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terça-feira, 21 de maio de 2019

Parabéns, Chico!


Foi através desta peça que o TUCSP trouxe ao Teatro Avenida que conheci Chico Buarque e li de seguida a peça de teatro de João Cabral de Melo Neto. O poema musicado por Chico Buarque «Funeral de um lavrador» ficou-me na memória.
A seguir veio A Banda:

sábado, 21 de junho de 2014

Parabéns, Chico Buarque!

Já há dias que pensava em fazer um post sobre Chico Buarque que fez 70 anos há dois dias.
Vi-o, pela primeira vez, na década de 60, quando o Teatro da Universidade de São Paulo se apresentou no Teatro Avenida, em Lisboa, com a peça Morte e Vida Severina. Chico Buarque é o autor da música e um dos atores, ninguém sabia quem ele era, mas percebeu-se que era especial. Adorei a peça e o meu pai deu-me o livro de João Cabral e Melo Neto. De vez em quando lei-o, não o devo ter arrumado e não consigo encontrá-lo.


Depois veio A Banda que o deu a conhecer. Tive este disco, mas não o encontro. Em 45 r.p.m. só tenho este, que comprei no dia 9.3.1974, na discoteca do Apolo 70, que era, n época, muito boa:






Em LP, tenho A Ópera do Malandro, para mim, um dos melhores discos de Chico, baseado na Ópera dos Mendigos e na Ópera dos Três Vinténs:



quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Futebol nas Letras - 27


O FUTEBOL BRASILEIRO EVOCADO DA EUROPA

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Memória de um grande poeta

Quem é alguém que caminha
Toda a manhã com tristeza
Dentro de minhas roupas, perdido
Além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
Como se levassem nos bolsos
Doces geografias, pensamentos
De além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
Vem morrer no longe horizonte
Do meu quarto, onde esse alguém
É vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
Coisas em voz que não ouço.
- Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

João Cabral de Melo Neto
In "O engenheiro", 1945.

Nasceu em 9 de Janeiro de 1920

terça-feira, 12 de junho de 2012

Futebol nas Letras - 20



Bola de futebol...é um utensílio semivivo,
reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mãos.

João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Joaquim do Rego Monteiro, pintor

Vicente do Rego Monteiro (1899-1970) - Retrato de Joaquim do Rego Monteiro
Óleo sobre tela, 1920

José do Rego Monteiro (1903-1934) - Arco do Triunfo
Óleo sobre tela, 1927

Esse recifense em Paris
taquigrafou (como Miró)
o magro e o nu, o inexcessivo
de onde nasceu e se exilou;
e essa parca caligrafia
de recifense soube apor
aos verdes podres do alagado,
traduzindo o que é lama em cor.

João Cabral de Melo Neto
In: Poesia completa: 1940-1980 Lisboa: Imp. Nac.-Casa da Moeda, 1986, p. 98

domingo, 9 de janeiro de 2011

A Carlos Drummond de Andrade


Carlos Drummond de Andrade, escultura de Leo Santana, 2003.
Rio de Janeiro, na Praia de Copacabana, frente à rua onde C. D. de A. viveu.
X
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

João Cabral de Melo Neto [que faria hoje 91 anos]

sábado, 30 de outubro de 2010

A mulher sentada

Richard Emil Miller (1875-1943) - Rêverie, 1916-1917
X
Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sobre seus cabelos.
x
(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).
x
Mulher sentada. Tranquila
na sala, como se voasse.
x
João Cabral de Melo Neto
In: Poesia completa. Lisboa: Imp. Nac.-Casa da Moeda, 1986, p. 415-416

Para Regiani Moraes e para o seu Barulho da Alma.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Futebol nas Letras - 12

O torcedor do América F. C.

O desábito de vencer
não cria o calo da vitória;
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas.
Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto do sol no Cais da Aurora.


http://yougol.files.wordpress.com/2009/07/vasco49_ademir1.jpg

A Ademir Meneses

Você, como outros recifenses,
nascido onde mangues e o frevo,
soube mais que nenhum passar
de um para o outro, sem tropeço.

Recifense e, assim, dividido
entre dois climas diferentes,
ambidestro do seco e do úmido
como em geral os recifenses,

como você, ninguém passou
de dentro de um para o outro ritmo
nem soube emergir, punhal, do lento:
secar-se dele, vivo, arisco.

João Cabral de Melo Neto
In: Poesia completa. Lisboa: IN-CM, 1986, p. 82, 97-98

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O Futebol nas Letras - 8

O futebol brasileiro evocado da Europa

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e, embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

João Cabral de Melo Neto

sábado, 9 de janeiro de 2010

João Cabral de Melo Neto recordado

Uma Faca só lâmina
ou
Serventia de idéias fixas

para Vinícius de Moraes

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
sumerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

João Cabral de Melo Neto
( Recife, 9.1.1920 -Rio de Janeiro, 9.10.1999)

Um dos maiores poetas de língua portugesa do séc. XX, autor de uma vasta obra, de que se recorda "Morte e Vida Severina", membro da Academia Pernambuca de Letras, onde nem na posse esteve presente,Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero - Americana, Prémio Camões.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Lição de Poesia

A LIÇÃO DE POESIA

Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis − naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidasnas
águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

João Cabral de Melo Neto, in « O Engenheiro», 1945.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Catar Feijão, João Cabral de Melo Neto!

João Cabral de Melo Neto

Catar Feijão

1.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/joao-cabral-de-melo-neto/catar-feijao.php

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

João Cabral de Melo Neto



João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade do Recife, a 9 de Janeiro de 1920, filho de Luís António Cabral de Melo - descendente de portugueses de São Miguel, Açores, pelo seu quarto avô, João de Melo Azevedo - e de D. Carmen Carneiro Leão Cabral de Melo. Eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 15 de Agosto de 1968, tomou posse da sua cadeira em 6 de Maio de 1969.

No Rio inscreveu-se, em 1945, no concurso para a carreira de diplomata. Daí por diante, já enquadrado no Itamarati, inicia uma larga peregrinação por diversos países. Em 1984 é designado para o posto de Cônsul -Geral na cidade do Porto, em Portugal. Em 1987 volta a residir no Rio de Janeiro.

Recebeu, pela sua actividade literária, entre outros, os Prémio José de Anchieta, de poesia, do IV Centenário de São Paulo (1954); Prémio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (1955); Prémio de Poesia do Instituto Nacional do Livro; Prémio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; Prémio Bienal Nestlé, pelo conjunto da Obra e Prémio da União Brasileira de Escritores, pelo livro "Crime na Calle Relator" (1988).

Em 1990 João Cabral de Melo Neto é aposentado no posto de Embaixador. A Editora Nova Aguilar, do Rio de Janeiro, publica, no ano de 1994, sua "Obra completa".

A um importante trabalho de pesquisa histórico - documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, deu João Cabral o título de "O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha". Com as comemorações programadas neste final do século, relacionadas com os feitos dos navegadores espanhóis e portugueses nos anos que antecederam ou se seguiram ao descobrimento da América, e, em particular ao do Brasil, a pesquisa de João Cabral assume valor inestimável para os historiadores dos feitos marítimos, praticados naquela época.

Em prosa, além do livro de pesquisa histórica já citado, João Cabral publicou "Juan Miró", 1952 e "Considerações sobre o poeta dormindo", 1941.

Morreu no dia 09 de Outubro de 1999, no Rio de Janeiro, aos 79 anos.

Fonte: Biblioteca Virtual de Literatura


"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."

(Morte e Vida Severina)