Prosimetron

Prosimetron
Mostrar mensagens com a etiqueta Ofélia Marques. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ofélia Marques. Mostrar todas as mensagens

sábado, 14 de novembro de 2020

Auto-retrato(s) - 290

Ofélia Marques - Aurorretrato, s.d.
Guache e grafite sobre papel
Ofélia Marques - Autorretrato,1936
Des. a tinta-da-china sobre papel

sábado, 1 de junho de 2013

A nossa vinheta

Ilustração de Ofélia Marques para o artigo de Adolfo Simões Müller, «A literatura da infância» 
(Panorama, Lisboa, Natal 1944)

«a natureza determina que as crianças sejam crianças antes de serem homens»
Jean-Jacques Rousseau (in: Emílio)

É a nossa vinheta no Dia Mundial da Criança Todas as crianças deveriam ter direito ao ócio.


Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu -
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Aventuras (maravilhosas) de João Sem Medo

A Assembleia da República vai amanhã evocar José Gomes Ferreira, por ocasião dos 50 anos da publicação das Aventuras de João Sem Medo em livro. E já agora pelos 80 anos da publicação em folhetim, em O Senhor Doutor. Saiu nesta revista infantil entre abril e setembro de 1933, com ilustrações de Ofélia Marques e sob o título de «As maravilhosas aventuras de João Sem Medo». Na primeira edição , em livro, chamou-se Aventuras maravilhosas de João Sem Medo e, posteriormente, apenas Aventuras de João Sem Medo.
N.º 1 d'O Senhor Doutor, dirigido por Carlos Ribeiro.
As quatro primeiras ilustrações de Ofélia Marques, de um total de 25, publicadas em O Senhor Doutor, entre 8 e 29 de abril de 1933. Não entendo por que nunca se fez uma edição em livro com estas ilustrações.
Lisboa: Portugália, 1963
Capa de João da Câmara Leme 
4.ª ed. Lisboa: Diabril, 1975
10.ª ed. Lisboa: Moraes, 1979
17.ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 1991
19.ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 1999
1.ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 2008. (Booket)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Lisboa: Rua João Pereira da Rosa, n.º 6


Outra foto da casa da Calçada dos Caetanos, onde habitaram: Ramalho Ortigão, nas águas-furtadas; Oliveira Martins e sua mulher Vitória; Fernanda de Castro e António Ferro; José Gomes Ferreira e sua mulher, Ingrid Hestnes; Bernardo Marques e Ofélia Marques.
Não deve haver muitos prédios em Lisboa, com habitantes tão ilustres.
Foto de Eduardo Portugal
Lisboa, Arq. Fotográfico da CML, B094509

Onde se fala de Ofélia e Bernardo Marques - 2

Ainda das memórias de Fernanda de Castro :

" (...) Não foram os comprimidos que a mataram, foi a solidão! É preciso dizer que, nessa altura, ela e o Bernardo já estavam separados há imenso tempo e que o Fred Kradolfer e o Zé Gomes Ferreira também já se tinham mudado e que, portanto, ela agora vivia sozinha. As suas únicas companhias, fora as visitas que já não eram muitas, era uma criadita, a Maria, que entrava de manhã e saía à tarde, e o seu gato, que nunca a abandonava e que, estranhamente, estava enroscado a seus pés quando a encontraram inanimada na manhã da sua morte. Soube-se mais tarde que ela sempre tivera a mania do suicídio e que fizera a primeira tentativa aos 14 anos! Não teve pois nada que ver com o Bernardo o suicídio da Ofélia, assim como não teve nada que ver com Ofélia o suicídio do Bernardo, ocorrido algum tempo depois e com o qual algumas pessoas sensacionalistas tentaram estabelecer ligação. "

E por aqui me fico sobre Ofélia Marques, uma vez que a nossa M.R. já anunciou que se lhe irá dedicar brevemente.

Ofélia Marques: Retratos dos amigos quando jovens - 1


Bernardo Marques


José Gomes Ferreira


Manuel Mendes


António Dacosta

Onde se fala de Ofélia e Bernardo Marques

" Pensando nos momentos maus, lembro-me daquela noite triste e chuvosa, que nunca esqueci nem poderei esquecer. Seriam 10 horas da noite. Os pequenos dormiam e eu acabava de ler, na sala, um livro que não me apetecia largar. De repente, alguém bateu à porta. Não era o António, que só voltava do S.N.I. por volta das duas horas da manhã. Era a Ofélia Marques, mulher do Bernardo Marques, a minha vizinha do segundo andar, que vinha molhada, muito abatida e com um ar friorento. Disse-lhe para entrar, levei-a para a sala e ofereci-lhe café que tomou e agradeceu, dizendo-me que era exactamente o que lhe apetecia naquele momento.
Conversámos de várias coisas, falámos do retrato, que ela estava a pintar, da mulher do Olavo d' Eça Leal, retrato que mais tarde lhe valeu o Prémio Sousa-Cardoso no concurso anual do S.N.I., mas vi perfeitamente que, apesar dos esforços que fazia para parecer natural, estava tensa e com certeza pouco feliz. Por volta das 11 horas despediu-se, dizendo:
- Estou cansada e além disso sei que você costuma deitar-se com as galinhas.
Eu protestei, mas ela insistiu em ir-se embora. Despedimo-nos, fechei a porta, fui deitar-me e adormeci rapidamente, como de costume. Contudo, antes de adormecer, ouvi correr água na casa de banho que ficava por cima da minha e pensei: « A Ofélia vai tomar um banho quente e faz bem porque tinha ar de estar gelada.» No dia seguinte, à hora do costume, por volta das nove, quando me levaram à cama o pequeno-almoço, a Jacinta entrou no meu quarto muito aflita, dizendo repetidas vezes::
- Ai que desgraça, que grande desgraça! A senhora Dona Ofélia morreu!
Fiquei tonta, desmoralizada, e perguntei-lhe:
- O quê?! Quando? Como?
A Jacinta, com muitas pausas e muitas hesitações, acabou por me dizer:
- Foi a Maria que a encontrou. Ela tem as chaves da casa e quando entrou à hora habitual e levou o café à senhora, viu logo que ela estava morta, porque estava gelada e não respirava. -E a Jacinta continuou: - Parece que tomou um banho antes de se deitar, vestiu uma camisa muito bonita e deitou-se com o gato aos pés, como era seu costume.
Eu levantei-me, arranjei-me o mais depressa que pude e fui lá acima para ver se precisavam de mim ou do telefone para alguma coisa. Já lá estavam duas ou três pessoas de família e uma amiga que me disse em voz baixa, quase ao ouvido:
- Matou-se! Tinha um tubo de comprimidos vazio em cima da cama. (...) "
- Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória, II vol. , 1939-1987, Editorial Verbo, 1987.


Para a M.R. e para a Ana que me fizeram lembrar desta passagem das memórias de Fernanda de Castro.