com ilustração de Miguel Flávio,      Ilustração Guida Santana Fernandes, 10 anos,  da
16 anos, da Escola António Arroio (sd)                               Escola Comercial e Industrial de Loulé (sd)


Pantum

Quando passaste, ao declinar do dia,
Soava na altura indefinido harpejo:
Pálido, o céu do sol se despedia.
Enviando à terra o derradeiro beijo.

Soava na altura indefinido harpejo...
Cantava perto um pássaro, em segredo;
E, enviando à terra o derradeiro beijo,
Esbatia-se a luz pelo arvoredo.

Cantava perto um pássaro em segredo;
Cortava fitas de ouro e firmamento...
Esbatia-se a luz pelo arvoredo:
Caíra a tarde; sossegara o vento.

(...)

Olavo Bilac, doze primeiros versos do poema Pantum, 

as mais belas poesia de Olavo Bilac escolhidas por José Régio, Artis, 1966, p. 11.
Desta edição fez-se uma tiragem com 120 exemplares, em papel Arte, numerados e assinados por José Régio, sendo os últimos vinte, (I a XX) fora do mercado.

Ilustrações de Manuel Lapa, Maria Keil, Rogério Ribeiro e Sá Nogueira.

*Emenda - 13 contos isolados, o Alentejo está presente num deles. (0:15 h, 2-6-15)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Em uma tarde de Outono

Peter Nilus - Outono, 1893

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos 
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Voador

"Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão,
 inventor do aeróstato, morreu miseravelmente
 num convento, em Toledo, sem
 ter quem lhe velasse a agonia."

 O Voador

Em Toledo. Lá fora, a vida tumultua
E canta. A multidão em festa se atropela...
E o pobre, que o suor da agonia enregela,
Cuida o seu nome ouvir na aclamação da rua.

Agoniza o voador. Piedosamente, a lua
Vem velar-lhe a agonia através da janela.
A febre, o Sonho, a Glória enchem a escura cela,
E entre as névoas da morte uma visão flutua.

"Voar ! varrer o céu com asas poderosas,
Sobre as nuvens ! correr o mar das nebulosas,
Os continentes de ouro, o fogo da amplidão!..."

E o pranto do luar cai sobre o catre imundo...
E em farrapos, sozinho, arqueja moribundo
Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão.

 Olavo Bilac, As Viagens X, in Biblioteca Virtual

sábado, 19 de dezembro de 2009

Em uma tarde de Outono


Painel de azulejos da autoria do Ferreira das Tabuletas.
Lisboa, Antigo Refeitório do Convento da Trindade, actual Cervejaria da Trindade

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

quarta-feira, 29 de abril de 2009

[VIA LÁCTEA]

«Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!» E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-Láctea, como um pálio aberto,Cintila.
E, ao vir do Sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: «Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?»

E eu vos direi: «Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.»

Olavo Bilac