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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Agamben - 5

Ideia da vocação

A que coisa é fiel o poeta? A pergunta envolve certamente qualquer coisa que não pode ser fixada em proposições ou em profissões de fé memorizadas. Mas como se pode conservar uma fidelidade sem nunca a formular, nem sequer a si próprio? Ela teria sempre de sair da mente no próprio instante em que se afirma.
Um glossário medieval explica assim o sentido do neologismo dementicare ( esquecer ), que tinha passado a ser usado para substituir o termo literário oblivisci: dementicastis: oblivioni tradidistis. Aquilo que se esqueceu não foi simplesmente anulado, posto de parte: foi consignado ao esquecimento. O esquema desta informulável tradição foi exposto, na sua forma mais pura, por Hölderlin quando, nas notas à tradução do Édipo de Sófocles, escreve que o deus e o homem, " para que não desapareça a memória dos olímpicos, comunicam na forma, esquecida de tudo, da infidelidade".
A fidelidade àquilo que não pode ser tematizado, mas também não simplesmente silenciado, é uma traição de natureza sagrada na qual a memória, girando subitamente como um redomoinho, descobre a frente de neve do esquecimento. Este gesto, este abraço invertido da memória e do esquecimento, que conserva intacta, no seu centro, a identidade do que é imemorial e inesquecível, é a vocação.

-Giorgio Agamben, A Ideia da prosa, tradução, prefácio e notas de João Barrento, Cotovia, 1999.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Agamben - Ideia da Prosa : 2

Ideia do silêncio

Numa recolha de fábulas dos fins da Antiguidade lê-se este apólogo:
" Os Atenienses tinham por hábito chicotear a rigor todo o candidato a filósofo, e , se ele suportasse pacientemente a flagelação, poderia então ser considerado filósofo. Um dia, um dos que se tinham submetido a esta prova exclamou, depois de ter suportado os golpes em silêncio:
« Agora já sou digno de ser considerado filósofo! » Mas responderam-lhe, e com razão:« Tê-lo-ias sido, se tivesses ficado calado» . "
A fábula ensina-nos que a filosofia tem certamente a ver com a experiência do silêncio, mas que o assumir dessa experiência não constitui de modo nenhum a identidade da filosofia. Esta está exposta no silêncio, absolutamente sem identidade, suporta o sem-nome sem encontrar nisto um nome para si própria. O silêncio não é a sua palavra secreta- pelo contrário, a sua palavra cala perfeitamente o próprio silêncio.

- Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, Trad.,pref. e notas de João Barrento, Cotovia, 1999.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Agamben - Ideia da Prosa : 1


Ideia do amor



Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente- tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal- estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.



- Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, Trad., prefácio e notas de João Barrento, Cotovia, 1999, 111.