Gravura antiga de Setúbal
Mesmo no tempo invernoso, mas mais na Primavera e no Outono, um dos lugares onde o meu pai gostava de ir, aos domingos, em passeio, era Setúbal. Era, então, nos anos cinquenta do século passado, uma cidade mais pacata. Embora não ficasse a uma grande distância de Lisboa, os transportes públicos eram mais vagarosos, principalmente as camionetas, mas também o comboio e não havia autoestrada que permitisse, como hoje já acontece, viver ali e trabalhar na capital.
Setúbal vista do mar
Era programa de dia inteiro. Chegava-se perto do almoço que era tomado num dos restaurantes da Av. Luísa Todi ou junto à doca. Depois passeava-se. Umas vezes junto à costa, até uma monstruosidade chamada Secil, um atentado ao ambiente e à paisagem. Outras vezes dentro da própria cidade, vendo lugares antigos e visitando, por exemplo, a Igreja do Convento de Jesus. Também se ia, não me recordo como, mas creio que quando na companhia da minha tia Ema, irmã mais velha da minha mãe e do meu primo Rogério que tinha carro, até ao Forte de S. Filipe onde se lanchava e se gozada a maravilhosa vista sobre a baía, a cidade e do outro lado Troia. Com eles também me lembro de ter ido, a partir de Setúbal e no regresso a Lisboa, à serra da Arrábida, a "serra mãe" de Sebastião da Gama.
Forte de S. Filipe
Num desses passeios aprendi muito mais sobre Bocage, cuja estátua inaugurada em 1871 vi na praça com o seu nome, do que as anedotas inocentes que dele sabia ("o pum que esta senhora deu, não foi ela, fui eu") e Luísa Todi, por curiosidade em saber quem dera nome à rua onde passava em cada visita e ao seu busto, num monumento com pautas musicais.
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Outro passeio que fazíamos a partir de Setúbal, de ferry boat, para grande gáudio meu e da minha irmã, era Troia, onde passeávamos à beira mar, lanchávamos e onde visitámos as ruinas romanas, cujos trabalhos conheciam então novo ímpeto.
Não resisto a contar um pequeno episódio, passado uns anos depois, com um amigo de infância que teria então os seus 13 ou 14 anos e é hoje um conceituado heraldista que, interessado por tudo o que era História e cultura em geral, resolveu ser arqueólogo por conta própria em Troia. Um dia, não sei porque artes, conseguiu subtrair e trazer para casa, muito muito perto da minha, uma ânfora romana. Vinha ufano. E tão ufano, que ao entrar em casa tropeçou no capacho e fez em cacos o achado arqueológico. Tentámos, eu e ele, restaurar a ânfora. Tarefa impossível.
Ruínas romanas de Troia
E aqui termino as minhas lembranças das praias e lugares por onde passei quando era menino e moço. Haveria por certo outros: ou sem recordações especiais ou apenas lugares episódicos.